domingo, 9 de setembro de 2007

As potências da imagem

As potências da imagem
O crítico José Carlos Avellar examina o diálogo do cinema com a literatura, as artes plásticas e a música

JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

Quando se pensa no binômio "literatura-cinema", a idéia mais imediata que vem à mente é a das adaptações literárias, ou seja, a transformação de livros em filmes. Mas, como mostra cabalmente o recém-lançado "O Chão da Palavra", do crítico José Carlos Avellar, a relação entre esses dois termos está longe de ser uma viagem de mão única da letra em direção à imagem.
O subtítulo do livro -"Cinema e Literatura no Brasil"- é enganoso pela modéstia. O ensaio de Avellar não se restringe ao Brasil nem aos dois meios de expressão em foco.
Com erudição e fluência admiráveis, o crítico passeia pelas relações entre o cinema e praticamente todas as outras artes.
E não apenas no sentido mais evidente, o de apontar a absorção pelo cinema de temas e formas da literatura, do teatro, da música e da pintura mas também -e principalmente- na investigação do que existe de cinema, ainda que em embrião, em cada uma dessas artes.

Pré-história
Um dos veios mais interessantes de "O Chão da Palavra" é justamente a discussão que Avellar, tomando emprestado o termo "cinematisme", de Serguei Eisenstein, empreende em torno do "cinema que existiu antes do cinema".
"O cinema talvez se encontre presente, latente, como estrutura comum aos muitos modos de ver e sonhar o mundo criados desde que o homem começou a se pensar como um processo e saiu em busca de um aparelho capaz de registrá-lo assim: coisa não-acabada, não-concluída, incompleta, rascunho. Compreendendo-se como rascunho, para melhor se pensar, o homem criou uma expressão-rascunho, todo o tempo em movimento para fora de si mesma", resume o crítico.
Assim, pode-se pensar o diálogo do cinema não apenas com a literatura, as artes plásticas e a música que surgiram já sob o seu impacto -ou seja, depois da invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière, no final do século 19- mas também com a pintura de Velázquez, a literatura de Machado de Assis e uma infinidade de experiências artísticas em que o cinema aparece em estado de embrião, desejo, potência.
Só depois de refletir acerca das afinidades e intersecções entre as várias artes, vistas como estruturas de organização do imediatamente visível e de construção do imaginário, é que Avellar se debruça mais detidamente sobre as relações entre filmes e livros, não só no Brasil (as tentativas de adaptação de Proust, por exemplo, ocupam todo um capítulo).
O cerne do livro é o diálogo fecundo entre alguns escritores centrais da nossa literatura (Machado de Assis, Euclydes da Cunha, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector) e os cineastas que ousaram levá-los ao cinema (Nelson Pereira dos Santos, Julio Bressane, Eduardo Escorel, Leon Hirszman etc.).
Não se trata apenas das adaptações literárias "sctricto sensu" mas da absorção, pelo cinema, de idéias e procedimentos expressivos ou narrativos da literatura -e vice-versa.
Um filme como "Deus e o Diabo na Terra do Sol", embora baseado em roteiro original de Glauber Rocha, deixa ver a todo momento a influência marcante de Euclydes da Cunha e Guimarães Rosa sobre o cineasta baiano.

Mário e Machado
Um caso que ilustra bem a natureza de mão dupla das relações entre literatura e cinema é o de "Lição de Amor", de Eduardo Escorel, inspirado em "Amar, Verbo Intransitivo", de Mário de Andrade. Aparentemente, o romance é muito mais "cinematográfico" do que o filme, no sentido da utilização de recursos como a montagem descontínua e o deslocamento do ponto de vista.
Outra passagem brilhante do livro é a que compara duas versões cinematográficas das "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o "Brás Cubas" de Julio Bressane e o "Memórias Póstumas" de André Klotzel. "Klotzel leu o que Brás Cubas escreveu. Bressane leu o que Machado escreveu", diz Avellar.
E na sua explicação para essa sutil diferença resume-se a razão de ser desse belo e alentado ensaio.



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O CHÃO DA PALAVRA - CINEMA E LITERATURA NO BRASIL
Autor: José Carlos Avellar
Editora: Rocco (tel. 0/xx/21/ 3525-2000)
Quanto: R$ 48,50 (438 págs.)
by uol http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0209200708.htm

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