sábado, 20 de janeiro de 2018

REUBEN DA ROCHA - A POESIA DE NOVO ENXAME LEXICAL




A poesia é feito cobra mansa, braba, bico de ema, sapato furado ou papel de seda em desmonte — assim o poeta que lambe o mundo de verdade trata (quase) tudo, destrata, seleciona, diz, rediz; não agrada-me adjetivos a qualificar o poeta. Prefiro ler, sentir, gostar ou não gostar da rede de palavras que ele tece, morder e tirar meu sentir. Chama-me atenção em qualquer poeta sua teia de palavras, seu mundo lexical, seus adornos, seus investimentos político-sociais, a pintura do seu imaginário, a saída dos lugares comuns, o modo de entortar palavras, a escrita, e lá vai.

Esses agrupamentos de características, sublinho-os, faz-me abrir mais as pestanas e entrar dentro do poema — foi o caso de Reuben Rocha. Aliás, há uma afirmação dele para o estar e ser poeta quando diz: "A tarefa do poeta é o trânsito. É você conseguir fazer a tradução e a passagem de um mundo para outro." 

É sempre difícil nos definirmos, ás vezes só apelando para uma prosa poética quando escapa talvez algo de si. Aqui nesta afirmação quiçá ele se diga um pouco: "Eu sou um bicho do mato vivendo em uma megalópole do terceiro mundo. Eu nasci numa ilha, gosto de conversar com o vento, com o movimento das marés, com a gradação da luz do sol. Quando eu penso em tecnologia, me parece um monte de sucata que já passou..."

Reuben teve destaque merecido em um dos números do Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco, que considero um dos bons meios da Literatura e Arte neste país, ainda que pouco conhecido. Tendo como mediadora da matéria/entrevista Giani de Paula de Melo, da área de Letras.

Paulo Vasconcelos





LOGO ACIMA DO SILÊNCIO DO ÍNDIO Q SE SUICIDA

o enforcado sonha em disparada desta atmosfera pesada p/ outros mistérios + esferas
logo acima
dos abacates suspensos podres 1tupi akira
vara a febre do mosquito galopa aflito p/1lugar longínquo + escapa
às tentativas de assassinato
vista multidimensional do universo
amplo ataque do enxame sobre o exército
...
.....http://bit.ly/2Bhihzt
Abaixo segue  matéria do referido suplemento e seu link:




 http://bit.ly/2mUv2L2
Escrito por Gianni Paula de Melo (imagem: Beatriz Sano/ Divulgação)



Enquanto preparava o texto desta entrevista, a mais canceriana de tantas que já realizei, me vi em algumas conversas com pessoas que não conheciam o Reuben da Rocha e que me perguntaram como era a sua escrita. Eu dizia: é algo entre os índios e os astronautas, é sobre tornar inteligível a nave espacial para um lagarto. Nascido em São Luís (MA), mas morador de São Paulo, o poeta, também conhecido por cavalodadá, é das potências mais estranhas e fascinantes da poesia contemporânea brasileira. Por não ter publicado por selos comerciais, ainda escapa a muitos leitores.
Em tempos de abismo e histeria coletiva, não é em toda esquina que alguém te diz que “a evasão pode ser um direito que as pessoas estão exercendo muito pouco”. É preciso coragem para bancar um projeto poético que ressoe alegria e saúde, uma vez que existe um preço em ser um sujeito deslocado que recusa os discursos do medo e da melancolia da época. Escaldante, seu livro mais recente, realizado a convite do selo Livros Fantasma e disponível para download (no site livros-fantasma.com/catalogo), traduz bem esse projeto.
No tocante às publicações, seu trabalho de mais visibilidade até hoje talvez seja a série Siga os sinais na brasa longa do haxixe, espécie de distopia que o autor designa como “epopeia do terceiro mundo”. Nesta conversa com o Pernambuco, Reuben explica a contribuição que lhe é possível dar como artista, fala sobre seu gesto de preservação do entusiasmo e indica os poetas e experiências que se comunicam com a sua produção.

