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sábado, 26 de julho de 2008

Jogo dos espelho

O poeta Vinicius de Moraes (1913-1980) em foto de 1975

Vinicius foi a marca da poesia romântica dos anos 60 a 70 e hoje ainda é lido pelos jovens, ou é marca registrada de algumas frases de seus poemas-"que nao seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure" pacv


Jogo dos espelho
Relançamento da obra de Vinicius inclui poema inédito dedicado a Drummond e relembra a admiração mútua entre os poetas de personalidades tão diferentes

Arquivo Folha



EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

A admiração mútua entre Vinicius de Moraes (1913-1980) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), manifestada em crônicas e entrevistas de ambos, está para ganhar nova expressão pública na forma de um poema inédito em livro. Escrito no fim dos anos 40, "Retrato de Carlos Drummond de Andrade" (reproduzido nesta página) foi descoberto pelo poeta e professor Eucanaã Ferraz e será publicado em novembro no livro "Poesia Esparsa", título provisório de um dos 15 lançamentos ligados ao poeta carioca, que a editora Companhia das Letras coloca no mercado até 2011 (leia abaixo).
Na primeira estrofe, Vinicius diz: "Duas da manhã: abro uma gaveta/ Com um gesto sem finalidade/ E dou com o retrato do poeta/ Carlos Drummond de Andrade". Segundo Ferraz, trata-se de "um típico poema que nasce de um ato banal, algo que Manuel Bandeira chamava de poema desentranhado".
Ferraz ressalta ainda que entre Vinicius e Drummond não chegava a haver uma ligação de irmãos, como havia entre o poeta e compositor carioca e Manuel Bandeira (1886-1968). "Mas eram amigos e freqüentavam a casa de amigos em comum, como Rubem Braga", diz.

O bon vivant e o tímido
O carioca bon vivant e o mineiro tímido e introvertido nutriam uma admiração mútua baseada, em parte, na discrepância entre suas personalidades. Numa crônica de 1940, Vinicius puxou a sardinha para sua brasa boêmia e, referindo-se a Drummond, escreveu:
"Depois de uns chopes, a máscara do poeta esgarça-se num riso silencioso, que lhe vem de uma paisagem casta e longínqua na alma, e sua cabeça baixa se levanta, suas mãos mortas se reencarnam, e ele tamborila na mesa uma alegria rápida e extraordinária."
Já Drummond, que dizia admirar Vinicius justamente "pelo jeito tão diferente" do seu, declarou, em entrevista a Zuenir Ventura, na revista "Veja" (1980), que "invejava o conceito que o Vinicius teve de vida, de independência de espírito, de falta de compromissos com as convenções sociais". O poeta disse ainda que Vinicius "fazia o que queria e sempre com aquela doçura, com aquela capacidade de encantar que fazia com que as donas-de-casa mais severas o adorassem".

"Queria ter sido Vinicius"
Também a poesia cometida por ambos escritores mereceu declarações públicas de apreço. Naquela mesma crônica de 1940, Vinicius afirmou que invejava em Drummond "a poesia descarnada e lúcida, e como que iluminada por um sol fluido de aurora".
O jornalista e escritor Ruy Castro, que compilou a correspondência de Vinicius no livro "Querido Poeta" (2003), recorda outra consideração de Vinicius acerca de Drummond: "Ele o considerava o único poeta brasileiro de caráter universal". E Drummond, por sua vez, referia-se a Vinicius como o "único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes".
A produtora Susana de Moraes, filha de Vinicius, lembra que no fim da década de 1970 conviveu com Drummond por um ano, quando produziu um disco em que ele recitava seus poemas. "Ele falava do Vinicius de uma forma maravilhosa. E Vinicius tinha uma admiração enorme por ele", diz Susana, que teve Drummond como padrinho de casamento.
Susana recorda que a convivência do pai com Drummond quase se restringia aos encontros com outros escritores mineiros vivendo no Rio, como Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, sobretudo quando Vinicius passou a conviver mais com a "turma da música". "Drummond era reservado e não era boêmio. Mesmo as relações com as mulheres e o amor eram diferentes. Com Vinicius, eram escancaradas e públicas, com tantos casamentos. Com Drummond, houve um casamento de muito tempo com a mesma mulher", diz Susana.
O cenógrafo Pedro Drummond, neto do poeta, lembra que o avô ficou muito abalado com a morte de Vinicius.
"A amizade era de tal ordem que, quando Vinicius foi a Buenos Aires fazer um show, nos anos 70, visitou-nos lá", lembra o cenógrafo, que nasceu na Argentina e é filho de Maria Julieta, filha única de Drummond.
"Hoje, os filhos do Vinicius ainda são amigos da gente, ainda que nos vejamos pouco. Mas, sempre que a gente se encontra, sinto a continuidade do afeto que havia entre os dois."

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