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segunda-feira, 19 de abril de 2021

O que a mídia esconde quando fala “O agro é pop” OUTRAS PALAVRAS

 


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Muito boa matéria de Outras Palavras por Telma D. da Silva,vale ler , difundir  e colaborar com OUTRAS PALAVRAS


Na longa série de propagandas e “reportagens” exibidas pela Globo, um truque. Disparam-se dados fora de contexto, para exaltar setor que devasta natureza e aprofunda desigualdades. Riquezas do Brasil não são para, ao menos, matar a fome?
OUTRASPALAVRAS

Publicado 14/04/2021 às 18:29





Em 2020 e agora em 2021, anos em que vivemos a pandemia, e com ela a pior crise econômica e humanitária a nível planetário, nós no Brasil presenciamos sucessivas safras recordes de grãos. O feito é noticiado, ou, mais do que isso, alardeado, comemorado, exibido como um troféu. E os números, impressionantes, estão ainda em crescimento: “A safra nacional de grãos deve atingir mais um recorde, o terceiro consecutivo, neste ano, com 260,5 milhões de toneladas, um crescimento de 2,5% em relação a 2020”. Importante seria alardear, junto a esses números, outros: qual o montante da fortuna arrecadada com as exportações de grãos, dado o câmbio atual? quantos brasileiros se beneficiam dessa fortuna?

Mas parece não haver nessa falta nenhum incômodo, basta aos brasileiros ter notícia dessa “nossa riqueza”.

A propaganda do agronegócio, de uma campanha já antiga, de 2017, circulou fortemente na Rede Globo no ano passado e início deste: “Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é tudo”. Sim, é uma propaganda, mas é de responsabilidade de uma determinada empresa jornalística, que, em sua difusão por todo o imenso território, denota de maneira flagrante esse traço subdesenvolvido e antidemocrático de nossa Comunicação. A campanha intitula-se “Agro: a Indústria-Riqueza do Brasil”, numa significação que afirma sem rodeios a agricultura como uma indústria, aliás a mais rica – e isso é mesmo certo, depois do desmonte da indústria brasileira que a Lava-Jato promoveu, atingindo diversos setores industriais.

De acordo com Roberto Schmidt (diretor de marketing da TV Globo), o objetivo da iniciativa é conectar o consumidor com o produtor rural e ao mesmo tempo desmistificar a produção agrícola aos olhos da sociedade urbana – dado o conjunto da obra, “desmistificar” deveria ser mostrar a agricultura não só como uma indústria, mas como uma indústria moderna, confrontando um imaginário de rural como não-tecnológico, atrasado. “Queremos mostrar que a riqueza gerada pelo agronegócio movimenta os outros setores da economia”, salientou, acrescentando que: “a ideia é fazer com que o brasileiro tenha orgulho do agro”.

Não tenho dúvidas: a ideia é fazer com que o brasileiro tenha orgulho de algo que seria “do Brasil”, porém, algo do qual ele não necessariamente se beneficia, pelo menos de maneira direta ou efetiva. Assim, cabe perguntar: e o orgulho do brasileiro em relação às universidades, à ciência, ao SUS, por exemplo? Há em curso processos de destruição e/ou de deterioração, que atingem tudo o que pode tirar da miséria o brasileiro. E o que sabe disso o brasileiro que deve ter orgulho da indústria-riqueza?

A destruição atinge os direitos trabalhistas, aprofundando a direção neoliberal no atual governo. Atinge o direito à terra, no percurso mesmo dos incêndios e invasões ilegais em terras da União, no cerne da guerra política, econômica, cultural uma vez posta no “meio ambiente” e nunca cessada. E atinge o Sistema de Saúde e a educação básica, para ficar nos serviços públicos mais fundamentais. Se a pandemia, como dizem, afeta “desigualmente” o brasileiro, afeta diretamente o trabalhador assalariado ou informal, o microempresário, aqueles que mais dependem não só do “livre comércio”, mas também de todo um sistema público, hoje estressado, sucateado ou desmoronando. Portanto, cresce hoje absurdamente a população refém dos auxílios – o mínimo de um mínimo a um espetacular número de brasileiros. Mas a pandemia não é ela mesma a responsável direta por esse crescimento da miséria no país, senão o próprio contexto histórico-político, coroado pelas piores decisões no seu enfrentamento.

