domingo, 5 de abril de 2009

A Literatura Através do Cinema - Realismo, Magia e a Arte da Adaptação

O estadão publicou -DOMINGO -05.04.2009

Sessão de livros
De D. Quixote a Macunaíma, A Literatura Através do Cinema, do americano Robert Stam, analisa a relação entre as duas artes
Luiz Zanin Oricchio
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O livro é melhor que o filme. Quem já não ouviu esse clichê sobre as adaptações literárias para o cinema? A frase feita conota o cinema como arte menor, subordinada à literatura, este sim o modo nobre de expressão por seu prestígio e antiguidade. No entanto, segundo o pesquisador norte-americano Robert Stam - autor de A Literatura Através do Cinema - Realismo, Magia e a Arte da Adaptação (Editora da UFMG, 512 págs., R$ 79) -, Orson Welles foi quem melhor entendeu a estrutura narrativa de Dom Quixote. Jack Gold enxergou em Robinson Crusoe a misoginia colonialista que Daniel Defoe não pôde ver. E durante a ditadura militar, Joaquim Pedro de Andrade tirou de Macunaíma uma leitura política com a qual Mário de Andrade não havia sonhado. Ou seja, muitas vezes é o cinema que ilumina uma obra, ao dialogar com ela sob a forma da adaptação. A lição que se tira do livro é de uma nova dignidade concedida à arte da adaptação.Stam é autor de trabalhos seminais como O Espetáculo Interrompido e Crítica da Imagem Eurocêntrica, estudos que colocam as teses do russo Mikhail Bakhtin e ideias do multiculturalismo em funcionamento para debater a posição do cinema no contexto da cultura. Procura sempre relacionar política e estética, com ganho significativo de compreensão em relação a esses dois domínios interdependentes. O pesquisador viveu muitos anos no Brasil e é profundo o seu conhecimento do cinema nacional. É também autor, em parceria com Randall Johnson, do indispensável Brazilian Cinema, ainda sem tradução. Bob, como os amigos o conhecem por aqui, tem filho brasileiro e essa é uma das razões, mas não a única, para manter laços permanentes com o País. É professor titular na New York University, onde leciona matérias relacionadas ao multiculturalismo e mídia, cinema brasileiro e latino-americano e nouvelle vague. Atualmente, está em Princeton, como professor convidado.Em A Literatura Através do Cinema, para mostrar o que acontece no percurso entre as páginas e as telas, Stam vale-se de algumas obras literárias referenciais, "canônicas". Em primeiro lugar, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, considerado o primeiro romance moderno. Como contraponto, entra Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, por representar a vertente oposta ao Quixote. Se a obra de Cervantes é um tipo ideal da tradição paródica e autorreflexiva, a de Defoe se filia à vertente mimética, "realista". O Quixote é a fonte de romances como Tom Jones, de Henry Fielding, ou Tristram Shandy, de Laurence Sterne, que ostentam seus próprios artifícios e técnicas de construção. Já Robinson quer simular que é apenas relato de algo real, que de fato aconteceu. São polos opostos, talvez complementares. "A tensão entre a magia e o realismo, a reflexividade e o ilusionismo, tem alimentado a arte", diz Stam.Nessa tensão, resolver em imagens (e sons) o que é da ordem da palavra escrita tem sido desafio permanente para os cineastas. Pela posição que ocupa na cultura ocidental, mas também pelo fascínio do personagem, compreende-se que o Quixote tenha sido um dos livros mais adaptados de todos os tempos. Suas "versões" para a tela contam-se às dezenas. Stam escolhe uma delas de maneira privilegiada - a de Orson Welles. Justamente uma adaptação incompleta, de produção acidentada, que não foi montada pelo próprio autor. Mas talvez por isso mesmo seja tão interessante. O Quixote era para ser apenas um conto. Tornou-se um romance ("o" romance), deu margem a plágios e obrigou Cervantes a escrever um segundo volume com as aventuras do cavaleiro e do escudeiro Sancho. Neste segundo livro, aparecem personagens que já conheciam Quixote e Sancho pela leitura do primeiro volume, num procedimento intertextual que faz a modernidade precoce da obra.Stam analisa a versão do Quixote do soviético Grigori Kozintsev, bastante colada ao original. Mas privilegia a leitura