Quem é cavalodadá?
É uma tentativa de criar uma poética a partir da degradação linguística deste século. É uma “personagem semiótica”, que apareceu em uma música que fiz e já nem lembro, um “cavalo dado” em versão travesti. E é aquele que incorpora de maneira onívora, um cavalo com o “dial” girando solto. Mas um nome vai ganhando sentidos que você não espera. Nos últimos anos, acabei descobrindo que Dadá é um nome de Xangô na Bahia, e Xangô é um orixá que é muito próximo de mim. Cavalodadá é um aspecto da minha poética, e eu sei que ainda vou ter muitos nomes na vida.
A poeta Júlia de Carvalho Hansen, certa vez, me disse que te considerava um poeta-xamânico-cognitivo. Por que ela te define assim? 
Porque ela é gentil. Eu desconfio um pouco de um poeta que se coloque nesse lugar, nesta época de autoimagens hiperconstruídas do autoengano instantâneo. Para ser xamã, você tem que passar por uma iniciação de vida ou morte, você precisa curar a si mesmo. Eu não diria isso de mim.
Escaldante conecta o cósmico com o extremamente palpável e mundano. Como este livro foi gestado?
Este é o livro que eu levei mais tempo para fazer, porque em todos os outros eu me coloquei numa certa urgência, numa rota até o limite físico do escrever. Escaldante são aqueles poemas que eu fui fazendo na beira da estrada ao longo de tantos anos que eu nem sei dizer. E também traz uma série de imagens, que chamo de “ambientais” e assino como Ambos, que é “coautor” do livro. São intervenções gráficas que fiz numa série de pedras de tamanho médio, descartadas pela construção civil, e que depois fotografei ao longo de várias derivas pela cidade, criando colagens gráfico-espaciais por meio da fotografia. Existe mesmo isso que você disse, uma ligação entre o cósmico e o chão. Eu ando muito a pé, ao mesmo tempo tenho uma relação forte com a atividade da contemplação, então eu tento transformar a observação em beleza. A origem do sentimento espiritual é a contemplação, você se deparar com o absurdo da beleza que está disponível. E é nesse estado de percepção que consigo criar. Na cidade, isso acaba se ligando muito com a calçada, com o meio-fio, com a sarjeta, a sujeira. É uma forma de olhar para cima olhando para baixo.
E existe uma ambivalência temporal, como diz aquele verso: arcos futuros alçados mil anos atrás. Tua escrita concilia muito elementos científicos e tecnológicos com elementos ancestrais e primitivos. 
É uma percepção de que os tempos convivem, e o que vai acontecer já aconteceu. Gosto de me colocar em situações nas quais me vejo fora do tempo, como no caso da experiência psicodélica, ou do ato físico de amar. Eu sou um bicho do mato vivendo em uma megalópole do terceiro mundo. Eu nasci numa ilha, gosto de conversar com o vento, com o movimento das marés, com a gradação da luz do sol. Quando eu penso em tecnologia, me parece um monte de sucata que já passou. E ao mesmo tempo isso tudo é a pedra lascada, é o mecanismo da expansão humana, porque o caminho da espécie é parecido com o caminho dos signos, né? “Os signos crescem”. Tudo caminha para a expansão, e tudo é só um brinquedo para mamíferos. E já que estou aqui, como mais um mamífero experimental no planeta, eu me ocupo com a tecnologia em busca da contemplação possível neste mundo de sucata.

