sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O Brasil na Visualidade Popular João de Jesus Paes de Loureiro




"O Brasil na visualidade popular"



A exposição "O Brasil na Visualidade Popular" – exibida ao público durante o último trimestre de 2000 no Museu de Arte da Pampulha – "reúne objetos inusitados, produzidos neste último século pelo povo brasileiro. Com intenção artística ou não, eles nascem sempre movidos pelo desejo de celebrar o Brasil. Que Brasil? O Brasil de seu mito fundador de que fala Marilena Chauí: um conjunto de propriedades míticas, construídas ao longo de sua história e consolidadas pelo positivismo e pelo o ufanismo da virada do século 19 para o 20", explica o artista plástico e pesquisador, José Alberto Nemer, no texto de apresentação da mostra.
Nemer que assina a concepção e a curadoria da exposição, conclui: "O fato é que, através desses objetos, pode-se ver um outro Brasil, com o frescor que se reinventa todos os dias e com o humor de que precisamos sempre. São bandeiras, paisagens, santos e alvoradas. Mitos nacionais. São também, e sobretudo, as cores verde e amarela, que desde criança acreditamos representarem matas e ouro. Nessa celebração, não estará o povo rompendo a exclusão com a força da poesia?"
Registramos a exposição "O Brasil na Visualidade Popular" reproduzindo aqui o ensaio "Vitrais do Brasil", do professor João de Jesus Paes Loureiro.
Uma forma de se compreender a expressão estetizada que há na visualidade popular brasileira, na recriação plurissignificante dos símbolos nacionais, especialmente através de cores e formas, é segundo o conceito da estética do vitral. No vitral, a sua aparência estetizada vem atravessada por uma luz de outra significação que a ela se incorpora. O conjunto dessa expressão popular, principalmente nas efêmeras manifestações de plasticidade nos movimentos coletivos, como nos estádios de futebol, tornam-se imensos vitrais de sentimento estetizado de nação. São pedaços de cores, como nos vitrais, que vão compondo a trama cromática de verde, amarelo e azul, atravessada por essa luz simbólica. Essa luz, penetrando a transparência estética desses imensos vitrais nos estádios, nas manifestações públicas, nas feiras, na arte popular, pode ser entendida mesmo como o sentido da nacionalidade, que acentua a dimensão estética do estar juntos, propiciando uma forma de educação da sensibilidade para a imagem de nação. No entanto, cabe acentuar, desenvolveremos estas observações na linha da reflexão alegórica ou reflexão alegorizante, deixando o espírito em liberdade e enriquecido pelo devaneio. A compreensão das cores nacionais individuais e recriadas de forma estetizante será feita no sentido de valorizar essa expressão sensível e coletiva do estar em união. Como um vitral estético atravessado pela luz de um sentimento nacional. A atenção atraída, basicamente para a exterioridade do signo cromático, organizado na estrutura fragmentária mas pregnante de um vitral. Também como nos vitrais artísticos, esses vitrais da nacionalidade estão muito ligados a um sentido espiritual mais elevado (neste caso, do espírito da nacionalidade), que originaliza sua criação coletiva e espontânea. É a forma da comunicação ampla de uma mensagem de amor à pátria não autoritária com a qual os cidadãos se identificam, na sedutora forma estetizada de expressão. Oferecem uma espécie de mensagem pedagógica de nacionalidade amorosa para almas reunidas por esse desejo, através dessa luz atravessando a aparência essencializada dos vitrais. O que esses conjuntos cromáticos glorificam são valores de nacionalidade, de uma nacionalidade individuada, efervescente, amorosa de uma alma comum, sinal de orgulho, refúgio da confiança. Mais do que estar juntos é a intuição de um ser junto, ser um corpo só, um corpo místico patriótico, talvez. Ao contemplar essas imensas policromias da nacionalidade, o olhar, como numa catedral gótica, oscila entre a percepção, ora das cores congeladas em pedaços reunidos numa forma fragmentária, ora na luminosidade que as atravessa. É o que entendemos ser o mesmo sentido que se pode perceber nos vitrais da nacionalidade de que estamos tratando. Percebemos nesses conjuntos da visualidade popular – seja nas feiras, seja na arte naif, seja nos estádios de esportes, seja nas praias, seja no carnaval – de um lado, a pregnância colorida como um verdadeiro painel de arte pública; de outro, a significação nacionalizante que atravessa o conjunto cromático.
Essa unidade na diversidade que preside o vitral é, também, o santo graal buscado pela sociedade brasileira. O Brasil é uma nação constituída por nações, por uma infinidade de relações solidárias. Há um transbordamento afetivo, uma ostentação emocional, uma envergadura passional que instrui as relações entre os homens. A mestiçagem, a mobilidade social, a plasticidade do conjunto étnico contribuem para uma necessidade espontânea de se reconhecerem como unidade. É quando o sentido do religare, do être ensemble explode em festa, em futebol, em carnaval. Abrem-se os espaços à criação configuradora desses vitrais da nacionalidade, pela combinação formadora das cores nacionais, em grandes painéis dos estádios, nas feiras, no carnaval etc. São espaços privilegiados de reunião das diferenças e, por isso mesmo, ideais para que se manifeste a força do religare, do être ensemble, do ser em unidade que essa composição plástica coletiva parece revelar.
