segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Um poeta, filósofo fala da poesia humana de um Futebol (capturas do Face)

Flagro, um filósofo, poeta a falar e a tecer a vida numa simplicidade e clareza que nos dá vivas a vida. Elton, é assim, uma suavidade de humanidade que nos faz olhar e viver com mais força.Conheço-o e testemunho esta poesia ambulante que me impressiona, e por cima, ainda, é um especialista em Manoel de Barros,  anexa-o a Deleuze, num grande crochê de poiesis, também poderá! Paulo Vasconcelos


Sou filho mais velho de muitos irmãos. Porém, com seis para sete anos uma amizade me fez experimentar o inverso , pois fiz amizade com um garoto chamado Edinho, que era cerca de 4 anos mais velho que eu. Ele não era apenas meu melhor amigo, ele era também o irmão que eu escolhi para ter. O irmão mais velho do irmão mais velho, e eu era para ele o irmão mais novo que ele queria ter. Sobretudo para jogar bola, Edinho era louco por futebol . Ele foi, àquela época, meu herói. Eu o imitava em tudo.Só havia um problema:Edinho era botafoguense. Meu pai era flamenguista roxo. Creio que era nesse único ponto que meu pai temia minha amizade com aquele garoto. Ainda mais porque eu já começava a me dizer botafogo. Ganhei até uma camisa desse time (dada, é claro,pelo Edinho).

Então, meu pai me chamou para ir ao Maracanã velho Maracanã... Fomos assistir a um flamengo e bonsucesso, se não me falha a memória.Àquela época, os times do subúrbio tinham boas equipes.
O maracanã estava cheio:40 mil pessoas, no mínimo. Na verdade, eu só estava interessado nos doces e biscoitos que meu pai estava pagando para me agradar. Mas ele tinha um plano...

 O jogo não estava fácil.O primeiro tempo terminou 0x0. Até que aos 15minutos do segundo tempo começou a se aquecer um jogador do flamengo. Ele era muito jovem, um menino ainda. Quando tal garoto se preparava para entrar, meu pai me disse algo em tom de ordem, tom este que não era comum ouvir de sua boca. Ele me disse: “meu filho, não tire os olhos desse garoto....”. Eu nada disse , apenas confrontei mentalmente a frase que ouvi do meu pai com a imagem que meus olhos viam, e não conseguia ver sentido naquela ordem, ainda que cheia de esperanças.Sim, havia nas palavras do meu pai uma expectativa, como se ele tivesse me trazido ali para ver aquele momento. Contudo, a imagem que eu via era uma decepção: o garoto era magrinho, franzino mesmo, o uniforme o engolia, literalmente. E ainda por cima, pensei comigo, “ele é loirinho! O flamengo nunca teve jogador bom loirinho....”
Até que o garoto tocou na bola.Foi um simples toque, uma dominada, e o mundo passou a ter outro sentido. 

Uma qualidade não se explica pelo acúmulo de quantidades. Se a sopa é ruim, ela não melhora com o acúmulo de colheradas. Mas se a sopa é boa, uma simples colherinha dela já nos faz sentir que ela é boa.Ele depois ergueu a cabeça como um rei e fez um lançamento.Que lançamento!...1X0. Ele havia antevisto algo que ninguém viu.Ele anteviu o acontecimento em sua virtualidade. Logo depois ele mesmo fez um segundo gol e nos deu a vitória. Sim, eu já falava “nós”, e não mais “eles” ,ao pensar no flamengo.

O nome desse jogador ainda garoto era Artur, o mesmo nome do rei protagonista de fantásticas narrativas criativas ,mais do que de guerras sangrentas .Mas todos já começavam a chamá-lo por um nome simples, como simples é todo grande. Chamavam-no simplesmente Zico. Aquele foi um dos primeiros jogos profissionais dele. Como meu pai frequentava muito o Maracanã, já o tinha visto jogar em alguma preliminar. Ao fim do jogo, retornava o povo às ruas, cantando nosso rei ( eu estava convertido...rs...).Baudelaire dizia: “Seja um poeta, mesmo em prosa”.Zico ampliou essa ideia e nos ensinou : “seja um artista, mesmo com a bola”.

E enquanto meu pai me conduzia pelas mãos na saída, eu olhava para ele e, em silêncio, dizia para mim mesmo: “Meu pai sabe tudo...”
* Possui Mestrado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1997), Mestrado em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995) e Doutorado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2004). É professor adjunto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e professor adjunto da Faculdade de Filosofia de São Bento

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