sábado, 29 de setembro de 2007

No novo livro de contos de Luís Arraes




LITERATURA
Entre a palavra e o silêncio
No novo livro de contos de Luís Arraes, situações cotidianas e prosaicas se tornam matéria ficcional inventiva
Por Luiz Carlos Monteiro

A prática da narrativa curta pelos autores contemporâneos tem se revelado uma tendência estética assumida por escritores conhecidos e estreantes. Talvez pela velocidade exigida pelo modo de vida e vivências atuais, ou por uma questão de driblar o tempo ou a sua falta, cai em relativo desuso cada vez mais a história longa, de enredo mirabolante, numerosos personagens e espacialização que se abre em muitos lugares e extensões. É nesta perspectiva minimalista da prosa de ficção, com inclinação acentuada e preferencial para o conto, que o ficcionista Luís Arraes entretece os textos de O Silêncio É de Prata e a Palavra É de Ouro. Professor universitário e médico por formação, Luís Arraes transita com desenvoltura, como muitos outros profissionais de áreas diversas, pela criação literária. Sua bibliografia inclui, entre outros, trabalhos como O Rastejador, publicado no Recife em 1991, passando por O Remetente (2003), até chegar ao irônico e irreverente Anotações para um Livro de Baixo-Ajuda (2005), ambos editados pela 7 Letras no Rio de Janeiro.

Na primeira parte intitulada “O Silêncio”, os textos aparecem numerados até 35, entre estes alguns também titulados. Neste último caso, encontra-se o incisivo “Conto em forma de posfácio”, de número 30, que vale por um verdadeiro auto de fé do contista: “Escrevo contos. Pequenos contos. Cada vez menores. Talvez, uma metáfora da vida. Tudo é inútil ou as palavras vão rareando até tornarem-se apenas silêncio absoluto. O eterno silêncio”. A criação se confunde com a morte por descrédito na vida, ou apenas pelo que ambas representam de silêncio cético e “eterno”. Ainda mais, pela necessidade e urgência da vida, pela escassez de vida fruindo em direção aos sentidos e ao prazer, um prazer quase sempre banalizado, artificial, extremamente efêmero.

Ao longo de O Silêncio É de Prata e a Palavra É de Ouro, Luís Arraes vai subliminar ou diretamente fornecendo pistas sobre seus autores preferenciais – Franz Kafka, Manuel Bandeira, Anton Tchekhov. Augusto Monterroso, hondurenho naturalizado mexicano, é, certamente, uma grande influência em Arraes. É Monterroso (1921–2003) quem dá a tônica da segunda parte, “A Palavra”. O microconto de Monterroso “O Dinossauro” (“Quando acordei, o dinossauro ainda estava lá.”) é parodiado, citado, invertido e parafraseado em 40 textos que Arraes intitulou “Variações”. O texto destas variações já tinha sido publicado em outras ocasiões, sozinho, como parte de livros ou na internet, no site “Dubito Ergo Sum”, subintitulado “Sítio cético de literatura e espanto”. Referem-se diretamente a Monterroso as variações de 11 a 13, onde nesta última Arraes lança luz sobre os sentimentos, que podem sugerir e esclarecer, em termos do fantástico e do surreal, sobre a presença do dinossauro na vida do hondurenho: “O dinossauro não sobreviveu mais que uns poucos dias à morte do escritor Augusto Monterroso. Dessa forma, descobriu-se o que as ossadas existentes não revelaram: os dinossauros eram dotados de sentimentos”.

Mesmo que o texto de Luís Arraes tenha um andamento convencional em termos de sintaxe, o leitor é surpreendido, quase sempre, com uma frase inusitada, uma expressão diferenciada que abala e muda o contexto, um verbo, um pronome, uma conjunção aplicada de forma absurdamente inventiva e infreqüente. É o caso, por exemplo, do texto 14: “Na vida cabe tudo. O canto e o silêncio. A alegria e a tristeza. O sono e a vigília. A fina consciência das coisas e a cegueira total. O domingo de futebol e o domingo lavando carro. A sede e a embriaguez. Cabe tudo. Só não cabe a tragédia; esta já é do lado da morte”. Situações cotidianas e prosaicas se tornam matéria ficcional dos microcontos de Arraes: a família à mesa, assaltos, crimes, batidas de carro, enterros, certo viés inédito da vida universitária, doenças, a boemia e os amigos. O texto 5, sem título, resume-se a “O celular não estava funcionando. Nem eu”. Poderia ser confundido com um poema marginal da geração 70. Reflete como as duas máquinas, a humana e a metálica podem, de repente, ameaçar a normalidade da vida com a sua parada ou com a sua falta de funcionamento temporário.


(Leia a matéria na íntegra, na edição nº 81 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas)

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