quarta-feira, 20 de maio de 2015

No voo da palavra entre bichos e gente

BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS (1944-2013)
No voo da palavra entre bichos e gente
publicado pela Revista Brasileiros SP 
foto.Carta Capital





…A gente só fantasia o que não temos. Não fantasiamos o que temos. Então, a literatura é feita de falta. O que escrevo é o que me falta. É isso que a literatura faz. A literatura é o lugar da falta. Bartolomeu Campos  de Queirós
Dra.Ebe Maria de Lima Siqueira UFG/UEG
Paulo Vasconcelos

Principiamos com Ebe Maria de Lima Siqueira[i], professora, que já publicou livro sobre Bartolomeu Campos de Queirós e, na sua tese de doutorado volta ao escritor mineiro, situando-o entre autores canônicos da literatura brasileira, independente do público para quem escrevem. dentre outros autores de literatura infanto juvenil.

Conheci o Bartolomeu por intermédio da sua literatura, ainda na década de 90 e, de lá para cá, vivi na sua companhia, seja  pela literatura, seja em carne e osso pelo convívio com o poeta.
No princípio, eu cuidava de separar autor e sujeito empírico, por considerar o princípio aprendido na academia, que é claro em afirmar que não se pode confundir o homem com o autor. Entretanto, quanto mais eu me aproximava de sua obra, mais eu reconhecia nela o homem Bartolomeu. Os meninos, todos espalhados no tecido de seus  textos, reverberavam o menino Queirós: o que nasceu em Papagaio e que, desde cedo, descobriu que estava predestinado a revelar nas suas dores as dores de todos os meninos-homens do interior de Minas, do interior do Brasil, do interior de todos os lugares e de todos os tempo; o que foi, o de agora, e o que ainda virá.
O fato de ver a sua obra como exemplo de uma literatura sem fronteira foi o que me motivou a tomá-lo como objeto de estudo também na pesquisa de doutoramento. Nesse estudo, tive a oportunidade de situá-lo entre outros grandes da literatura nacional como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Manoel de Barros. Estes escritores se aproximam, porque suas obras estão no entre lugar dos gêneros literários, têm como linha de força a experiência vivida e possibilitam a leitura de público bem diversificado independente da idade que tenham. Vermelho amargo, por exemplo, que a crítica especializada define como livro escrito para adulto, é um livro que pode ser lido por todas as idades. A diferença é que para que ele chegue até o público infantil será necessário a presença de um bom mediador, que não esteja guiado apenas pelos manuais das editoras.
O que podemos dizer de Vermelho amargo é que, em 40 anos de produção, o círculo de memórias se fecha com uma narrativa altamente biográfica. Mas se a linha do verso é longa e o seu teor se adensa em simbologias e metáforas, o livro aponta para a necessidade de uma mediação acurada, cuidadosa, capaz de escolher melhores estratégias, o melhor momento de iniciar e de interromper a leitura para que o texto se torne uma realidade acessível ao leitor, que precisa desejá-lo, para, só nessa condição, fazê-lo seu.Vermelho Amargo coloca o poeta mineiro em sintonia com Fernando Pessoa, ambos a fingirem a dor que deveras sentem: “Dói. Dói muito. Dói pelo corpo inteiro”, Uma “dor que vem de afastadas distancias” (QUEIRÓS, 2011, p. 7-8) 
Embora tenha escrito também narrativas despretensiosas, como se estivesse apenas recordando seu percurso de alfabetização, que são, por exemplo, Diário de Classe (2003), Raul (1986), As patas da vaca (1989), O guarda chuva do guarda (2010), sua grandeza como escritor se concentra nas narrativas de caráter autobiográfico, que têm início com a publicação do livro Indez, em 1989. Indez inaugura um pacto autobiográfico que autoriza o leitor a perceber que o discurso literário é lugar de acolhimento de muitas vozes, entre elas a do autor empírico, homem como todos os outros, marcado por muitos medos, e entre eles o medo do esquecimento, que o leva a ficcionalizar-se. 
O mesmo procedimento se repete em Ciganos (1994), Por parte de Pai (1996), Ler escrever e fazer conta de cabeça (1996) O olho de vidro do meu avô (2004), Antes do Depois (2006). Em todos esses livros o que se percebe, de imediato, é uma disposição anímica que pressupõe uma projeção do estado de alma, uma vez que os sentimentos, todos os estados mais recônditos e profundos do íntimo, estão entrelaçados com a paisagem, com uma estação do ano, com um estado da atmosfera. Não há uma exigência de que a narrativa seja filtrada por uma primeira pessoa, mas o que se mantém é sempre a escolha de uma retórica intimista, diminuindo a distância entre quem escreve e quem lê.
Bartolomeu concentra o cerne de sua narrativa no fato de narrar a sua própria experiência, por fiar a memória da família, melhor alternativa para guardá-la do esquecimento, porque sua escritura, além de ter a memória como fulcro, como já lembramos, tem suas fontes na infância.
O autor escreve a contrapelo de alguns princípios da modernidade, ao trazer a experiência novamente para dentro do homem. Quer devolver ao homem aquilo de que foi expropriado pela crença de que tudo seria explicado pela ciência moderna.
Vislumbrar em sua obra a expressão do literário, que é o mesmo que lhe atribuir “esplendor estético” (BLOOM, 2005, p. 13), com a função de “revelar que habitamos a terra, não só prosaicamente – sujeitos à utilidade e à funcionalidade -, mas também poeticamente, destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase. (MORIN, 2010, p. 45)

