terça-feira, 16 de setembro de 2008

Linha de Passe


Linha de Passe
Explorar o limite é uma experimentação que continuamente aparece em alguns bons escritores e cineastas quando pretendem algo próximo da pulsação mesma da vida.
Foi assim com Dostoiévski em Memórias do Subsolo, com Kafka no Castelo e também com Marcos Prado ao apresentar Estamira.
Linha de passe de Walter Sales também possui essa pretensão: vemos diante de nossos olhos estarrecidos uma São Paulo diversa da que ilusoriamente acompanhamos nas vitrines dos shoppings ou nas mesas dos cafés; sentimos um tipo de vida que parece estranho ao que cotidianamente presenciamos ao experimentarmos a velocidade dessa cidade nervosa.
Uma outra São Paulo que pulsa, produz, sofre, sente, caga, rouba, mata, mas que, preserva aquela dignidade das coisas realmente vivas – o lutar constante no sentido de ultrapassar aquilo que se é – acontece em cada cena em que tragédia e beleza caminham de mãos dadas curto-circuitando o vício estético produzido por anos a fio de captura de nosso olhar pelas instâncias de modulação de nosso mesquinho modo de vida de classe média.
Toda a ambientação passa-se nas margens em que algo novo pode acontecer: o tão esperado chamado para ingressar no time de football, para o filho que já é velho apesar da juventude precoce (18 anos); o encontro do sagrado, para o filho que já perdeu todas as esperanças; o encontro do pai para o filho menor que sendo negro acha-se estranho entre os outros que são brancos; a melhora das condições de trabalho, para o filho mais velho que vive a aventura de ser moto-boy em meio ao trânsito caótico da cidade e, por fim, a espera de um outro filho que é o que resta para uma mãe que trabalha como empregada doméstica para sustentar os laços de uma família frágil em sua constituição.
Não obstante, esse aparecer é frágil como todos pequenos começos das coisas e valores que hoje encontram-se maduras em nossa sociedade e que negam com todas as forças seu iniciar baixo e cuidadoso quando as forças que então eram hegemônicas os exterminariam.
Assim, em meio ao que poderia parecer, aos nossos olhos burgueses, pequenos dramas cotidianos que cada um de nós deve viver em um momento em que a vida tornou-se combustível para o capital, comparece a tragédia mesma de darmos conta do real com sua face assustadora, que no caso dos que podem pagar, é compensada com a fantasia do consumo, com a letargia dos fármacos e, talvez, com o consolo das análises.

Aldo Ambrózio

Um comentário:

brunna disse...

São Paulo, cidade-ficção.

(pedagogia-manhã)