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sábado, 14 de setembro de 2019

“Bacurau: VOCÊ QUE NÃO ENTENDEU ,NÃO PERDE POR ESPERAR







Após  um tempo - ver o filme Bacurau, respiro e falo.
Li muitas críticas, mas nada como ver a película.
É estonteante. É um estudo antropológico, sociológico com vieses geopolíticos que se aplica a  toda América Latina- 
Sinto menções metaforizadas  ao Brasil e Venezuela  entre outros.
Há uma aula de cinema com demandas Semiológicas intensas!
As críticas que li não se remetem as duas músicas que abrem e medeiam o filme  e que me estremeceram.Ao ver o filme saberão:

1- Objeto não identificado de Gal de Caetano Veloso

Eu vou fazer uma canção prá ela
Uma canção singela, brasileira
Para lançar depois do carnaval
Eu vou fazer um iê-iê-iê romântico
Um anticomputador sentimental
Eu vou fazer uma canção de amor
Para gravar num disco voador
Uma canção dizendo tudo a ela
Que ainda estou sozinho, apaixonado
Para lançar no espaço sideral
Minha paixão há de brilhar na noite
No céu de uma cidade do interior
Como um objeto não identificado
Como um objeto não identificado
E ainda estou sozinho e apaixonado

2- A Outra :Requiem para Matraga - Geraldo Vandré.

Vim aqui só pra dizer
Ninguém há de me calar
Se alguém tem que morrer
Que seja pra melhorar
Tanta vida pra viver
Tanta vida a se acabar
Com tanto pra se fazer
Com tanto pra se salvar
Você que não me entendeu
Não perde por esperar
Ao ver o filme fiquem atentos a integração da música ao todo da obra.
Para integrar o roteiro musical só mesmo a dupla Mendonça e Dornelles. Afora isto a platéia pouco conhece as obras e seu contexto em que foram lançadas, especialmente a de Vandré.
É emocionante e levou-me aos prantos, sou da época da ditadura.
O filme é uma teia de signagem,  roteiro,planos imagens cores, cortes etc
Realmente há que ser ver várias vezes, há muitas entrelinhas e nelas as metáforas.
A película é uma aula, uma sátira, metáfora pesada ao Brasil de hoje e seu golpe contra os subordinados.
O elenco é de primeira, Sonia Braga mistura-se aos anônimos da cidade, como uma médica.Fica tudo coeso.-Vejam vídeo que editei no Festival de Gramado e sua fala, ela sempre fantástica.
A obra ficará para sempre como marco da cinematografia Brasileira.
Destacarei aqui duas críticas- trechos que  resumem meus comentários.


1-Átila Moreno por Crítica: Bacurau é aula atemporal de cinema e política...  Uol
"
"Bacurau" chega a ser magnífico por reproduzir inúmeras camadas sociais para concluir uma resposta, bebendo em várias fontes, num mergulho visual, frenético e estarrecedor. É o faroeste vingativo de Quentin Tarantino, é a ficção científica ácida de Stanley Kubrick, é o realismo fantástico de Steve Spilberg, é a narrativa sincopada de Akira Kurosawa. É o "Encouraçado Potemkin", de Serguei Eiseinstein. É "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha. É Kleber Mendonça Filho mostrando ao mundo os horrores de um futuro não muito distante, abrindo largada para uma ponta de esperança e luta. Uma aula de cinema e política atemporal.... - Veja mais em http://bit.ly/2kjzohN

2-A segunda   “Bacurau: um facão só lâmina” – Por Fabiano Calixto por Fabiano Calixto*

