terça-feira, 22 de maio de 2018

A norma culta que se lasque!


E apoi, eu estou com Marcos Bagno há tempo.Concordo inteiramente.A língua é viva no certo e errado, a língua tem chupamento de razões do dizer, mode a vida, madre o contexto que se vive.E mais, há muita coisa que se desconhece na língua, falamos um português  antigo e com influências luso-espânicas. GUIMARÃES ROSA, JOSE LINS ,JORGE AMADO E MUITO OUTROS dizem o seu romance a língua viva , afora a literatura oral e  outras produções do povão que não chega ao grande público,  então que se lasque mesmo.

Vejam abaixo a entrevista em:



Marcos Bagno -
https://bit.ly/2KxWxEu

Marcos Bagno: "Toda e qualquer maneira de falar vale ouro na luta contra o fascismo!".


Uma acusação recorrente que se faz aos linguistas, especialmente aos sociolinguistas (que estudam as relações entre linguagem e sociedade), é que eles defendem o “vale-tudo” linguístico: para nós não existiria “certo” nem “errado”, apenas “variantes”, ou seja, formas alternativas de dizer a mesma coisa (por exemplo, “assistir o filme”/“assistir ao filme”). 

Nós, pesquisadores, costumamos nos defender dessas acusações com argumentos muito bem elaborados, apoiados nas teorias que orientam nossas investigações e conclusões. No caso da sociolinguística, os conceitos mais importantes com os quais lidamos são os de “variação” e “mudança”. O lema da nossa bandeira é: “Toda língua varia no espaço e muda com o tempo”. 

O espaço em que a língua varia é o espaço geográfico propriamente dito (pessoas de regiões diferentes falam de modo diferente), mas também o espaço social (pessoas de classes sociais diferentes falam de modo diferente). A mudança se processa no correr do tempo: o latim laxaremudou primeiro em leixar e depois em deixar. E, claro, a mudança não parou aí, porque deixar enfrenta hoje a concorrência de dexá, uma forma já plenamente vitoriosa na fala de todas as pessoas, sobretudo em situação informal, embora a ortografia provavelmente não venha a acompanhar a mudança na pronúncia, pois já deixou de fazer isso há muito tempo.

O que costumamos oferecer em defesa das nossas propostas de “reforma” da norma-padrão tradicional é o seguinte: quando uma forma inovadora (um "erro" na avaliação de senso comum) já alcançou a fala/escrita mais cuidada dos falantes urbanos mais letrados é porque essa inovação já se enraizou plenamente na língua de todas as pessoas, independentemente da classe social. Isso porque as inovações surgem, em geral, na fala mais espontânea das camadas médias-baixas da população. Aos poucos elas vão, como digo brincando, "subindo na vida", isto é, vão sendo incorporadas à atividade linguística das camadas superiores até que chegam ao topo da pirâmide, onde deixam de ser vistas como "erros".

Esse é um dos aspectos mais estudados na sociolinguística: a avaliação social da mudança linguística. Desse modo, muitas coisas que a tradição normativa condena como "erro" já estão plenamente incorporadas na atividade linguística de todos os falantes, incluindo os urbanos mais letrados. Nossa proposição, portanto, é do convívio dessas formas novas com as antigas: quem quiser continuar usando "assistir a X" que fique à vontade, mas não condene ninguém por usar "assistir X". 

Por outro lado (tudo isso é muito complexo, evidentemente), existem determinados usos linguísticos provenientes das camadas mais baixas da hierarquia social que jamais ultrapassam a barreira das classes, que nunca "sobem na vida". São principalmente realizações fonéticas, com destaque para "grobo", "pranta" etc. e "trabaiá", "muié" etc., ao lado de aspectos gramaticais, com destaque para a simplificação da morfologia verbal (nós fala, vocês fala, eles fala etc.).

Na sociolinguística falamos de "traços graduais" (formas que são empregadas por todos os falantes, variando apenas na frequência dos usos) e "traços descontínuos" (aqueles usos que não avançam na hierarquia social). É claro que, com o passar do tempo, essas avaliações vão mudando, e um bom exemplo é o "pra mim fazer" que comparece cada vez mais na fala de pessoas altamente letradas (cada vez mais encontro essa construção no uso de médicos, engenheiros, arquitetos, advogados e até de professores de português): assim, essa construção tem toda a chance de, daqui a 50 ou 100 anos, ser considerada correta ou mesmo a única correta.

O que eu e outras pessoas temos dito nas últimas décadas é que já passou da hora de aceitar sem mais reservas essas inovações linguísticas que constituem os “traços graduais” que descrevi acima. Por que censurar uma forma como “deixa eu entrar”, se ela é empregada por todas as pessoas no Brasil, do Caburaí ao Chuí? (Em tempo: se você acha que o Oiapoque é o ponto extremo norte do Brasil, revise sua geografia!)

