quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Poemas de Riso e Siso - Assis Lima -


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*Assis Lima ( por http://bit.ly/2FeDe1F)


Foto Editora Confraria doVento




"A poesia anda escassa
e por isso avessa
aos menores vasos.
Sem leveza e forma,
sem fluxo, sem graça..."

Assis Lima, cearense, hoje já adaptado em ser paulistano, é um poeta do agir no encontro com os seus. Sejam pacientes, amigos e leitores, sim, ele é médico psiquiatra/psicanalista e por isso talvez fique atento às silabas, às afirmações da poesia do humano. Ao mesmo tempo na poesia ele é ação linguística, estética de um leitor magnânimo.

Seu novo livro, Poemas de Riso e Siso – Confraria do Vento (2017), como o próprio título diz, tem como tema a graça, o humor - sisudo-riso.

Como poeta ele denuncia, como no verso acima, a escassez da poética dos dias atuais, mas nos oferece vias para ver e ler as boas obras, como nas suas obras editadas e outros tantos que ele lê em gulodice.

Esta obra mostra um Assis mais leve, mas nem por isto releva o grave nos seus versos contaminados pelo verso popular, que lembra a poesia dos cordéis, alguns:

Ingazeiras anuns caranguejos
guaiamuns, aratus.
Arruda
ramos de vassourinhas.
Mangue,
corais vulcânicos.
Verde-azul, o mar.
Reinos força, raça.
(Itacaré, pág. 560)

Ora ele vem no siso filosófico, mas entremeia-se ao riso:

Existo em meio a dualidades
ora dividido, ora conciliado.
Em algum momento passarei a 3D?
(Dualidades, pág. 31)

Ronaldo Correia de Brito, ao apresentar a obra recente deste autor, afirma com uma sutileza de borboletas em voos a obra, de modo a deixar pouco o que se falar, como aqui agora eu estou a fazê-lo:

“A geografia de Assis Lima não foi a antiga dinastia Thang, época em que na China cada homem era um poeta. Mas uma paisagem agreste, ali no Crato, Cariri cearense, em sítios onde o riso e o siso eram praticados como expressão poética do viver.
Os 56 poemas que compõem este livro se misturam entre o grave e o hilário, numa dosagem contida e refinada. Um humor arrancado por vezes de ângulos de pedras, permeando poemas epigramáticos e sentenciosos....”

Mas como o verso já dizia, meu amigo se esqueceu, risos, digo Ronaldo, mas permita-me como todo o carinho que lhe tenho, Assis é uma coruja sabida; à espreita do coloquial ele brinca de esconde-esconde:

Para bom entendedor,
um cisco
é Francisco.
Basta?
(Meia palavra, pág. 77)

Assis é misterioso, ora sem enigmas, mas como na vida tudo está entre um e outro sua poesia replica de forma abundante tal dualidade humana, mas uma das mais intensas dualidades é o seu estilo que se embrenha entre uma poesia dita cheia de graça   e que alguns não gostam do discurso poético nordestino e Assis rompe e mostra o outro lado da sua poesia, que não se situa em léxico ou estética regional e alcança epifanias de um poeta maduro, pela dita dualidade aqui apontada.
...
No embate das ondas
o mar sem começo
se apossa de mim
(Horizonte, pág. 13)

Ou

Casa do Eu,
simples eu,
que tem caroço e casca.
(Escuta, pág. 35)

Deixemos com nossos leitores outras considerações de uma leitura atenta microscópica, que saboreei a casca e o caroço deste fruto voraz - Poemas de Riso e Siso -  degustando também as ilustrações de Lula Wanderley.

*ASSIS LIMA é cearense, do Crato. Médico pela Universidade Federal de Pernambuco, especializou-se em psiquiatra, em São Paulo, onde reside. É autor do livro Conto popular e comunidade narrativa (Prêmio Sílvio Romero - Funarte). Organizou a coletânea Contos populares brasileiros - Ceará.  É coautor, com Ronaldo Correia de Brito, dos infantojuvenis Baile do Menino DeusBandeira de São JoãoArlequim de Carnaval e O pavão misterioso. Publicou os livros de poesia Poemas arcanosMarco misteriosoChão e sonho e Terras de aluvião.

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