BACURAU http://bit.ly/2kj5pXg



§          “– Um pássaro… Um pássaro brabo”. Bacurau, 2019
§         Assistir ao poderoso Bacurau (2019), filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi para mim uma experiência muito impactante. Transformadora. O filme é uma declaração de amor aos nordestinos, aos pobres, à minha gente, enfim.
§         Bacurau tem gerado intenso debate, o que é ótimo. Sinal que seu impacto cultural é profundo. O que enriquece a conversa e é bom para todo mundo (que quer conversar, claro) – ainda mais nestes tempos absolutamente policialescos e sombrios, onde a censura ao pensamento e às artes já é um fato (além do extremo aburguesamento de grande parte do pensamento de resistência). Público e crítica reagindo de maneira intensa. Fazia tempo que um filme não trazia esse tipo de excitação – e precisamos dessa excitação, dessa energia, desse entusiasmo mais do que nunca. Entusiasmo é bomba de saúde e saúde é tudo aquilo que uma sociedade burguesa, doente e fascista detesta.
§         Há leituras delirantes, há leituras claramente aparatadas por má fé ideológica ou por pura burrice de uma elite que começa a ter medo do monstro que está criando. E deve ter mesmo. A chapa vai esquentar.
§         Quem senta, confortável, rosado e bem alimentado frente a seu Mac para escrever resenhas cimentadas em falsas equivalências (como a escrita na Folha de S. Paulo por um conhecido membro do conselho editorial do jornal, onde se fala de um “bolsonarismo às avessas” – ora, faça-me o favor!) está simplesmente argumentando com ideias paralelas às do personagem Michael, interpretado por Udo Kier, a violência pasma com a violência: “So much violence…”.
§         O texto de Eduardo Escorel, na Piauí, é constrangedor, burro e tem um lado: o dos poderosos. Típico texto bunda-mole falando de um objeto corajoso e, sim, perigoso. “Em resumo, Bacurau acaba se tornando um filme exótico feito para inglês ver”, repetindo clichê centenário, o senhor da revistinha rica não entendeu absolutamente nada. Ponto para Bacurau.
§         Quer dizer, uma classe que opera o tempo todo pela lógica da violência, do roubo, da injustiça achando “muito violenta” uma realidade BRUTALMENTE violenta como a brasileira – onde, inclusive, a participação da classe média é central para a manutenção da desgraceira toda.
§         O povo (essa entidade abstrata que ninguém sabe ao certo o que é) só é legal e importante enquanto for folclórico, matuto, manso e servil, qualquer outra configuração, aí já é preciso chamar o Estado para dar um jeito. Conhecemos bem essa história.
§         De qualquer modo, um povo oprimido e fodido jamais pode (em NENHUMA circunstância) ser equiparado ao bolsonarismo (elite financeira, branca, racista, heterossexual, cristã, proprietária, violenta, negacionista, nacionalista). Quando chega nesse ponto, aí não tem mais condições de conversar.
§         E quando não dá mais pra conversar: Bacurau!
§         O povo de Bacurau é complexo. Como é complexo o Brasil profundo.
§         É uma comunidade que opera ética antifascista (inclusiva, não exclusiva; para todos, não para alguns), uma política da comunhão entre os seus, entre os de sua (nossa) laia.
§         Essa laia que terá que estar atenta e forte, ser criativa e, sim, violenta e energética para combater essa elite nojenta, parar esses malditos dinheirólatras, esses zumbis monetários, esses engravatados patrocinadores de morte, exclusão, medo e destruição.
§         Não se iludam, o mundo realmente se tornou pequeno demais. (A elite zumbi-monetária não está se preparando para um apocalipse ecológico à toa). Eles sabem muito bem o que fazer, porque sabem que a chapa está esquentando.
§         A resposta violenta é uma negação da submissão. É contra o terror. É legítima defesa.
§         O ódio e a fúria são potências positivas em situações de opressão. São gritos de quem não suporta mais tanta humilhação. Revolta.
§         Só sabe quem sente.
§         “Bolsonarismo às avessas”, faça-me o favor! Como diz um dos textos mais finos e inteligentes sobre nossa conjuntura política atual (“A decisão fascista e o mito da regressão: o Brasil à luz do mundo e vice-versa”, de Felipe Catalani, 2019): “Como se o ódio e a fúria fossem, em si, algo potencialmente fascista; como se diante do acúmulo intolerável de sofrimento social e de humilhação todos devessem manter os bons modos da civilização liberal; como se a realidade não fosse suficientemente odiosa”.
§         “A paz não brota no jardim com câmeras e sensores / Bem-vindo ao espetáculo do circo dos horrores!”. (Evoé, Facção Central!).
§         Dar a outra face é o caralho!
§         Citação: “Pelo que conheço da doutrina da Igreja, ela não descarta, em última instância, o direito de os oprimidos se defenderem, com armas, da opressão estrutural que os esmaga. Leia O Regime dos Príncipes, de São Tomás de Aquino, e a encíclica Populorum Progressio, do Papa Paulo VI”. Frei Betto sendo interrogado pela ditadura militar brasileira, relato constante de seu essencial Batismo de sangue: guerrilha e morte de Carlos Marighella (1982).
§         Lembremos, ainda, de Luiz Gama, o grande poeta romântico brasileiro, ex-escravo, advogado e ativista político da causa negra. Gama declarou, durante o julgamento de um negro escravo acusado de matar seu senhor, que o “escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa” (Cf. AZEVEDO, Celia Maria Marinho. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. pp.192-193). A legítima defesa, como ato justificável, figurava no código penal de 1830, porém, o estatuto da escravidão ainda tratava os escravos como “bens que se movem”, desprovidos de qualquer direito ou humanidade. (Saravá, Luiz Gama!).
§         Por outro lado, há leituras inteligentes e vigorosas, que procuram dar um check-up geral na situação a partir da potência e da explosão de ideias que é Bacurau. Crítica luminosa que, nem é preciso dizer, em tempos de trevas é essencial para clarear as ideias, abrir caminhos. Meus dois dedos de prosa sobre o filme são impressões, ecos daquilo que do filme ainda ressoa em mim. Ocupação de espaço. Uma conversa.
§         Bacurau é um tsunami de potentes metáforas políticas. (O sertão virou mar – não à toa, aquela inesperada mandíbula de tubarão na árida caatinga sertaneja). Essas metáforas políticas se dão em duas dimensões muito claras: o complexo sertão nordestino brasileiro (um Brasil profundo, desconhecido da intelligentsia nacional) e suas relações com o poder do capital (um Brasil canalha, vendido, vira-lata, onde a figura política do prefeito e dos coloridos motoqueiros brasileiros “do sul do país” são exemplares). Obviamente isso passa pela crítica ao imperialismo, ao colonialismo, é uma das expressões mais imediatas do trabalho, detectável de imediato. Segue o baile.
§         O filme é uma conversa, está o tempo todo falando com o espectador. E vai continuar falando por bastante tempo. É assim com as grandes obras de arte. (Saúde, Godard!).
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