quinta-feira, 7 de maio de 2015

O poema não é cego





“Num me venha com cunversa mole nao; eu num presto,sou deus, sou o diabo,  sou Tiresi,deixo Omero no xinelo; sou rin, rin mermo, sou nego ,cego,bofoti,tenho os oi aboticado,mai os juízo dos oio foro pra imaginação ,mermo cum os dente distraído taivez pruisso canto veusso e vosmece com seus oi fai veusso de segunda, inda diz que é  literato, num venha não...” Delzo Silva-poeta de Queimadas-PB-já falecido- em pendenga --1977

Vivi, na minha infância, as cantorias dos meus cegos do Nordeste-nas feiras-especialmente ,praças, mercados  e ruas e ,aqui mesmo, em S.Paulo,R.de Janeiro,  E. Santo e S. Catarina migrando ou não – eles estão entre outros estados  que visitei e conversei , anotei, gravei, escutando seus poemas, suas loas,desafios ,causos e frases.

Apreciei seu processo criador ,sua poética e crítica social. Divisei assim com uma língua rica.Não é literatura fantástica,é a literatura do povo e seu verso afiado que o diga M.Bandeira e João G. Rosa..

Na literatura -de Cordel -a presença dos cegos- numa tradição mouro/ibérica -é intensa, talvez tenha sido maior , mas estão pelo Brasil afora.Existem os famosos: Aderaldo e Oliveira mas não se resumem a estes .Cineasta, entre outros, W. Carvalho,R. Cariry e L Meirelles documentaram  a arte destes .

Mas vejamos: Cego –Aderaldo F. de Araujo- um dos mais famosos do Ceará –Crato- 1878/1967.

Canto para distrair

“Este meu curto poema:
Vou fugindo da miséria
Que é este o penoso tema,
Desta terra de Alencar,
Deste berço de Iracema.
...
Fugi com medo da seca,
Do pesadelo voraz
Que alarmou todo o sertão
Da cidade aos arraiais.”( http://bit.ly/LvjAvY)

Já o Cego Oliveira-José Oliveira 1883/1977

Estava cantando em Guiana
Na casa de um amigo
Quando uma mulher mundana
Chegou pra falar comigo
Toda cheia de desgosto
A lágrima banhando o rosto
E sei que poeta tu és
Por Deus escreva um poema
Relativo ao meu dilema
Na Porta dos Cabarés
Deixei a casa paterna
Com 15 anos de idade
...
Numa vida de prazer
Nunca pensei deu sofrer
Nas Porta dos Cabarés
Eu só andava no trato
...
A cadeia é o meu prédio
Aguardente é meu remédio
E eu sou mulher de mais de dez
Portanto minha insistência
Vou sofrer com paciência
Nas Porta dos Cabarés (http://bit.ly/IPAM1e)

Há aqueles que nao pelejam,nem versejam, e até o fazem no formato de frases soltas:

“ Os cego inauguraram o mundo
na escuridão ,só despolis vei a lui e aí a ilusão “Zé do Bigu CG.PB-1979

“Os cego nao vê espei,mas vê o espei da lingua
na carteira da solidão “Terto da Silva- Mercado S.José-Recife-PE-1982

“Na cegueira fui nascido,no veusso afabetizado,na cantoria fui entronizado”-Amaro da Silva-J.Pessoa-1987

“Minha mãe deu me os peito,mas num deume a visao,mai como tudo e inlusão deu me a visao de poetar “ - Deodato de Maria –Forataleza-1988

Em C.Grande PB,  temos  as atrizes/cantoras  no ganzá -
Maria, Regina e Conceição, mais conhecidas como Maroca, Poroca e Indaiá, conheci-as e disseram :A pessoa é para o que nasce- frase  que deu nome ao filme de R. Berliner 2003( http://bit.ly/hzAsDi)

 ***publicado já na Revista Brasileiros




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