Você transita confortavelmente no meio dessa sucata?
Eu me sinto estranho, mas ao mesmo tempo confortável, porque a tarefa do poeta é o trânsito. É você conseguir fazer a tradução e a passagem de um mundo para outro.
Tarso de Melo definiu a série Siga os sinais na brasa longa do haxixe como “libretos de uma ópera dos tempos convulsivos em que tudo tem donos cruéis e nada faz muito sentido”, mas ele também diz que, diante da tua forma de composição, parece que “tudo rui – e nasce mais bonito”.  Você se reconhece nessa afirmação? 
Haxixe foi um projeto bem desesperado. Eu tinha o núcleo do roteiro e me propus a escrever os seis volumes em um ano, seriam dois meses para cada livro. Às vezes, eu releio e me surpreendo, porque eu tinha uma visão mais dura, achava que era um livro terrível. É um poema distópico onde as personagens estão vivendo uma utopia de sexo, carinho e revolta. É uma epopeia do terceiro mundo.
É como se interessasse também as brechas por onde a utopia ainda escapa. 
Eu tenho uma atração pela experiência da beleza; um querer porque quero cortejar a beleza e me alimentar disso. Eu quero ver e estar sempre em busca de uma possibilidade de gozo.
Teu posicionamento coincide com uma visão otimista do mundo?
Não gosto de cultivar estados mentais de baixa frequência. Talvez meu papel na luta seja criar alguma coisa mais arejada. Existe uma reserva de alegria que eu sempre encontrei na arte. Eu quero escrever coisas que façam contrair o coração. E ao mesmo tempo você tem que morrer todos os dias e aprender a nascer de novo. Não é bem um otimismo, mas um entusiasmo.
Mas a sua perspectiva pode ser facilmente tomada como evasão? É o risco que se corre?
Talvez. Walter Benjamin dizia que a fofoca só existe porque as pessoas têm medo de ser malcompreendidas. E tem aquela história da Nise da Silveira, de que existem mil maneiras de pertencer à sua época. Eu não sei se cultivar a beleza é a pior delas. Eu tenho lido muito Brecht, tenho buscado essas pessoas que tiveram grande fôlego em momentos de ruína, que tiveram fôlego e estômago. E, ao mesmo tempo, por mais que eu me situe como um sujeito histórico, inserido em um processo de transformação socialmente doloroso, tenho uma atração pelas “ilhas desertas”, pelas experiências de solidão social e integração vital com o vazio. A evasão pode ser um direito que as pessoas estão exercendo pouco.
Parece meio perigoso dizer algo assim nos dias de hoje.
Eu fiquei pensando muito nisso quando a gente começou a falar sobre a possibilidade dessa entrevista. Será que eu deveria dar uma entrevista?
E a arte tem estado a serviço de outros discursos?
As pessoas perdem de vista que o prazer que a arte pode gerar tem um caráter desviante muito grande, que você cria novas realidades, e se energiza para as broncas do cotidiano normativo. Isso é uma questão de saúde mental, que ao mesmo tempo não resolve a vida de ninguém, mas você cria uma centelha de rebeldia instintiva. Politicamente me interessa muito saber como meu livro pode chegar ao máximo possível de adolescentes, que vão entrar em contato com um discurso perigoso que não é pra ser entendido de cara, é pra se relacionar de uma forma que não é intelectual apenas, mas é física, sensual, sensível. Chama a atenção que a gente esteja vivendo novamente um momento autoritário, mas que desta vez não tenha a experiência do desbunde. Não tem a experiência social e coletiva daquilo que pode ser visto como escapismo, mas é produção de novas formas de vida.
Quais poetas se comunicam com a sua escrita? 
William Blake é um grande contemporâneo meu; Maiakovski; José Agrippino de Paula, o multiartista importantíssimo; os cineastas Rogério Sganzerla e David Cronenberg. Khlébnikov, Walter Benjamin, Lao Tsé, o poeta místico que não conheceu a morte. Rumi, Gregory Corso, Katsuhiro Otomo, Décio Pignatari. Júlia de Carvalho Hansen, Carla Diacov, Tazio Zambi. Ricardo Aleixo, que é um grande diálogo, todos temos muita sorte de conviver neste momento com Ricardo Aleixo. Sebastião Nunes, Waly Salomão, Valêncio Xavier. Vasko Popa, Hakim Bey, Walt Whitman. Com certeza tem vários de que eu não estou conseguindo lembrar.
Que outras experiências entram no seu processo compositivo?
Eu tenho uma relação muito forte com a psicodelia e as plantas de poder, com a ayahuasca e os cogumelos, com o LSD também, com a maconha. Para mim, sempre foi uma busca espiritual decisiva e uma busca de linguagem decisiva. Todas as experiências de alteração da consciência e do corpo foram também transformações de linguagem, foram chegar a escrever diferentemente. Existe também a relação intermídia com o fazer, ao buscar me contaminar por materiais de naturezas diferentes, códigos plurais, e não fixar a poesia num suporte dado. O dub reggae, o free jazz, as histórias em quadrinho. E o hábito de andar na rua e ouvir as pessoas.

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