de Welles, porque mais próxima do espírito da obra. "Acontece que Welles acreditava em adaptações infieis", escreve. "Por que adaptar uma obra, dizia ele, se você não pretende modificar nada nelas?". Welles tinha usado esse procedimento com Shakespeare, Conrad e também H.G. Wells, na famosa versão radiofônica de A Guerra dos Mundos que causou pânico nos EUA e tornou-o famoso. Assim, apega-se a algumas características do Quixote e as transpõe sem cerimônia para a tela. O anacronismo, usado por Cervantes, é escancarado no filme. Sancho, por exemplo, se maravilha com uma "caixa de novidades", ou seja, com um aparelho de televisão. No fim do filme, Quixote não se espanta que astronautas cheguem à Lua; apenas teme pela mecanização do homem. O próprio Welles é ouvido no filme, em voz over, e também é visto, filmando. "Welles deleita-se com a linguagem e o estilo do romance", comprova o pesquisador.Já com Robinson Crusoe a história é outra. O personagem, segundo Stam, encarna o individualismo possessivo em sua forma mais extrema. Solitário em sua ilha, ocupa-se em aparelhá-la para o conforto burguês e sua relação com Sexta-Feira é instrumental, sem contar que Robinson havia ficado rico graças ao comércio escravista no litoral da Bahia. As relações da obra com o cinema são precoces. Basta lembrar que Méliès a adaptou, logo em 1902. Há mesmo um Robinson Crusoe brasileiro, com Costinha e Grande Otelo nos papéis principais. Luis Buñuel rodou uma versão do romance em sua fase mexicana, estranhamente conservadora segundo Stam, e mesmo assim pontilhada de achados surrealistas e anticlericais. O notável é que Buñuel tenha "suavizado" o personagem, tornando-o "mais gregário e sociável", o que significa uma crítica ao ideário colonial implícito ao texto. Ainda assim é pouco, e Stam bate duro: "A adaptação de Buñuel é de uma conivência frustrante com as convenções racistas e imperialistas que informam o romance de Defoe."Outro clássico dos mais adaptados foi Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Há várias versões, entre as quais a do americano Vincente Minelli, e as dos franceses Jean Renoir e Claude Chabrol. O destaque fica para Chabrol, por sua afinidade eletiva em relação a Flaubert - ambos cronistas do tédio provinciano. Dito isso, a riqueza estilística do original de Flaubert parece ter ficado longe de suas versões no cinema. Nenhuma delas, constata Stam, foi tão inventiva em sua linguagem quanto foi o romance de Flaubert para a literatura da época. O mesmo reparo o pesquisador usa para as adaptações de Lolita, de Vladimir Nabokov, feitas por Stanley Kubrick e, depois, por Adrian Lyne, ambas aquém das possibilidades abertas pelo romance. A de Kubrick, por pressão da censura; a de Lyne, pelo contrário, por uma excessiva erotização do "texto" fílmico e consequente perda de sutileza.Em seu diálogo permanente com o Brasil, Stam destaca várias adaptações, como a de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, feita por André Klotzel, por exemplo. Entende que faltou à (boa) versão o substrato antiescravagista presente no subtexto machadiano. Nesse sentido, o de aproveitamento máximo das potencialidades de um romance, o destaque ficaria para Macunaíma, o romance-rapsódia escrito por Mário de Andrade em 1928 e adaptado por Joaquim Pedro de Andrade 40 anos depois. Segundo o pesquisador, "poucas vezes um filme realizou com tanto brilhantismo as possibilidades políticas e artísticas da adaptação..." Essa versão, realizada na voragem da ditadura militar, condensa o modernismo do Cinema Novo, a Tropicália emergente e a política radical revolucionária do terceiro-mundismo da Tricontinental. Em sua versão, Joaquim Pedro insiste na crítica à repressão militar e ao "capitalismo predatório do efêmero milagre econômico", através do voraz capitalista Venceslau Pietro Pietra.No livro, Stam procura arar em campo fértil ao "desprovincializar" os estudos da literatura e do cinema, fazendo de ambas artes participantes de uma extensão transtextual mais ampla. Iluminam-se mutuamente e se enriquecem. Sobretudo quando dialogam e intercambiam linguagens. É um ganho para ambas, e certamente para a cultura de maneira geral.
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