O que dizer de um governo que, na crise sanitária que se instalou com a pandemia, troca um ministro da Saúde médico, e outro em seguida, instalando um general que assume que não entende nada do SUS? O que se disse a respeito na mídia foi muito, muito pouco. Muito mais poderia ser dito a respeito da decisão do governo de deixar o vírus correr solto.

Embora o SUS no momento esteja muito presente nas pautas televisivas e esteja sendo referido por comentaristas como exemplo mundial de sistema público de Saúde, parece-me que falta à população informação com relação ao que existe de fato para que esse funcionamento se dê, em termos de uma estrutura pública de Educação superior, Ciência e Saúde — estruturas que são visadas como possíveis terrenos de encampação pelo setor privado. Então: propagandeia-se um orgulho pela safra recorde e os profissionais de saúde, entre outros funcionários públicos, devem ter seus salários congelados. E os profissionais da saúde e da educação do sistema público são ainda e de novo exaltados enquanto heróis, em seu sacrifício diário – perversa ladainha das mais antigas nesse país.

O SUS faz parte de uma política por meio da qual uma atenção mínima à população deu-se a partir de uma estrutura que não é pequena nem simples, nem pode ser simplificada, pois demanda de diversas áreas e demandou de fato uma série de ações e incentivos díspares, que inclui a estruturação e provisionamento, não no ideal, certamente, do Sistema Único de Saúde para atingir, nesse território gigante, o maior número possível de cidadãos – mas passa também pela pesquisa populacional (IBGE) e pelo sistema de monitoramento ambiental do território da União (INPE), ambos atacados/desmontados pelo governo federal atualmente.

E ainda pela legislação ambiental, que foi investida nesses últimos anos e é das mais atualizadas frente ao contexto internacional. Com ela, assegura-se o direito à terra para populações que vivem de forma coletiva, por exemplo em regime de extração sustentável. A legislação ambiental, como sabemos, tem sido escancaradamente inoperada (com o desmonte do IBAMA e ICMBio, o perdão de multas, a regularização fundiária). Falta dizer que essa inoperância hoje da legislação ambiental no Brasil se dá na direção do melhor aproveitamento do capital, desse mundo financeiro que reproduz o dinheiro à custa de vidas, da fome, de vidas miseráveis ou perdidas ou iludidas.

Ocorre que, no momento mesmo da safra recorde, a estrutura mínima de proteção à população desse país, gigantesco, tem sido minada, tem sido golpeada, escasseada, arrasada. O processo de destruição em curso foi visível em sua gritante imagem nos inumeráveis incêndios florestais ocorridos no país, criminosos, em que vislumbramos novamente, e sempre, um território rendido aos interesses pífios de uma elite – mesmo que aparentemente sejam os chamados grileiros a fazer o trabalho sujo da expansão agrícola. Além de uma mineração primitiva e selvagem, que persiste na maior parte das vezes pela ilegalidade, também os grandes negócios na agricultura têm na sua constituição as sucessivas “legalizações” de terras que foram barganhadas, tomadas, ao destituíram delas ou mesmo ou matar indígenas e caboclos, por exemplo – as “regularizações fundiárias”.

O “auxílio emergencial” é minguado e descontínuo e os outros auxílios vão se escasseando ou talvez tornados um luxo, entre a parcela “mais afetada”, ou seja, entre aqueles sujeitos que nada têm diante de um Estado que deve ter – exigência do mercado, que tudo comanda – cada vez menos a oferecer a eles.

O Estado, que se quer sempre cada vez mais mínimo, atuava minimamente na proteção da população, graças a uma política nesse sentido que buscou atender no básico a uma população enorme que se espalha nesse território gigantesco, com suas especificidades regionais – os brasileiros, não?

Tais questões passam pelos noticiários da imprensa tradicional, mas os “fatos noticiados” na grande mídia não são destrinchados em uma perspectiva crítica que os correlacione, e o que resta é a repetição de determinadas “conclusões” como: a pandemia afeta de modo desigual a população, o presidente deve ser afastado da gestão da pandemia, os remédios tal, tal, tal “não tem eficácia comprovada”. Aliás, intrigante essa construção: dizer que “não tem eficácia comprovada” deixa uma margem de possibilidade, um “pode-se ainda comprovar”. Melhor seria dizer que comprovadamente não tem eficácia nenhuma contra a covid.

