terça-feira, 27 de julho de 2010

O FADO NASCEU NO BRASIL, PÁ!

POR HOMERO FONSECA RECIFE PE- CLIQUE NO TÍTULO E VÁ DIRETO AO ORIGNAL- EU RECOMENDO ÉMEU CONTERRÂNEO AMIGOS DE DOIS GRANDES AMIGOS MES- ARLINDO SOARES E SERGIO GUSMÃO



HOMERO FONSECA
Quando eu estava pesquisando para escrever a nota “O frevo que não é frevo” deparei-me com uma informação curiosa: a possibilidade de o fado estar entre os componentes da origem dos blocos e das marchas-de-bloco (que Nélson Ferreira batizou, por imposições da discografia comercial, de frevo-de-bloco). E, ao final da pesquisa, veio-me a surpresa maior: o próprio fado, música nacional portuguesa, definidor da própria identidade lusitana, não nasceu em Portugal, mas... no Brasil!
Vamos por partes.
Quando eu era editor da revista Continente, publicamos, na edição nº 50, de fevereiro de 2005), o artigo “Frevo e fado: uma saudade só”, de autoria do escritor português António de Campos, em que ele destrincha, com abundantes informações, a influência do fado nos blocos e marchas-de-bloco do Carnaval do Recife. Ele começa citando a temática comum aos dois gêneros musicais, a saudade. Depois, informa que, em 1888, no Recife, surgiu o Clube Carnavalesco Canna Verde, dança folclórica do Minho, donde boa parte da colônia portuguesa procedia, apontando a agremiação como “o mais antigo ancestral do bloco carnavalesco misto” (que somente apareceria com as feições nos anos 20 do século XX, com o Batutas da Boa Vista), que se apresentava cantando fados. Outros grupos do mesmo gênero desfilavam no Recife, como Os Fadistas, Imigrantes Portugueses, Bairrinos Portugueses e o Canna Roxa.
Finaliza Campos:
“Com toda essa efervescência do começo do século, com “fados de arrebatar” cantados por portugueses acompanhados por crioulas orquestras de pau-e-corda; Saudade de Portugal em Pernambuco anulada de pandeiro na mão; jornais carnavalescos publicando poemas onde o eu lírico do poeta se confunde com o fado e clubes desfilando em pleno centro do Recife vestidos à moda dos ranchos portugueses e dos grupos de desfilantes das juninas marchas populares lisboetas, nada seria mais justo do que admitir que tal burburinho de vida deitou raízes e frutos, deixou no modo de trajar dos blocos de Carnaval de Pernambuco e, fundamentalmente, no modo próprio de se compor frevos para aqueles blocos – uma Saudade sabendo a Portugal.”
Em Vitória de Santo Antão, cidade próxima ao Recife, de colonização açoriana, os clubes de fados estavam no auge na década de 1920, havendo ainda hoje um remanescente ativo: o Clube de Fados Taboquinhas, fundado em 1924. Como os atuais blocos líricos, esses grupos portavam um flabelo (espécie de estandarte retangular de madeira) e desfilavam protegidos por cordões.
A jornalista e pesquisadora Maria Alice Amorim (“O avesso e o plural na folia”, in: Jadir de Morais Pessoa: Aprender e ensinar nas festas populares) relata que o Taboquinhas, provavelmente derivado do Caninha Verde, ganhou esse nome por conta das taboquinhas (espécie de bambu) pintadas de verde, de cerca de 1,5m de comprimento, que os desfilantes carregam, batendo-as no chão para marcar o ritmo. Maria Alice conclui, enfaticamente: “E a música tem evidente vinculação com o frevo-de-bloco, inclusive pela presença de instrumentos de pau e corda: violino, rabeca, cavaquinho, violão, atabaque, pandeiro. As coreografias consistem em evoluções no cordão.” Evidenciado, portanto, o parentesco mais próximo da marcha-de-bloco com o fado do que com o frevo, vamos à segunda parte.
E o fado, de onde veio?

