sábado, 1 de março de 2008

Neuroestética busca princípio biológico do belo

Neuroestética busca princípio biológico do belo
Cientistas estudam como o cérebro é estimulado por quadros, esculturas, peças de música e imagens de dança
Márcia Foletto/17-04-2003
Marilia Duffles
A habilidade de Aleijadinho
para infundir vida em suas figuras
da paixão é tão impressionante
quanto as próprias
esculturas. Igualmente atordoante
é a capacidade de Leonardo
da Vinci de capturar a
natureza humana com meras
pinceladas. E a qualidade orgânica
da escultura “Boy jockey
and horse” também é inacreditável,
dada sua origem
helenística. Como artistas em
séculos tão distantes foram
capazes de retratar a mesma
gestalt criativa?
O trabalho de Da Vinci como
cientista certamente influenciou
sua arte e simultaneamente
o levou a refletir sobre
esse enigma. Ele com razão
se voltou para a “tela”
mental em nossas cabeças,
concluindo que o olho tem dez
funções e que embora as imagens
viajem da frente do olho
para a imprensiva (agora chamada
retina), elas na verdade
se formam no sensus communis
(o cérebro).
Séculos mais tarde, filósofos
alemães seguiram esse raciocínio.
Schopenhauer sabiamente
acreditava que as cores
existem dentro do observador,
e não fora dele. E Immanuel
Kant disse “devemos examinar
quanto do conhecimento
depende da contribuição
formal do cérebro”.
Estudos mostram que
a visão é um ato criativo
Semir Zeki, professor de
neurobiologia na University
College London, prestou homenagem
científica a isso. Sua
pesquisa sobre o sistema visual
do cérebro mostra que o
gênio presciente de artistas como
Da Vinci foi expor e expressar
em seu trabalho a fisiologia
cerebral. A pesquisa fez com
que ele lançasse uma cruzada
internacional, o Instituto de
Neuroestética (a raiz grega de
“estética” quer dizer tanto conhecimento
quanto beleza).
A pesquisa de neurociência
do último quarto de século explora
isso explicando como nós
enxergamos. A visão, demonstra
Zeki, é um ato criativo. Diante de
uma imagem, o cérebro procura
os traços necessários e (como
uma caricatura faz) destila a essência
do que vê, por causa de
sua memória limitada. Ele descobriu
ainda que o cérebro analisa
separadamente, em regiões
diferentes, atributos da imagem
como forma, movimento, cor,
textura. O córtex visual é dividido
em cerca de duas dúzias de
áreas especializadas.
Quando Da Vinci disse “as
cores mais agradáveis são as
que constituem oposições”, ele
estava prescientemente se referindo
à fisiologia das cores
complementares, não descoberta
até o século XX. A cor é
percebida quando o cérebro
compara comprimentos de ondas
refletidos em superfícies.
Arranjadas em pares opostos,
células ativadas pelo vermelho
são inibidas pelo verde, e viceversa.
O mesmo vale para outras
combinações.
São esses blocos de construção
visual utilizados pelo cérebro
para formar uma imagem
mental que os artistas também
usam, intuitivamente. Não é
surpreendente que Aleijadinho
tenha representado o movimento
melhor do que qualquer
fotografia. Ele esculpia gestos
que apelavam especificamente
para as células cerebrais que
reagem ao movimento. Ao
abandonar inteiramente a cor
numa pintura ou escultura, comos
nos móbiles negros de Alexander
Calder, os artistas minimizam
a ativação de células
sensíveis à cor, enquanto estimulam
ao máximo as áreas sensíveis
ao movimento.
A arte moderna também fornece
um importante paralelo visual
para a preferência do cérebro
por estímulo visual específico,
como os quadrados coloridos
e linhas de Piet Mondrian. A
pesquisa de Hideo Sakata, da
Nihon University, em Tóquio,
sobre como percebemos profundidade,
joga luz sobre uma
das mais difíceis habilidades artísticas.
Ele descobriu que macacos
(que possuem sistema visual
análogo ao nosso) têm neurônios
que combinam dicas de
profundidade (sombreamento,
textura) com perspectiva linear.
Também é possível entender
a música a partir de nossa arquitetura
neural. Ouvir música envolve
pensamento metafórico,
com a área do cérebro ligada à
linguagem percebendo o ritmo,
e sua área visual o tom.
Células explicam o
“contágio” da dança
Como esperado, a dança também
apela ao nosso modus operandi
universal. Quando as pessoas
assistem a filmes de balé
ou capoeira, são ativadas em
seus cérebros as mesmas áreas
usadas para executar aqueles
movimentos. Giacomo Rizzolatti
e sua equipe na Universidade de
Parma, Itália, descobriram que
isso se deve a células chamadas
neurônios-espelho, que imitam
as ações de outros. Imitar outros
é empatizar, usando o mesmo
ensaio mental da linguagem
do corpo do outro para nos botarmos
no lugar deles. E é por isso
que dançar é contagioso.
