quinta-feira, 24 de junho de 2010

A loucura segundo Tchekhov e a (in)sanidade escandinava

A loucura segundo Tchekhov e a (in)sanidade escandinava BY EXPRESSO PT


Em onda de adaptações de contos, enquanto se espera pela ante-estreia de Embargo, de António Ferreira, a partir de um conto de Saramago (amanhã às 21.00), passou pelo Fantas uma curta de animação brasileira, sem grande graça, inspirada num poema de Goethe, e um filme russo, mais fascinante do que fantástico, a partir de um conto de Tchekhov.
Manuel Halpern
15:41 Quarta-feira, 3 de Mar de 2010

Ala 6, de Karen Shakhnazarov, aborda um dos temas predilectos da literatura russa: a loucura. E parte para uma reflexão, em formato original, sobre as ténues linhas de fronteira da demência. Dr. Ravin, o médico-louco, leitor de Dostoievsky que era epiléptico, e de outros excêntricos, reflecte: 'Enquanto houver hospícios tem que estar alguém encerrado lá dentro'. E parte, com o seu paciente louco-profeta, para amplas reflexões filosóficas, apesar de "não haver uma filosofia russa", e citações de escritores em conversa amena: "Se a eternidade não existir o homem um dia há-de inventá-la".
A forma faz o filme. Passa-se essencialmente no hospício, é certo. Mas antes de mais é um filme cru, sem meios, em que a sugestão de documentário é dada pela sua construção sustentada em depoimentos recolhido por uma câmara amadora. E o mundo inteiro quer saber do estado de saúde do Dr. Ravin.

Numa sessão tardia, passou um outro filme de bom nível, fazendo jus à onda de filmes escandinavos que têm passado em Portugal, e também à moda dos livros policiais nórdicos. Num formato moderno e ousado, com uma estrutura narrativa deliberadamente infantilizada, Deliver us from Evil, de Ole Bornedal, aproxima-se de um Fargo - a parvónia da Dinamarca faz lembrar a parvónia da América, não se por as realidades serem efectivamente parecida se por a realizadora querer fazer esse paralelo. O mais interessante é a forma como o realizador desmonta as personagens e a apatia feliz da província norueguesa, mostrando um ódio e uma violência latente que faz com que, de um momento para o outro, uma sociedade se possa desfazer nos mais vis complexos, o chauvinismo, a homofobia, o homicídio. Um filme de vikings bêbedos, ociosos e sanguinários, que alerta para os perigos dos sociedades felizes, e marca o regresso da realizadora ao Fantasporto.

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