sábado, 17 de fevereiro de 2018

UM POETA NÃO SABIDO NOS MEIOS SUDESTINOS-UM GRANDE POETA..CAPTURAS DO FACE




...Já então é tudo pedra
os dias, os desenganos.
Rios secaram neste rosto, casca
de barro, areia causticante.....


Desiludamos , nao leremos nem um terço dos bons poetas, este era um-Max Martins- lembrado no facebook por  Vasco Cavalcante, poeta paraense .Conheci Max, sua obra , no começo dos anos 2000, via William Aguiar, outro poeta, nao publicado, paraense, já falecido.A poesia de Max, às vezes fechada, é densa , leva o leitor a pensar.Não foi um poeta de leitura fácil, nem por isto deixou de ser um dos grande poetas do Brasil, que a mídia, sudestina, poderosa e vendida omite.
Sua obra está publicada na integra, salvo inédito que porventura exista.Vale a pena visitá-lo, lê-lo com a sobriedade dos grandes poetas.Tomo de empréstimo dois textos :1: o de Vasco Cavalcante  via Facebook , o 2 -do blog Modo de Usar& Co. por   Ricardo Domeneck-poeta-

1-Vasco Cavalcante  pelo Facebook

MAX MARTINS
(1926 - 2009)
O poeta Max Martins nos deixou no dia 09 de fevereiro de 2009, aos 82 anos. Lembro bem desse dia, do momento em que recebi a notícia e o quanto isso me perturbou. Fiquei sem saber o que fazer, nada me dava conforto ou pelo menos me faria diminuir a sensação de vazio que senti. Max foi meu vizinho desde os meus tempos de menino, na vila do IAPI, em Belém do Pará. Foi o primeiro grande poeta a ler meus primeiros rabiscos poéticos quando eu tinha meus 15/16 anos. Minha afeição, carinho e admiração por ele sempre foram enormes. Pela pessoa, pela generosidade e principalmente pelo poeta.

Uma certa hora, após receber a notícia, corri para o meu teclado e escrevi em desabafo um pequeno texto tentando expressar meus sentimentos naquele momento, muito para diminuir a sensação de vazio e extrema emoção que sentia. A noite, montei em uma foto dele, de autoria do fotógrafo Béla Borsodi, e quis dar um formato de marcador de páginas de livros, porque era aonde mais eu o encontrava, onde mais interagia com ele, onde mais o poeta me encantava, nos livros, com sua escrita poética.

Ontem fez 9 anos de sua partida, mas como sempre eu penso e sinto, que as pessoas que admiramos, veneramos, amamos, nunca nos deixam, porque sempre estarão vivos dentro da gente, o Max Martins por isso mesmo será eterno na vida dos que o admiram, dos que o amam.
Trago a arte feita com o meu desabafo emocionado e um poema publicado no livro "Caminho de Marahu" (Edições Grapho, 1983), chamado "um jardim zen", montado em uma foto do fotógrafo Octavio Cardoso, produzida em um dos dias em que esteve com o Max, em sua famosa cabana, na praia do Marahu, na Ilha do Mosqueiro, em Belém do Pará.Max Martins nasceu em Belém do Pará, em 1926. Após os estudos de Literatura, passou a colaborar em revistas e suplementos, como a revista literária Encontro, publicando os primeiros poemas no Suplemento Literário da Folha do Norte em 1946 e 1951. Estreou com o livro O Estranho (1952), seguido, entre outros, pelos livros Anti-Retrato (1960), O Ovo Filosófico (1976), O Risco Subscrito (1980), 60/35(1985), e reunindo seu trabalho no volume Não para Consolar - poesia completa(1992).


2- Modo de USar.Co.
http://bit.ly/2G41wL2
Ricardo Domeneck



Max Martins nasceu em Belém do Pará, em 1926. Após os estudos de Literatura, passou a colaborar em revistas e suplementos, como a revista literária Encontro, publicando os primeiros poemas no Suplemento Literário da Folha do Norte em 1946 e 1951. Estreou com o livro O Estranho (1952), seguido, entre outros, pelos livros Anti-Retrato (1960), O Ovo Filosófico (1976), O Risco Subscrito (1980), 60/35(1985), e reunindo seu trabalho no volume Não para Consolar - poesia completa(1992).