A solicitação estética intensifica-se numa espécie de cadeia de solidariedade, cujo resultado são esses vitrais de que estamos falando. A sensação de proximidade acentua-se e multiplica-se pelas transmissões da televisão. Todos partilham sensivelmente algo da nacionalidade nessa experiência que tem fundamentos estéticos e garante e celebra a coesão de um grupo. Não é simples exibição de símbolos nacionais para a guerra ou qualquer forma de luta. É uma forma gratuita, sem finalidade prática, sem a determinação específica de um fim. É somente o pleno acontecer de algo, como de um acaso. É o simples jogo no campo das aparências significantes, sem outra razão maior que a de celebrar a glória de estar juntos, reunidos na sedutora plasticidade gótica que vem atravessada por essa luz da utopia de uma pátria imensa.
O brasileiro expressa-se essencialmente pela emoção. A racionalidade tem lugar adquirido mas não é sua dominante. O sentimento é sua razão e a lógica articula-se através da aparência reveladora de sentido e não de um cauteloso processo intelectualizador. Não racionaliza. Exprime-se. Quer ser como uma forma de estar. Mostrar-se. Ser para outro. Provocar o reconhecimento. No campo temático do qual estamos tratando, quer exibir um sentimento de nacionalidade para o outro, por via emotiva de uma esteticidade em formas e cores. É portanto, um nacionalismo dialogal e de apelo, muito apropriado à expressão estética. Uma força de expressão. Um gesto. Teatraliza cromaticamente o seu nacionalismo, sua cidadania assumida, cotidianizando símbolos e emblemas. Não é um nacionalismo sob clausulas éticas ou morais. É uma nacionalidade em liberação estética. À lógica contrapõe o instinto, a intuição. Substitui o concreto pela metáfora. Ao invés de teorizações, o impulso criador. Ao pensamento normatizado contrapõe o corpo estetizado. Ao dogmático, a sensação e o sentimento. O imaginário adquire estatuto de realidade. Curte o entusiasmo e faz do maravilhamento uma condição cotidiana de existência. Revela uma sociedade que se encanta de si mesma. Um nacionalismo dionisíaco e barroco vivido plasticamente de uma forma coletiva, exteriorizada. Uma nacionalidade que se encaminha para a festa, não para a guerra. Um nacionalismo carnal, orgiástico, apropriado a uma sociedade onde a mestiçagem se legitima pela emoção e sensualidade. O cidadão assume a cidadania estética pela espontaneidade não-formal. No corpo. Na vestimenta. Na visualização cromática da sua alma. Ela mais do que mérito ou conquista, significa festa. Celebração identificadora de uma comunidade de gosto.
Vestir-se de algum símbolo, usar alguma definida máscara, desde os tempos mais remotos era e é como tornar-se como o representado e não um mero representante. Usar no corpo as cores da Pátria é ser a Pátria. Pintar no rosto a máscara verde-amarela-azul é ser o rosto da Pátria.
Mais do que um gesto tradicional equivalente, hoje, pintar-se com as cores da nacionalidade, reproduzir os seus ícones, é como ser a nação incorporada. Uma espécie de transubstanciação ou conversão semiótica em uma substância nova de sentido. È ser emocionalmente, a Pátria. O próprio cidadão tornar-se, ele mesmo, a Pátria simbolicamente incorporada, aparecendo em momentos em que o pensamento não consegue formular juízo, mas o desejo expressa o cidadão nacional numa explosão de sensualismo em liberdade. A fantasia assume o lugar da razão. O modo de expressão deixa de ser o da racionalidade para ser o da sensibilidade afluente, a flor da pele, no modo estético da comunicação concentrada no próprio signo visual e não em um discurso derivado. O signo é a própria linguagem codificada da alma. O interior transfigurado em exterior. Dá-se forma visível a um sentimento de união, de coletividade emocional brasileira. Uma ânsia de orgulho nacional civil que heroiciza o desportista, o artista popular, a própria população neles representada.
O interessante é que esses símbolos patrióticos, visuais, da Nação, arrancados de seu lugar, formal e cerimonial, investem-se de uma dignidade imprevista, não mais solitária mas solidária, sob esse impulso do être ensemble que o estético tem na sua dimensão societal ou societária. As cores e os símbolos (por exemplo, como as colunas do Palácio da Alvorada, em Brasília) são exaltados de maneira inusitada, investindo-se de significado luminoso. Adquirem, nesse deslocamento de local simbólico, uma dimensão inquietante que fascina e provoca estranhamento. Incorporam dois extremos, realismo e abstração. Extremos que também estão presentes em toda arte através dos tempos.
Percebe-se que esta forma exterior de expressão tem uma ressonância interior, um sentimento de necessidade espiritual do estar juntos como nação, que coincide exatamente com a reflexão de que estamos falando da estética de vitral (concreto e imaginário), se considerarmos a reunião dessas cores nacionais nas feiras, nos estádios, nas manifestações da cultura popular.