Mas por que a música tem o
poder de fazer até mesmo o
Príncipe Charles sambar durante
o carnaval? De acordo com
Petr Janata, neurocientista na
Universidade da Califórnia, Davis,
depois de apenas 15 segundos
ouvindo música as mesmas
regiões do cérebro que imitam e
compõem seqüências de ação
são fortemente ativadas — mesmo
que sejamos forçados a ficar
parados. Ezra Pound foi quem
disse melhor: “A música começa
a se atrofiar quando se separa
muito da dança”.
A beleza da neuroestética é a
descoberta dessa essência universal
que une o homem e seus
esforços artísticos a apreciação
da arte. E confirma porque o
samba tão facilmente comunica
a essência de ser brasileiro para
o resto do mundo. 
MARILIA DUFFLES é jornalista,
colaboradora da revista “The
Economist” e do jornal “Financial
Ti m e s ”
A arte é um subproduto da função evolutiva do cérebro’
Para o neurobiólogo Semir Zeki, o prazer que sentimos diante do belo está ligado à aquisição de conhecimento
Divulgação
SEMIR ZEKI: “Qual é o sistema do cérebro para sentir a beleza?”
 Diretor do laboratório de neurobiologia
da University College
London, Semir Zeki é o principal
nome de um campo em expansão:
a neuroestética. Zeki quer
entender o que acontece no cérebro
quando nos deparamos
com algo que julgamos feio, ou
belo. Ele defende que a arte apela
aos mecanismos de aquisição
de conhecimento do cérebro, e
é um subproduto da evolução
(posição que não é unanimidade
em seu meio). Por telefone, de
Londres, Zeki falou ao GLOBO.
Miguel Conde
O GLOBO: Num de seus trabalhos,
o senhor diz que Kant
abriu o caminho para um estudo
científico da arte. Por quê?
SEMIR ZEKI: O que Kant disse
é que para conhecer as coisas
você tem que se perguntar não
apenas sobre as propriedades
das coisas, mas sobre o que a
mente faz com isso, as contribuições
que ela dá. Como o conhecimento
que você obtém
não é apenas das propriedades,
mas também da mediação da
mente, você nunca pode conhecer
o objeto como ele é. Ele não
concebia a beleza como algo
que residisse apenas no objeto.
A questão muda de “o que é o
belo” para “porque, e de que
maneira, percebemos algo como
sendo belo”. Além disso,
Kant, em sua “Crítica do julgamento”,
explorou a maneira como
a arte está relacionada ao
sentimento de prazer e bem estar.
Kant não podia estudar os
mecanismos de recompensa e
prazer do cérebro, mas de certa
maneira essa é uma questão
científica, que pode ser pelo menos
em parte resposta pelo exame
desses mecanismos.
 O senhor diz que há uma relação
entre arte e aquisição de
conhecimento. No entanto,
quando percebemos algo como
belo, é difícil pôr este sentimento
em palavras.
ZEKI: As pessoas imputam muitas
funções à arte, mas elas têm
que entender que a arte é um
subproduto da principal função
evolutiva do cérebro, que é a
aquisição de conhecimento. Esse
é um dado mais fundamental
do que implicações políticas e
sociológicas. O cérebro visual e
o cérebro auditivo levaram milhões
de anos se desenvolver. O
cérebro verbal tem alguns milhares
de anos, no máximo. Não
é tão refinado quanto os outros.
Portanto, você pode comunicar
pela visão coisas que não pode
descrever pela linguagem. Eu
posso sentar e descrever para
você em 20 volumes a “Pietá” na
Basílica de São Pedro, mas dez
segundos olhando-a terão um
impacto maior. Você terá um conhecimento
emocional daquilo
que palavras não podem descrever.
O conhecimento não é apenas
o que se adquire ou expressa
pela linguagem. Há um conhecimento
visual. Quando Michelangelo
estava pintando, havia
teorias sobre proporção, de
Vasari, Alberti, Leonardo, mas
ele dizia “não quero usar uma
régua, pois tenho
um sistema superior,
que está no
meu olho”. Hoje
diríamos, no cérebro.
 E no caso da
arte abstrata?
ZEKI: Malevitch
dizia: “o artista
não tem necessidade
do objeto
como tal”. O que
devemos fazer é olhar e ver o
que vem do cérebro. Ele veio
com linhas e ângulos retos, e alguns
círculos. Há uma grande
parte do cérebro que responde
diretamente a linhas retas. Elas
são úteis para construir imagens
de formas. Mondrian disse
“eu quero saber quais são os
constituintes essenciais de todas
as formas”. Se você olha outra
escola moderna, o trabalho
dos cubistas, posso citar o crítico
de arte Jacques Riviere: “o
cubismo é destinado a dar à pintura
sua verdadeira função, que
é representar objetos como são,
não como aparecem
a cada momento”.