Hoje, na cobertura da imprensa – falo em especial da televisiva –, chama atenção a produção de uma imagem crítica ao governo, à custa de observações sobre a sua inoperância na pandemia. As “conclusões” ocupam na emissão jornalística o lugar dos seus silêncios sobre a cena política. Depois, a pesquisa de opinião pública colhe os frutos, bem como as eleições. Portanto, tal circulação de “conclusões” – digo conclusões tal o efeito sintético quanto aos fatos-alvo das notícias – tampona uma crítica mais efetiva, funcionando na sustentação de um silêncio, por exemplo, quanto à relação entre a produção de grãos, o desmonte do que é público e a fome.

É lado a lado ao desmonte do que é público, de tudo aquilo que pode beneficiar a população, que as safras de grãos assumem sucessivos recordes, enriquecendo um produtor que, em sua maioria, produz em grandes propriedades, remontando ao histórico da grande plantação, o latifúndio, contando sempre com o financiamento público de seus investimentos e, quanto ao exportador, contando ainda com a isenção de impostos. Como pedir que tenhamos orgulho dessa produção tutelada pelo Estado, nesse Estado que não deve mais dar o mínimo ao brasileiro?

Não se identifica nas imagens da campanha “Agro é tech” uma entidade que a estaria promovendo, o que coloca a Rede Globo como autora responsável. Porém, nesse falar de uma aparente “agricultura generalizada”, justamente, não é difícil identificar sobre qual produtor rural está se falando: é sim o produtor rural das safras recordes, o produtor do agrobusiness, é o sujeito que produz commodities, ou seja, um “agricultor” entre aspas pois o que produz não é alimento, e sim mercadoria (dinheiro, capital). Daí que não haja espanto algum que as safras recordes se deem no país que entra nesse momento numa situação de fome calamitosa.

Ao mesmo tempo em que propagandeia o agronegócio, a emissora mostra em suas reportagens um governo ineficiente, nocivo, genocida, um ministro do meio ambiente vendido. Bolsonaro esbraveja com os jornalistas, com destaque à Globo, e a imagem de um jornalismo crítico se produzindo parece colar. No quadro de uma crítica ao desastre que se instalou no país, sobretudo após as últimas eleições federais, falam ministros do STF, fala o líder da Câmara dos deputados, mostram-se cartas de repúdio, que se somam, junto aos pedidos de impeachment. E comentaristas avaliam que o governo perde apoio, por isso, isso e isso.

Tendo tudo sido exposto na televisão, a crítica parece estar sendo feita, considerando esse papel de enorme responsabilidade da imprensa: a opinião pública não é algo que está presente na população, de antemão, a qual a mídia detecta com a pesquisa, mas algo que a própria mídia produz ao produzir indignação ou produzir orgulho, ou manter silêncio.

Seria o caso de compreender o silencio naquilo que é dito na emissão jornalística. Com relação ao agronegócio, uma reportagem no dia 24 de fevereiro de 2021 no Jornal Nacional fala em 13 mil empregos gerados pela soja, sem nenhum elemento crítico que possa colocar uma tensão no dado numérico e seu “efeito informativo”. Seria preciso, se se trata de um jornalismo mínimo, relembrar ao telespectador o caráter ínfimo desse dado. Para começar, não são empregos, mas “bicos”: os postos de emprego noticiados pela reportagem duram o tempo da colheita. Para terminar, o que são 13 mil postos de emprego numa economia que rendeu os milhões de sacas que a soja propagandeia? Para se ter uma ideia do absurdo de se propagandear esses 13 mil postos de emprego, na agricultura familiar – a atividade agrícola que de fato nos sustenta, nos alimenta – são 10 milhões de postos.i

Quanto à promoção do agronegócio como indústria-riqueza do Brasil, o mais importante é não só olhar para o incremento dessa produção agrícola enquanto produção de mercadoria, que enriquece meia dúzia e encarece a oferta do alimento no mercado interno. Mas principalmente considerar como isso está em oposição flagrante a outras políticas como a política de fortalecimento da agricultura familiar e/ou da agricultura orgânica; bem como à política das áreas protegidas enquanto terras da União, que dá possibilidade de existência a outras culturas, em suas formas de se relacionar com a terra, diversas sobretudo daquela voltada unicamente para o rendimento monetário, que ignora a alimentação da população e que esgota a terra. Temos alguns trabalhadores do campo, algumas populações tradicionais que resistem produzindo alimentos, muitas vezes orgânicos, alguns destes derivando do movimento MST criminalizado pela Rede Globo.