O FADO NASCEU NO BRASIL, PÁ!

Para minha surpresa, no decorrer da pesquisa, encontro a constatação de que a origem do fado estaria no Brasil.
Mário Souto Maior, folclorista pernambucano já falecido, afirma em seu “Dicionário de Folclore para Estudantes” (http://www.soutomaior.eti.br/mario/paginas/dic_f.htm): "O fado é uma canção popular portuguesa, mas de origem brasileira. Quando a corte portuguesa se estabeleceu no Brasil, em 1808, os nobres gostaram muito do lundu brasileiro. De volta a Portugal, os nobres e músicos lusitanos deram ao lundu, com algumas modificações, o nome de fado, como é conhecido hoje.”
A tese é defendida por ninguém menos que Cầmara Cascudo, em entrevista à revista Manchete (nº 619, de 29/02/1964):
“Veja você se não é curioso: o desafio, que é português, vem pro Brasil e se torna popular, e o fado, que é eminentemente brasileiro, se torna canção nacional em Portugal. Os portugueses que voltaram com D. João VI é que levaram o fado.”
E Mário de Andrade foi mais longe, em sua “Pequena História da Música”, esclarecendo que, nascendo no Brasil, a partir do lundu de origem africana, o fado foi levado para Portugal por marinheiros, sendo introduzido pouco a pouco nos bairros típicos da cidade de Lisboa.

Mas o que dizem os patrícios a respeito?
O mais comum é proclamar-se serem desconhecidas as verdadeiras origens do fado, mas a própria Enciclopédia Luso-Brasileira reconhece a origem brasileira do ritmo nacional português. Discute-se se o fado chegou via marinheiros ou estudantes, assim como as influências da cultura árabe e das canções medievais. Possivelmente, tendo como matriz o lundu, a canção surgida no Rio de Janeiro incorporou em Portugal aqueles outros elementos, até tomar a configuração atual, marcada pelo lirismo, pelo sentimento da saudade, pelo canto vocal e forte participação da guitarra portuguesa.
Se foi levado a Portugal pela corte portuguesa retornada, por estudantes brasileiros em Lisboa ou por marinheiros saudosos – é objeto de controvérsias, mas a origem brasileira parece patente, com as misturas que, em Lisboa e Coimbra, lhes foram acrescentadas, dando-lhe o tempero especificamente lusitano e regional.
O musicólogo norte-americano Joe Bendel (professor da NYU) refere-se ao fado como produto de um fenômeno denonimado “reverse cultural colonialism” (colonialismo cultural reverso):
“In what might be called reverse cultural colonialism, many musicologists consider the Brazilian fado a product of Brazilian popular musical forms, re-imported back into Portugal, where it perhaps mixed with lingering Moorish influences. The traditional fado is often described with terms of wistful longing, telling stories of love and loss among the Portuguese working class.” Que traduzo mais ou menos assim: “No que talvez possa ser chamado “colonialismo cultural reverso', muitos musicólogos consideram o fado resultado de formas musicais brasileiras, re-importado para Portugal, onde talvez tenha se misturado à longa influência mourisca. O fado tradicional é frequentemente descrito com termos como melancolia e saudade, contando histórias de amor e perda entre a classe trabalhadora portuguesa.”
Portanto, se a marcha-de-bloco (elemento tão forte da identidade pernambucana) veio do fado (elemento definidor por excelência do caráter lusitano), este, em última instância, seria oriundo do banzo africano (musicalmente expresso no lundu).
Esses são os sinuosos caminhos do hibridismo cultural.
E viva a marcha-de-bloco, viva o fado e viva o lundu!

Veja excelente resumo das discussões do lado de lá do Atlântico sobre as origens do fado no saite:


http://74.125.93.132/search?q=cache:NSGBKkoepNkJ:www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0004/0258.html+hist%C3%B3ria+do+fado&cd=5&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

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