 Algo pode dar
prazer e ser inútil
de um ponto de
vista evolutivo?
De que maneira,
por exemplo,
perceber um pôrdo-
sol como bonito
ajuda na luta
pela vida?
ZEKI: O sistema de prazer está
profundamente ligado à evolução,
mas não se deve achar que
se vai encontrar uma ligação direta
e óbvia entre os dois, pois
muito freqüentemente são subprodutos.
O prazer é algo que o
cérebro pode usar em outras situações
que não as originais, ligadas
a beber, comer, ao sexo,
mas a origem é essa.
 O senhor pode falar um pouco
sobre o que acontece no cérebro
quando percebemos algo
como sendo bonito ou feio?
ZEKI: As áreas ativadas em ambos
julgamentos são as mesmas,
mas em níveis diferentes.
Por exemplo, nos dois casos o
córtex motor, responsável pelo
movimento, é acionado. Quando
vemos algo que consideramos
feio, ele é ativado com mais
intensidade, como se quiséssemos
fugir. Quando achamos algo
bonito, a intensidade é menor,
mas também está presente.
 Como artistas, filósofos e
historiadores da arte têm reagido
ao seu trabalho?
ZEKI: Os artistas são os mais
entusiasmados. Entre filósofos e
críticos, há reações divididas.
Recentemente li um livro de crítica
de arte contemporânea e
havia muita discussão sobre como
certas obras podem ser ao
mesmo tempo dolorosas e prazerosas
de se ver. É incrível que
esse tipo de discussão ocorra
sem nenhuma referência aos
mecanismos de dor e prazer do
cérebro, que são bem estudados.
Não podemos trabalhar em
isolamento. As questões parecem
diferentes, mas são complementares.
Os historiadores
estudam as variações no conceito
de belo em diferentes culturas.
Eu faço uma pergunta ao
mesmo tempo mais elementar e
maior: qual é o sistema do cérebro
para sentir a beleza? Para isso,
tenho que ir além de diferenças
culturais, procurar recorrências,
e aí há um trabalho histórico.
Se você pesquisa a literatura
do amor, por exemplo, verá
alguns conceitos que emergem
em todas as épocas e lugares.
 Há características universais
em nossas idéias sobre o
amor?
ZEKI: Sim, e posso
dar os dois
exemplos supremos
disto. Um é o
conceito da unidade
em amor. O
forte desejo de
estarem unidos
um ao outro que,
no auge da paixão,
dois amantes
sentem. E, relacionado,
está o
conceito de aniquilamento
no amor. Como essa
união é impossível, há desejo de
se aniquilar para se unir em outro
mundo, diferente do nosso.
Isso ocorre em “Tristão e Isolda”,
ocorre em lendas árabes, na
história hindi de Krishna, em
Dante, em Petrarca. É um tema
universal. O que as pessoas tentam
fazer é saber se esses autores
leram um aos outros, e nem
sempre se encontra uma relação.
Mas a relação está na organização
do cérebro, porque somos
todos humanos.
 E quanto à literatura medieval
dos trovadores, onde
um tema freqüente é o da
mulher inatingível?
ZEKI: Claro, mas nos trovadores
a consumação se dá pela
imaginação. No próprio Dante,
a imaginação reina suprema. O
amor de Dante por Beatriz era
um amor in absentia, pois ela
estava morta. Ele diz, em “La
Vita Nuova”, que vai escrever
sobre “la gloriosa donna della
mia mente”. É uma construção
inteiramente mental.
 Existe um padrão ou estrutura
universal que o cérebro sempre
reconhecerá como bela?
ZEKI: Acho provável (hesita)...
Acho que todos cérebros humanos
têm um sistema de beleza,
todos são capazes de
classificar algo como sendo
bonito. Mas se há uma característica
aplicável em todas as
sociedades, é uma questão difícil,
não tenho resposta.
 Seria possível,
analisando o
que acontece no
cérebro quando
c on te mp la mo s
uma obra de arte,
criar uma pílula
que provocasse
as mesmas
reações?
ZEKI: D e ix e -m e
responder de um
modo oblíquo.
E u s i n t o um
enorme prazer em ler, carrego
comigo o tempo todo, os “Quatro
quartetos”, de T.S. Eliot. Poucos
poemas na língua inglesa me
deram tanta satisfação e prazer
quanto esse. A questão é: porque
eu gosto tanto desse poema?
Há muitas razões. O uso de
linguagem, a metáfora, o uso do
ambíguo, a aplicação de versos
a muitas situações diferentes, o
senso de humor. O estímulo verbal
evoca um prazer que é causado
por meio de reações químicas.
Se eu tivesse um frasco e
misturasse elementos químicos
teria o mesmo prazer de ler
Eliot? A resposta é provavelmente
não.
http://www.neuroesthetics.org/news/pdf/darwin4.pdf

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