Ora, pois muito bem. Uma leitora muito atenta, Ivete Santos, me escreveu há pouco para fazer uma pergunta daquelas que põem a gente contra a parede. Ela questiona se esse projeto de incorporar no padrão aquilo que já é plenamente aceito pelas camadas urbanas letradas não seria uma nova forma de elitismo, uma vez que desconsidera os usos das outras camadas sociais, infinitamente mais numerosas?

Para meu alívio, a resposta já foi dada por ninguém menos do que Carlos Alberto Faraco, um dos linguistas mais lúcidos que temos entre nós. Em texto de 2011, contido no livro Políticas da norma e conflitos linguísticos (Editora Parábola), ele escreve sem rodeios: “Nosso raciocínio de linguistas é, como se pode ver, muito sóbrio, muito ponderado, muito bem empiricamente informado e, digamos com todas as letras, conservador”.

Para muitos sociolinguistas, ser chamado de “conservador” é mais que um tapa na cara, é um soco no estômago. Mas Faraco tem toda a razão, porque, no fundo, ao querermos defender uma “norma culta” que inclua os usos já enraizados na atividade linguística das camadas urbanas letradas, o que estamos fazendo é aceitar “a hierarquização social das normas como ela está dada”, conforme ele escreve.

Ou seja: dizer “deixa eu entrar” não tem problema, é “norma culta” porque os falantes “cultos” empregam essa construção. Mas dizer “as pessoa só qué trabaiá em paz” não deve ser aceito, porque “sofre rejeição”. Sim, cara-pálida, mas rejeição de quem? Muita gente diria: sofre rejeição “da sociedade”. Mas desde quando a sociedade é um todo homogêneo, um bloco compacto? Essas formas sofrem rejeição de uma parcela da sociedade, isso sim, precisamente a parcela, ínfima, que ocupa as posições mais altas da pirâmide socieconômica, que tem acesso à boa escolarização e aos direitos da cidadania. Segundo Jessé Souza, essa parcela não chegaria a 20 por cento da população total. Faz aí as contas.

Já escrevi muito sobre essa necessidade de “reformar” o padrão de acordo com os usos das camadas urbanas letradas. Hoje estou revendo essa postura e radicalizando ideologicamente meu pensamento a esse respeito. Já sabemos que as “reformas” que não implicaram nenhum tipo de ruptura com a ordem social secularmente estabelecida acabaram nos jogando nesse abismo trágico, nesse pesadelo monstruoso que é o Brasil neste exato momento. A conciliação, o entregar os anéis para salvar os dedos, o se satisfazer com as migalhas do banquete, não permitiu nem vai permitir nunca acabar com o horror social que é ter um jovem negro assassinado a cada 27 minutos, uma mulher assassinada a cada hora e meia, que é ocupar uma liderança mundial no assassinato de LGBTs e de militantes ambientalistas, que é ter um total de 60.000 pessoas assassinadas por ano, mais que o número de civis mortos na guerra da Síria. E esse terrorismo de Estado só tende a se acentuar se a máfia que assaltou o poder permanecer nele.

Temos visto nos últimos tempos a luta e as conquistas arduamente obtidas pelas mulheres, pelas pessoas negras, pelas pessoas que vivem nas periferias pobres e violentas das cidades, pelas pessoas que se opõem à heteronormatividade sexual. Temos presenciado o crescimento de movimentos sociais poderosos como os dos trabalhadores sem terra e sem teto. Toda essa gente representa a imensíssima maioria da população brasileira. E sua visibilidade crescente, sua conquista de espaço e de voz não pode se expressar a não ser nos modos de falar que são as delas e os deles, que constituem seus corpos sociais naquilo que eles são, modos de falar que são o elemento mais importante na construção incessante de suas identidades. Se recusar a “adequar” sua linguagem ao que uma parcela da sociedade exige e espera é mais uma frente de batalha na guerra pela liberdade de existir, pela ocupação dos lugares sociais que são delas e deles de direito e que sempre lhes têm sido negados.

A norma culta que se lasque, que se dane, que se esboroe!A norma culta que vá ralar o cu nas ostras! Saber falar o “bom português” nunca permitiu a ascensão social de ninguém, ao contrário do que prega a propaganda enganosa da pequena, pequeníssima burguesia. A mulher negra pode ter absoluto domínio do “padrão culto”, mas já encontra muitas portas fechadas por ser mulher e negra. Então que jogue esse padrão, esse patrão no lixo e parta para a luta com as palavras que são dela!

A partir de hoje, quando me chamarem de defensor do vale-tudo vou dizer que sim, defendo o vale-tudo na língua. Se a elite reacionária, escravocrata e genocida se vale de tudo o que tem para não ceder um milímetro de sua riqueza obscena, e isso inclui evidentemente sua forma de usar a língua, ao lado dos golpes de Estado, das arbitrariedades judiciais e do uso explícito das armas de fogo contra o povo e seus verdadeiros representantes, não tem por que exigir dos oprimidos nenhum tipo de adequação, muito menos linguística.
Toda e qualquer maneira de falar vale ouro na luta contra o fascismo!

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