Nesses espaços – estádios de futebol, feiras culturais, festas, visualidades populares -, essas manifestações cromáticas dos signos nacionais podem ser vistos como instalações públicas (conjugando-se os conceitos de instalações e de arte pública). Não representam as manifestações cívicas clássicas de campos de batalha, nas lutas de fronteiras, nos campos de revolta. Essas instalações públicas, em que a criatividade organiza painéis cromáticos pelos quais transparece a luz de um sentimento de nacionalidade brasileira, acontecem nos campos de futebol, nos espetáculos de arte popular, nas praias, nos comícios. Uma forma de acontecer semelhante ao lúdico. A Bandeira do Brasil pode estar desenhada no rosto de estudantes ou na parte do bumbum não coberta pelo biquíni. Um lúdico social naturalmente espontâneo, mas não gratuito. Um gesto identitário formalizado como jogo, com graça e invenção.
A corrente social é religada num momento de prazer que, de imediato, assume uma taxinomia não marcada. Na sua simplicidade aparente esconde-se a complexidade fantástica das relações sociais e na expressão do individual convertido em comunhão. A importância da aparência revela-se nítida nesse cotidiano que bem poderia ser banal e cortejado pelo efêmero, pura excitação do supérfluo, banal repetição de algo já visto.
A corrente social é religada num momento de prazer que, de imediato, assume uma taxinomia não marcada. Na sua simplicidade aparente esconde-se a complexidade fantástica das relações sociais e na expressão do indivíduo convertido em comunhão. A importância da aparência revela-se nítida nesse cotidiano que bem poderia ser banal e cortejado pelo efêmero, pura excitação do supérfluo, banal repetição de algo já visto.




No entanto, esse ludismo social encarnado no cotidiano, ou cotidianizado, não acontece ali por acaso. Está sustentado por sua imanência, uma vez que é ludicamente que a sociedade se expressa. Esse jogo repete factualmente uma ordem social relativa, ao sentimento de nação e cidadania. É uma expressão efervescente de um estereótipo que se converte em arquétipo. É uma forma de consistência social que escapa à lógica do racional e do verdadeiro. Um gesto de alta significação, cuja importância é necessária que cada vez mais se reconheça e se compreenda. É uma retórica popular que faz circular um sentimento portador de idéias através desses símbolos e ícones nacionais reinventados ludicamente pelo sentimento convertido em forma. Estéticos, portanto. Algo semelhante a uma oratória visual cuja justificação está em uma poética ainda não formulada, em que se reúnem o concreto e o simbólico, o trivial e o fantástico, o monótono e o excepcional. Nota-se nessa visualidade popular nacional a retórica de um gesto social-humano de compensação da individualidade numa paixão visual insaciável.
A sociedade brasileira confere importância retórica à aparência na vida cotidiana. Daí para o jogo é um passo. Uma cidadania lúdica, cheia de excitação, intensidade e livre reprodução. Como a encarnação de um ludismo cotidiano transformado em expressão de uma sociedade que através dele se revela, diz de si, abre-se ao mundo, independente de um condicionamento normativo. A expressão mais simples pode adquirir a dimensão essencial de um desejo, de um querer ser. Essa pequena e delicada trama tecida de fios aparentemente insignificantes pode, ao acaso, a aranha do símbolo que, presa num ponto de tensão, passa a fazer convergir para ele todas as linhas de força dessa trama, conferindo uma ordem simbólica nascida por acasos de um acaso. De repente, o verde, o amarelo, o azul mais banais soltos na luz do dia-a-dia revelam-se como sendo o gesto de uma sociedade inteira em ação, em ato, em presença.
É uma retórica popular em funcionamento, quando a nacionalidade é incorporada e expressa na forma de um sentimento estético coletivo. Um gesto com a liberdade barroca de se mostrar identificador.
Com essa atitude de manifestação do sentimento de estar juntos na identidade de uma nação, os signos e ícones nacionais deixam de ser reverenciados e distantes, para se tornarem signos incorporados, vestidos, investidos de uma legitimidade pessoal, humana. São incorporados em um mesmo corpo místico nacional, pisando o mesmo chão, fantasiado de uma cidadania de sonho e desejo. São como instalações de arte pública, portanto, em que os cidadãos reunidos são suportes e símbolos de um acontecer estético da expressão da alma nacional. Uma espécie de uma epifania numinosa do eu brasileiro. Não é como enrolar-se na bandeira, quando ela se torna uma espécie de armadura que define no espaço singular o território de um país. É um tornar-se Brasil, pintar-se Brasil. Uma transubstanciação como nos rituais sagrados. Um manismo ancestral resgatado quando o representante é o próprio ser que ele representa. A imagem é a própria realidade, indistinta, singular, única. Um ser brasileiro que talvez seja diferente de ser nacionalista



