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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Sustentabilidade -Veja

A reinvenção do carro

Uma coisa ficou clara depois do fatídico ano de 2008, quando o sistema financeiro mundial derreteu e o mundo todo sentiu, mais do que nunca, o poder destrutivo do aquecimento global: precisamos reinventar o mundo. Precisamos aprender a pensar diferente. Não dá mais, por exemplo, para dependermos de um objeto de uma tonelada para transportar nossos esbeltos corpinhos de 70 quilos. Ainda mais se considerarmos que o tal monstrengo de metal passa 90% de seu tempo, em média, estacionado. Nossas cidades são todas construídas para acomodar carros, mas carros são uma tecnologia ridiculamente ineficiente e burra.

Um dos sujeitos mais interessantes se dedicando a resolver esse problema é um arquiteto visionário de dread locks na cabeça chamado Mitchell Joachim, que mencionei num post anterior. Joachim é pesquisador da novaiorquina Universidade Columbia e sócio de um escritório de design ecológico chamado Terreform 1. Basicamente ele se dedica a reinventar as cidades com um monte de idéias interessantes. A mais legal delas é inverter essa lógica: em vez de construir as cidades em função dos carros, vamos inventar um novo carro em função das cidades.

Foi partindo daí que ele chegou ao City Car, um carrinho de neoprene e outros materiais moles que se encaixa no da frente como carrinho de supermercado e que usa um sistema de navegação que parece mais com a internet do que com as avenidas de hoje. O motorista do City Car tem uma tela onde vê a posição exata dos City Cars de seus amigos, e pode se comunicar com eles como se fosse por um Messenger móvel. A tela informa também onde há lugares disponíveis para estacionar e permite que você reserve uma vaga online.

Além disso, o carrinho navega pelo trânsito de um jeito muito mais eficiente do que nossos arcaicos gigantes de aço. Se as cidades tivessem só carros assim, ninguém teria que parar no sinal vermelho, por exemplo. Num cruzamento, o trânsito das vias iria apenas se misturar em baixa velocidade, e seguir em frente, já que o sistema de navegação impediria batidas.

A idéia de trocar nossas frotas de dinossauros por esses carrinhos fofos pode soar um imenso absurdo. Afinal, nossa economia depende em grande medida das indústrias de metais, de automóveis, do petróleo. Mas, se você pensar bem, lances visionários como esse podem ser o melhor jeito de nos tirar do buraco. Se as nações decidissem proibir os velhos carros e dar um prazo para substituir suas frotas inteiras, surgiria uma nova economia de uma hora para outra, baseada em inovação e em sustentabilidade. Verdade que as indústrias que não se adaptassem provavelmente quebrariam, e elas já vão tarde. No lugar delas, um monte de outras surgiriam para suprir a demanda imensa da substituição compulsória da frota. E nasceriam cidades muito mais seguras, menos poluídas e, não menos importante, mais divertidas. Um ótimo exemplo de como podemos aproveitar as crises que nos sufocam para mudar o mundo.

Foto: divulgação



Por Denis Russo Burgierman - 22:00 | Enviar Comentário | Ler Comentários (3)

13 de fevereiro de 2009

Um novo vocabulário

Vou me abrir com você, compreensivo leitor: neste exato momento eu estou me sentindo um completo incompetente. Afinal, aceitei o desafio de criar este blog e passei horas apenas tentando arrumar um nome para ele. Caramba, se eu estou sofrendo tanto para bolar um mísero nome, como eu vou fazer para abastecer diariamente esse espaço com assuntos fascinantes, com discussões empolgantes, com desafios ao senso comum e quetais?

Bom... Não quero soar defensivo, mas você há de concordar comigo: não é tão fácil assim pensar num nome bom para uma publicação sobre sustentabilidade. Blog Verde? Horrível. Por que verde? A idéia aqui não é ficar falando apenas de folhas, matas, florestas e outros praticantes da velha arte da fotossíntese. O conceito de "verde" é limitado, incompleto. Está cheio de coisas verdes no mundo que não são sustentáveis (e não estou falando de futebol), assim como tem coisas sustentáveis de todas as cores. Cheguei a pensar em batizar o blog de "Todas as Cores", mas achei que o leitor talvez pensasse tratar-se de um blog gay. Melhor evitar essas confusões.

Eu podia então apelar para aquelas palavrinhas de sempre: "ecologia", "meio ambiente"... Mas acontece que elas são péssimas. Ecologia é a ciência que estuda as relações entre as espécies vivas. Não tem nada a ver com o que quero discutir aqui. Meio ambiente, além de ser uma redundância meio ridícula (meio e ambiente são sinônimos), também não traduz a idéia certa. Dizer que é "defensor do meio ambiente" é uma bobagem que não quer dizer nada e que revela uma visão antiga, ultrapassada da natureza: algo que deve ser mantido intocado enquanto destruímos sem piedade tudo aquilo que não é natureza.

Caí então inevitavelmente na tal "sustentabilidade", mas não fiquei feliz. Poxa, mesmo a idéia de "sustentabilidade" é irritantemente pobre. Ok, é verdade que, nas últimas décadas, abusamos do direito de ser insustentáveis. Nossos sistemas econômico, político, financeiro são todos concebidos em nome do ganho imediato, deixando de lado qualquer preocupação com sua viabilidade a longo prazo – estão aí a crise econômica mundial e o hoje inegável aquecimento global para provar isso.

Mas acontece que ser sustentável, apesar de ser um bom começo, não é suficiente. É o que disse o arquiteto Mitchell Joachim, sobre quem vou falar mais esta semana. "Eu não gosto do termo", ele disse numa entrevista à revista americana Wired. "Não é evocativo o suficiente. Você não quer que seu casamento seja sustentável. Você quer que ele seja evolutivo, enriquecedor, interessante." Sustentável, apenas, é miseravelmente pouco.

Aí me dei conta do seguinte: estamos tão atrasados nessa discussão que não temos ainda nem um vocabulário decente para ela. É tão difícil encontrar um nome para este blog porque ainda nem criamos as palavras certas para falar desse assunto. Este blog aqui parte desse princípio: o de que precisamos urgentemente encontrar um sistema novo de idéias e de crenças. Não espere encontrar aqui, portanto, nenhuma daquelas velhas discussões – por exemplo, a arqueológica divisão entre "esquerda" e "direita", duas palavras que não significam mais nada. Este blog vai se dedicar todos os dias ao trabalho de construir junto com seus leitores um novo jeito de pensar, um novo vocabulário. "O mundo mudou. Precisamos mudar com ele", disse Obama no seu discurso de posse. Este blog humildemente se propõe a ajudar.

Foto: NASA / Goddard Space Flight Center

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