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quarta-feira, 28 de março de 2018

PALAVRA MUDA ... POESIA -

                       

Tive o prazer de ter  recebido  de Elton Luiz de Souza-UERJ, uma pequena resenha sobre minha obra-Palavra Muda.Deixou-me batendo assas, como passarinho molhado, saindo do riacho, feliz.Passo ao público as considerações dele, que bem traduziu meu corpo que escreve, balbucia e as circunstâncias nas quais escrevo e escrevi.A obra, em papel, está esgotada mas disponível  via Kindle.-https://amzn.to/2GRGfFN 


   PARA VENCER A SOZINHEZ
                                                                         ( por Elton Luiz Leite de Souza)

Segundo o poeta Manoel de Barros, poesia não é apenas verso e rima no papel, poesia é  empoemamento : horizontamento da alma. Cada poeta , quando é um poeta de fato, nos empoema inventando o sentido e o ser do que seja  poesia. 
“Palavra é sempre muda”, dizem, “quem fala é a boca”.  Mas Paulo nos ensina que a própria palavra pode ser muda, para assim expressar  o que não consegue dizer a mera boca  que apenas diz palavra.
Paulo inventa um devir-só repleto de esvaziamento de egos. Devir-só não é a mesma coisa que ser sozinho. Esse devir é o dizer de  quem expressa , das coisas mais comuns, o seu incomum único.
Paulo data alguns poemas ao modo de   acontecimentos de um diário. São poemas com registro de nascimento , dia e hora, dando a ver que poema é acontecimento unindo  o íntimo lírico ao   social e histórico.
O poeta é um “cristo pagão” que aceita sua solidão acompanhada de deuses, muitos deuses, os do dia e os da noite, sobretudo estes, e ainda mais alguns que carecem de nome, mas não de ser.
Solidão é o dão de quem se dá (“poesia é coisa de dão”, Manoel de Barros). Paulo escreve como quem se esvazia  para que nada resista à poesia que o preenche. Ele se desvencilha do gozo de uma  “sozinhez” narcísica, para assim narrar, não sem dor,  as solidões da singularidade ao mesmo tempo simples e refinada. Em seus versos há perceptos de paisagens sem homens, feitas  de mar , de peixes e desmesuras aquáticas; há montanhas e suas alturas, mas também há o tecido urbano, no qual o humano está à  procura de si mesmo.
Há um fio entre o verso e  nós. O fio não nasce de um ponto, ele nasce de um novelo que Paulo desdobra , esvaziando-se . Não é palavra o que ele nos dá, ele nos dá uma canção que espera o amor voltar para atenuar as dores dessa “difícil vida danada”,  que mesmo assim é celebrada , sem arrependimentos , sem culpa, com boa vodca.
Um “deus” com “d” minúsculo faz-se mais humano que o homem, ele aprende o desejo, a saudade, tem pai mortal e lê cordel. Assim, esse deus      não espera obediência, apenas que o vejamos    incorporando-se “natureza e tempo” , para assim também nos fazer gente, tempo, lua, saudade não nostálgica.
A palavra muda não é a que ausenta a palavra, a palavra muda é a conquista de um silêncio completo: diz tudo sem dizer nada, pois não o diz com o som, o diz apenas com o sentido artesanado.

          

Prosa é palavra que sai de uma boca ; poesia é palavra muda que o coração “assoletra” com


sua boca , a mesma do poeta. Há a mudez da boca que não mais diz palavra, restando muda. Porém


a mudez da palavra apenas se conquista quando o poeta se esvazia de si até ficar repleto de


poesia,para assim transbordar

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