Há uma gratuidade no uso das cores-ícones nacionais pela população. De certa maneira é uma forma de epifanização da alma de um eu brasileiro ostentado exteriormente na modalidade de uma cívica alegria. O estético como valor de sociedade, gesto de uma emoção compartilhada, a nacionalidade como expressão celebrante e não como celebração protocolar oficializada.
Ao investir-se das cores nacionais, num gesto incorporativo da nacionalidade, a dimensão ética converte-se em sinal estético, no qual a sensibilidade impera. Passagem do ético para o estético, conversão da aparência em essência. A imagem das cores – o verde, o amarelo, o azul – segue uma espécie de suspensão redobrada, isto é, percebe-se a substancialidade da coisa material e, ao mesmo tempo, o fenômeno da idealização. O fenômeno da representação acaba sendo a substancialidade da coisa, a imagem torna-se a realidade de um fenômeno. Os ícones sofrem uma metamorfose do em si de signos da nação em signos para nós, para nosso olhar. Uma conversão semiótica de signos nacionais em signos estéticos, embora remetam a nacionalidade. Como manifestação da aparência de ordem fenomênica, essas imagens fazem a emoção adquirir um sentido. A presença de uma ausência.
Essas imagens são o ponto de conexão entre as ordens do real e de uma aparência na qual a beleza repousa. Não são uma simples reprodução de realidade dada. São vias que levam a uma visão objetiva das coisas e da vida humana. São a revelação sensível de uma realidade interior, através da intensificação do real. Claro que, nas representações elas devem compor a unidade que configure uma forma em que as unidades componentes devam ser percebidas como separadas, dentro de uma coesão visual. Uma coesão visual geradora de equilíbrio e harmonia, contida em condições de fechamento, garantindo a pregnância da forma.
Entre o azul e o amarelo: o verde. O cálido. A esperança. O reino vegetal. O despertar das águas primordiais. O desabrochar da vida. Envolvente, tranqüilizante, refrescante, tonificante. Cintilação de esmeralda. A cor mais calma. O frescor do botão da primavera. O musgo do mofo. O verde submerso no destino.
O amarelo em fusão dos minérios. Raio de sol do olhar de um deus. Luz do ouro. Carruagem da juventude, do vigor, da eternidade divina. Cor do empírio. Cor da terra fértil. Cor das espigas maduras do verão. Cor divina e terrestre. Cor resplandecente na fogueira.
E a mais profunda das cores. O azul. O infinito do olhar. Perpétua fuga da cor. Transparência pura dos vitrais do infinito. Caminho do eterno. Mensagem do imaginário. Cor do pássaro da felicidade. A cor azul e mais que azul da terra azul.

VERDE-AMARELO-AZUL
BRASIL NA PONTA DA LÍNGUA DO PINCEL.
ALMA EXPOSTA DE UM PAÍS SONHADO
CORES DE UM VITRAL
DA OCULTA CATEDRAL QUE É UMA NAÇÃO
NA ALMA DO POVO


João de Jesus Paes Loureiro, poeta e ensaista, autor de "Cultura Amazônica, Uma Poética do Imaginário", é presidente do instituto de artes do Pará.

Fotografias de Eduardo Eckenfels - exceto a da bandeira no portão em Diamantina , que é de José Alberto Nemer - originalmente publicadas no catálogo da exposição "O Brasil na Visualidade Popular".

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