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segunda-feira, 12 de abril de 2021

As aventuras belicosas de um império caduco

 


Vestido de beduíno, príncipe Charles percorre as monarquias árabes como garoto-propaganda das empresas britânicas de armamento

Vale,vale,sim, vale ler e pensar por OUTRAS PALAVRAS...https://bit.ly/3wywplN

GEOPOLÍTICA & GUERRA

Publicado 05/04/2021 às 19:13 - Atualizado 05/04/2021 às


Inconsciente de sua pequenez, o Reino Unido espalha conflitos insólitos – da conspiração para o golpe na Bolívia a planos anti-Rússia. Tem o amparo de sua ex-colônia, os EUA. Decadente mas perverso, mostra que é grave não saber envelhecer

Por Eduardo J. Vior, em InfoBaires24 | Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

A relação entre a elite dirigente dos Estados Unidos e sua homóloga da Grã-Bretanha se parece à desses homens que, mesmo crescidos, não conseguem se tornar independentes de suas mães já velhotas e senis, mas dominadoras, tanto quanto dominadas por delírios de grandeza. Na inconsciência da sua debilidade, elas se metem vez por outra em aventuras arriscadas, buscando perversamente arrastar seus filhos ao seu socorro, como prova de amor incondicional.

Já estão longe os tempos do Empire. Durante 45 anos, a Grã-Bretanha foi bem acolhida na União Europeia, mas o círculo áulico que rodeia e se entrelaça com a família real se cansou de pelejar com a hegemonia franco-alemã e sonha em recuperar a grandeza perdida. Por isso, instrumentalizou e manipulou seu povo até conquistar o Brexit. Agora, essa gente anseia por navegar de novo, triunfante, por pelo menos quatro dos sete mares que antes tinham por hábito assolar. O Ministério da Defesa do Reino Unido (UKDM) publicou na segunda-feira da semana passada seu relatório sobre “Defesa em uma era competitiva”, que dá continuidade às formulações do “Livro Branco de Defesa”, dado a conhecer há quinze dias.

Naquele sábado, 20 de março, o mesmo Ministério informou sobre a formação de uma força-tarefa, para combater “o terrorismo russo”. Isso aconteceu poucos dias depois de vir a público o informe do site DeclassifiedUK.com sobre a intervenção britânica no golpe de Estado da Bolívia, em novembro de 2019, e um mês após a mesma organização não-governamental denunciar o papel do príncipe Charles como traficante de armas para as sanguinárias monarquias da Península Arábica. A velha senhora se dispõe a muito, ninguém sabe com que meios, mas, sim, é certo que, se algo lhe sai mal, seu filho mais velho do outro lado do Atlântico vai ter que ampará-la.

Na estratégia de modernização das Forças Armadas britânicas que veio a público na segunda seguinte, 22 de março, o governo qualificou a Rússia como “a maior ameaça nuclear e militar convencional” para a segurança europeia e expressou seu desejo de que tal modernização propicie a Londres a oportunidade para intensificar sua presença no Ártico, tanto quanto nos mares Negro e Báltico. “A modernização das forças armadas russas, a capacidade de integrar toda a atividade do Estado e um maior apetite pelo risco tornaram a Rússia um ator capaz e imprevisível” se lê no item 1.4 do documento intitulado Defence in a competitive age (“Defesa em uma era competitiva”).

Como resposta, propõe que “grandes investimentos em uma nova geração de fragatas de guerra antissubmarina e um enfoque na interoperabilidade profunda com aliados como Estados Unidos, França, Noruega e Holanda permitam ao Reino Unido conservar seu papel histórico (…) para garantir nossa liberdade de operar no Atlântico Norte e reforçar os aliados europeus”. Nesse sentido, Londres tem intenção de fortalecer os laços com Ucrânia, Grécia, Turquia, Bulgária e Romênia, para “garantir a liberdade de navegação e segurança” no Mar Negro. Do mesmo modo, planeja aumentar sua presença militar na África, tanto quanto nos oceanos Índico e Pacífico.

