domingo, 3 de maio de 2015

...Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança. Mário de Andrade 70 anos


Mario de Andrade(1893-1945)…70 anos


Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.
Eu me acho tão cansado em meu furor.
As águas apenas murmuram hostis, água vil mas turrona paulista
….
A Meditação sobre o Tietê -1945-( parte final)

Depois das cinzas, das águas, do tempo estamos há setenta anos da morte de Mario de Andrade e o panorama não mudou na sua cidade Seu poema, vide trecho acima, foi escrito no ano de sua morte(1945) , talvez o último grande poema. Perfeitamente severo ao tempo ,como o de hoje.
Ele nos deixou um grande legado que até hoje há muito para se ver e entender. Sua obra é vasta e passa por mais diversos campos, da  literatura, a música, a dança, enfim da cultura popular. 
Trabalhei com seu material recolhido nas missões iconográficas da Sec.M. de Cultura de SP, tal acervo não foi trabalhado como deveria, face a nao formacão  de uma comissão múltipla – interdisciplinares de especialistas -de vários estados, como assim mereceria. O material passa pelas linguagens das artes e tem objetos raros que mesmo,  os estados –do nordeste e norte, nao os possui ,caso de Pernambuco, mas há outros mais.

Mas voltemos ao poeta, ele como um homem  solitario,  meditabundo encarou poetar a cidade em suas praças, ruas, avenidas, casas e seu maior rio. Com seus poemas iniciais, da Lira Paulistana, ele quebra a rima, fala de um Brasil, Brasil, brasileiro

Poeta do Modernismo ele foi fatal na poesía desde a Lira Paulistana, 1922. Obra magistral e antropológica como só ele sabia dar suas pitadas com seu português brasileiro. Vide -manuscrito A gramatiquinha da fala brasileira, obra inacabada, deixada pelo poeta: é a língua falada pelo povo. Fase caótica primitiva em que o Brasil é livre, [...] dá as tendências essenciais da futura fala brasileira(http://bit.ly/1CK2Rxm),mas finquemos o olhar sobre a Meditação do Rio Tietê:

Porque os homens não me escutam! Por que os governadores
Não me escutam? Por que não me escutam
Os plutocratas e todos os que são chefes e são fezes?
Todos os donos da vida?
Eu lhes daria o impossível e lhes daria o segredo,
Eu lhes dava tudo aquilo que fica pra cá do grito
Metálico dos números, e tudo
O que está além da insinuação cruenta da posse.
E si acaso eles protestassem, que não! que não desejam
A borboleta translúcida da humana vida, porque preferem
O retrato a ólio das inaugurações espontâneas,
Com béstias de operário e do oficial, imediatamente inferior.
E palminhas, e mais os sorrisos das máscaras e a profunda comoção,
Pois não! Melhor que isso eu lhes dava uma felicidade deslumbrante
De que eu consegui me despojar porque tudo sacrifiquei.
Sejamos generosíssimos. E enquanto os chefes e as fezes
De mamadeira ficassem na creche de laca e lacinhos,
Ingênuos brincando de felicidade deslumbrante:
Nós nos iríamos de camisa aberta ao peito,
Descendo verdadeiros ao léu da corrente do rio,
Entrando na terra dos homens ao coro das quatro estações.

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