                                         Foto por Abril.Cultural

Barto foi um pássaro bigudo catando palavras sobre o tempo e, assim, buscando um reino do letrável, como ele próprio disse. Aprendeu em casa a ler e escrever antes de entrar na Escola através de seu avó paterno, este escrevinhava pelas paredes da casa toda, notícias do cotidiano e outras, as mais curiosas ou para adultos, eram escritas  no alto da parede para evitar que os netos e outros vissem, lessem. Esse fato levou o menino a ter um gosto inusitado, como por pelo avesso a palavra, ou não dar destino certo. O avó era uma figura e tanto que lhe desbocou para não ter medo de enfinhar-se pelos meandros, meios, nas canelas das palavras. Era escutador da avó que lhe contava histórias senta da num penico, arrodeada dos netos. Esse modo de vida, desprovido, e ligado à terra e a família lhe permitiu transportar para a literatura, toda uma brasilidade mineira, e que se confunde com muitas outras, dizendo de modo simples e terno a vida.
De suas entrevistas, dentre elas, destacamos uma das últimas conhecida sem 2011 ao jornalista Rogério Pereira no Teatro Paiol, Curitiba (PR), http://bit.ly/HQaEVN

Assim temos:
“Literatura – o grande patrimônio que temos é a memória. A memória guarda o que vivemos e o que sonhamos. E a literatura é esse espaço onde o quê sonhamos encontra o diálogo. Com a literatura, esse mundo sonhado consegue falar…




O texto literário é um texto que também dá voz ao leitor. Quando escrevo, por exemplo: “A casa é bonita”, coloco um ponto final. Quando você lê para uma criança “A casa é bonita”, para ela pode significar que tem pai e mãe. Para outra criança, “casa bonita” é a que tem comida. Para outra, a que tem colchão. Eu não sei o que é casa bonita, quem sabe é o leitor. A importância para mim da literatura é também acreditar que o cidadão possui a palavra. O texto literário dá a palavra ao leitor. O texto literário convida o leitor a se dizer diante dele. Isso é o que há de mais importante para mim na literatura…”

Iniciou-se à toa, pelo fantástico da palavra e imaginação, de repente, sai O peixe e  pássaro-1971-prêmio literatura Infantil.Com o livro ele desmitifica a literatura chamada Infantojuvenil. A obra é uma grande poesia, literatura para todos, sempre, como assim o apresentou Henriqueta Lisboa, que em contracapa do livro nos diz: “Sem resposta definitiva, algumas vezes me fiz esta pergunta: Como reconhecer a poesia? Muitas vezes pude identificá-la, respirá-la tocá-la, guarda-la nos olhos, nos ouvidos e coração....” Henriqueta, a grande poetisa mineira já via o futuro de Bartolomeu, a poesia. Mesmo entrando pela prosa, ele a enxertou-a de poesia, como só os bons fazem.
Com uma obra que ultrapassa 40 livros, Bartolomeu foi premiado, trabalhou com o eixo da leitura, para difusão do livro, premiado nacional e internacionalmente, nos marcou recentemente, o ano passado com sua obra Vermelho Amargo. Post mortem aparece O elefante, obra curta, mas sempre nos seu moldes do bicho e da prosa poética.












Bartolomeu Campos de Queirós  ou Bartô nasceu em Papagaios MG (1944-2013)
Aos  seis anos perde a mãe, passa por Divinopolis, Juiz de Fora. Em seguida Belo horizonte, onde faz Filosofia e inicia suas atividades ligadas a Educação. Será na França que escreverá seu primeiro livro O peixe e o pássaro.
Foi presidente da Fundação Clóvis Salgado/Palácio
das Artes e membro do Conselho Estadual de Cultura, ambos em Minas Gerais. Idealizou o Movimento por um Brasil Literário.
Recebeu condecorações como Chevalier de l’Ordredes Arts et des Lettres (França), Medalha Rosa Branca (Cuba), Grande Medalha da InconfidênciaMineira e Medalha Santos Dumont (Governo do estado de Minas Gerais). Ganhou ainda o Grande Prêmio da Crítica em LiteraturaInfantil/Juvenil da
AssociaçãoPaulista de Críticos de Arte (APCA), Jabuti e Academia Brasileira de Letras.











































[i]Doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás. Professora da Universidade Estadual de Goiás, Unidade Universitária da Cidade de Goiás

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