Simultaneamente, em consonância com essa nova/velha ideia, no sábado, 20 de março, o general Sir Mark Carleton-Smith, chefe do Estado-Maior do Exército, anunciou a constituição de uma nova força operativa conjunta que reunirá as forças especiais do Exército (SAS) e o Serviço Secreto de Inteligência (SIS, mais conhecido como MI6), para “combater as intervenções russas em todo o mundo”. Note-se bem: Russas! Ao mesmo tempo o Exército planeja constituir uma nova Brigada de Operações Especiais para atuar nas áreas de “grande ameaça” em ultramar pelo custo módico de 120 milhões de libras (165 milhões de dólares). Num diálogo com o Daily Telegraph o alto chefe militar informou que a nova Brigada vai intervir “em áreas inimigas e de grande ameaça, juntamente com aliados regulares e irregulares, formais e informais”, ou seja, com mercenários e terroristas.

A notícia foi dada a conhecer pouco antes que o Ministério publicasse aquele documento do Comando da Defesa, como parte da revisão integral da política exterior, de defesa, segurança e desenvolvimento. Espera-se que o Exército receba um adicional de três bilhões de libras esterlinas (4,13 bilhões de dólares) no orçamento público, ainda que sejam também anunciados cortes significativos. O governo propõe remodelar o Exército para adaptá-lo às modalidades de guerra do século XXI, com menos infantaria e mais operações especiais.

Esses anúncios, na realidade, apenas oficializam ações já em curso. No último dia 8 de março, por exemplo, o historiador Mark Curtis e o jornalista Matt Kennard demonstraram, em um relatório sobre a derrubada de Evo ‎Morales, publicado no site Declassified UK (sediado na África do Sul desde que se tornou alvo da censura militar britânica), de que forma aquele golpe de Estado foi executado por ordem do Foreign Office [equivalente ao Ministério das Relações Exteriores] e de alguns departamentos ‎da CIA norte-americana, sem passar pela administração Trump. A participação britânica no golpe tinha como objetivo se apropriar do lítio boliviano, e foi urdida fazendo uso da conexão que os britânicos mantêm desde os tempos da Guerra Fria com a minoria croata de Santa Cruz de la Sierra, descendente direta dos ustacha nazistas que, após a Segunda Guerra Mundial, foram realocados no Oriente boliviano.

Mark Curtis e Matthew Kennard notam no seu relatório que os Estados Unidos não participaram oficialmente do golpe contra Evo Morales, mas que vários funcionários da CIA ajudaram a orquestrá-lo. O pessoal encarregado de preparar a operação era ‎principalmente britânico. Os autores asseveram também que a embaixada ‎britânica na Bolívia forneceu à OEA os dados que ‎viriam a ser utilizados para “provar” a suposta fraude na eleição presidencial. ‎Os fatos vêm a confirmar o trabalho investigativo do historiador britânico.

Num outro cenário, em novembro último, após 44 dias de guerra no Alto Karabakh, a Armênia teve que firmar um ‎cessar-fogo com o Azerbaijão e aceitar a perda de uma grande parte dos territórios ‎em disputa. ‎O que ocorreu foi que Londres aproveitou a confusão formada com a eleição presidencial ‎norte-americana para tirar vantagem de Washington, buscar excluir ‎a Rússia do jogo no sul do Cáucaso e assim voltar ao Grande Jogo do século XIX, quando os britânicos ‎eram aliados do Império Otomano contra a Rússia czarista. Mas Moscou se deu conta e impôs aos contendores um cessar-fogo que freou a possibilidade de um novo massacre dos armênios [N. do T.: O primeiro genocídio armênio (ou curdo), que teria vitimado em torno de um milhão e meio de pessoas, foi perpetrado pelo Império Otomano (hoje Turquia) em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial, como tática de limpeza étnica. O Azerbaijão é parte do mundo linguístico turco. A cautela de Moscou em defender seus históricos aliados armênios parece ser explicada em parte por se recusar a se ver arrastado para mais uma guerra por procuração, como se havia tentado fazer na Geórgia, e em parte para não proporcionar apoio ao primeiro-ministro armênio Nikol Pashinyan, caracteristicamente pró-ocidental, e que ascendeu ao poder por meio de uma “revolução colorida” patrocinada pelo Ocidente. Agora, sob pressão das Forças Armadas armênias, Pashinyan acaba de anunciar que deixará o poder em abril.]