Suas edições foram sempre muito pouco divulgadas em outras partes do país, ainda que fosse um dos poetas mais conhecidos em seu estado natal. A recuperação recente de poetas como Hilda Hilst e Roberto Piva preparava o terreno para a maior aceitação do trabalho de poetas como Martins, mas a maior divulgação jamais veio às suas paragens. Talvez seja mais uma vez o momento de questionarmos a influência geográfica sobre o tal de cânone, que alguns ainda acreditam ser incondicionado.

Foi traduzido e publicado em outros países, ainda que tenha seguido como "estranho no ninho" na historiografia literária nacional; na Alemanha, por exemplo, seus textos foram publicados no volume Der Ort Wohin, com prefácio de Benedito Nunes e tradução de Burkhard Sieber. Max Martins faleceu ontem em Belém do Pará.




§

POEMAS DE MAX MARTINS


Isto por aquilo


Impossível não te ofertar:
O rancor da idade na carga do poema
O rancor do motor numa garrafa

...........................................Ou isto

(por aquilo
que vibrava
dentro do peito)........o coração na boca
......................atrás do vidro........a cavidade
......................o cavo amor roendo
......................o seu motor-rancor
......................................................– ruídos

(do livro 60/35, Belém, 1985)


§

O caldeirão

Aos sessenta anos-sonhos de tua vida (portas
que se abrem e fecham
fecham e abrem
carcomidas)
.....................ferve

a gordura e as unhas das palavras
seu licor umbroso, teus remorsos-pêlos
.....................Ferve

e entorna o caldo, quebra o caldeirão
.....................e enterra
teu faisão de jade do futuro
teu mavioso osso do passado

Agora que a madeira e o fogo de novo se combinam
e o inimigo nº 1 já não te enxerga
.....................ou vai-se embora
varre a tua cabana e expõe ao sol tua língua
tua esperança tíbia
.............o tigre da Coréia da parede

É lícito tomar agora a concubina
E despentear na cama a lua escura, o ideograma


§


No lugar do medo

Todos os dias aqui tu te observas
E ainda está oculta (aqui) a tua semente

Comum será a tua raiz
.....................comum
ao olor da fêmea que atua no teu leito

Sê criativo o dia todo
Te empenha o dia todo cauteloso
..........................voa
mesmo hesitante sobre o teu malogro

Quer sigas o fogo, quer sigas a água
sê só do fogo ou só da água
(pois que não há caminho
e a lei
é o inesperado)

Ainda oculta (aqui) a tua semente
.....................está

§

de A Fala entre Parêntesis

Das florestas de Blake aos topos da Ásia
quem, da confusão entre chão e carne
com seu púbis, seu discurso e chamas, QUEM
DEFENDE TEU ROSTO DESTE SUDÁRIO INFERNAL?

Teu nome é Não em cio e som farpados
sinuoso grafito gravado no muro
mudo, contra o tempo Arfa
noturno, o olho do astro na memória

Este é o meu céu: numa bandeira turva
Incendeia seus últimos signos
Te insinua às sombras (que estão nos antros

e subsistem ao gráfico parêntesis:
Flechas ferindo-se no espelho. Reflexos
..............Dança indefinida


§

Num bar

Num bar abaixo do Equador às cinco da manhã escrevo
meu último poema..............................Arrisco-o
ao azar do sangue sobre a mesa......mapa
de crises....cicatrizes......moscas
...........................................Gravo-o
fala de mim demão e nódoa
nós e tábua deste barco-bar
........................................que arrumo e rimo:
........................................verso-trapézio osso
........................................troço de ser
........................................escada onde
..........................................................lunar oscilo
..........................................................solitário

quando
vieram uns anjos
de gravata e me disseram: Fora!

§

1926 / 1959

Já então é tudo pedra
os dias, os desenganos.
Rios secaram neste rosto, casca
de barro, areia causticante.
E onde outrora o mar
- os olhos - búzios esburacados.

E tudo é duro e seco e oco,
o sexo enlouquecido
0 osso agudo
coberto de pó e de silêncios.

Havia uma ferida, a primavera
que já não arde nem desfibra - seca
a flor amarela escura
anêmica impura
- rato no deserto

caveira de pássaro
exposta na planura

§

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