Em consonância ao movimento de voltar ao Grande Jogo, Boris Johnson colocou o diretor geral do Ministério ‎de Relações Exteriores, Richard Moore, na condução do MI6. Esse novo chefe da Inteligência Militar foi embaixador ‎em Ancara, fala turco com desenvoltura e é amigo pessoal do presidente Recep Tayyip Erdogan.

Richard Moore é, além disso, amigo pessoal do príncipe Charles, que, por seu lado, é patrono do Centro de Estudos Islâmicos de Oxford (Oxford Centre for Islamic Studies), onde há 25 anos são formados os ‎intelectuais da Irmandade Muçulmana, responsáveis por lançar as bases para os diversos grupos fundamentalistas islâmicos atuais. Como embaixador britânico em Ancara de 2014 a 2017, Richard Moore ajudou Erdogan a se converter em protetor dessa sociedade secreta radical. Já em 2014, Moore tinha coorganizado a retirada britânica da Síria, uma vez que Londres, que havia apoiado ali os jihadistas com fins a levar adiante seus próprios objetivos coloniais, constatara que aquela guerra tinha se tornado não mais que uma operação norte-americana para desagregar e dominar o Oriente Médio.

Outra matéria, publicada em 24 de fevereiro último, também pelo site Declassified UK, intitulada “Charles da Arábia” [em paráfrase a Lawrence da Arábia], descreve como o príncipe Charles vem agindo na Península Arábica como “um representante de alto nível das empresas britânicas de armamento, para fortalecer os regimes autocráticos do Golfo”. Na matéria são contabilizados 95 encontros do herdeiro da coroa com as famílias reais do Oriente Médio, enquanto o total de encontros entre membros da realeza britânica e das monarquias do Golfo chega a 217. O artigo sublinha que todas as viagens de Charles aos países da Península foram feitas por expressa solicitação do Foreign Office e destaca o quanto o Príncipe de Gales ajudou a cimentar as relações com aquelas monarquias, promovendo, ao mesmo tempo, vendas de 14,5 bilhões de libras esterlinas (quase 20 bilhões de dólares) em equipamento militar.

Como demonstra a denúncia italiana do sequestro de 29 milhões de doses da vacina da AstraZeneca, escondidas em um depósito no norte do país, para serem exportadas ilegalmente para a Grã-Bretanha ― exatamente no momento em que os países europeus protestam contra a empresa pelas doses prometidas mas nunca entregues ―, o Reino Unido não demonstra quaisquer escrúpulos na luta por restaurar sua hegemonia. A monarquia britânica não se resigna a sua decadência, tampouco tem qualquer pejo em arrastar os Estados Unidos para um novo ciclo de guerras de grandes proporções.

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segunda-feira, 5 de abril de 2021

Novo protesto na embaixada brasileira em Paris denuncia “genocídio” no Brasil




PHOTO E TEXTO POR RfI-https://bit.ly/3dy8bPN

 Protesto contra o governo Bolsonaro em frente à embaixada do Brasil em Paris, neste domingo 4 de abril de 2021. © Liliane Mutti

A embaixada do Brasil em Paris foi alvo neste domingo (4) de um novo protesto contra o governo de Jair Bolsonaro. Brasileiros residentes na França colocaram na fachada do prédio faixas com os dizeres, em francês, “Genocide, + de 300 mille morts e “Dictature plus jamais”.

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O protesto em forma de instalação artística foi realizado pelos coletivos Alerta França Brasil/MD18 e Ubuntu Audiovisual. Em comunicado, eles declararam que o ato “expressa a indignação dos brasileiros residentes na França, e dos cidadãos ao redor do mundo, frente às mais de 300 mil mortes pela Covid”.

Além das faixas vermelhas, pintadas de preto com os dizeres “Genocídio, + de 300 mil mortos” e “Ditadura nunca mais”, os ativistas instalaram nas grades das janelas máscaras pintadas de vermelho sangue, “para simbolizar as mais de três mil perdas diárias de vidas nesses últimos tempos, vítimas da necropolítica do governo de extrema direita”. Uma fumaça vermelha, tendo como fundo uma bandeira brasileira de luto fechou o protesto.

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