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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

HUMBERTO AK"ABAL "Não é que as pedras sejam mudas: apenas guardam silêncio".

HUMBERTO AK "ABAL por http://bit.ly/2HhDf7c



Carta maior faz a matéria abaixo - um poeta com demasiada consciência do hoje e amanhã,
Eduardo Carvalho teve igual sensibilidade na introdução da matéria e as perguntas.

Vale conferir: http://bit.ly/2HhDf7c

As pedras guardam o silêncio





“Neste país pequenino
tudo fica longe:
a comida,
as letras,
a roupa...”


Humberto Ak’abal nasceu em Momostenango, Totonicapán, na Guatemala, em 1952. Filho e neto de xamã de uma comunidade maia de idioma k’iché, herdou da família a espiritualidade, a tradição, o pensamento e a história de seus antepassados. Atualmente é um dos poetas guatemaltecos mais conhecidos na Europa e América Latina. Para que sua obra esteja ao alcance de todos, ele mesmo traduz seus poemas do k’iche’ para o espanhol. 

Em 1995 recebeu o diploma emeritissimum pela Faculdade de Humanidades da Universidade de San Carlos da Guatemala. Recebeu o Prêmio Internacional de Poesia Blaise Cendrars na Suíça em 1997 e o Prêmio Continental “Canto da América” da Unesco em 1998. Seus poemas têm sido publicados em revistas e jornais da Guatemala, América Central, México, Estados Unidos, Venezuela, Brasil, Colômbia, Espanha, França, Áustria, Suíça, Alemanha e Itália. Tem mais de 18 livros publicados no mundo todo, tendo sido traduzidos para inglês, francês, alemão, italiano, japonês, catalão, sueco e agora para o português, em “Tecedor de Palavras”, uma antologia bilíngüe em português e k’iche’, com 72 poemas selecionados por Affonso Romano de Sant’Anna, lançado no Brasil em novembro pela Editora Melhoramentos.

Um bandana rodeando a testa e a cabeleira, camisa colorida e um ar de xamã. Foi desta maneira que o poeta-índio da Guatemala, Humbero Ak’abal, fascinou Affonso Romano de Sant’Anna e outros poetas brasileiros, franceses, alemães etc. durante a Feira de Frankfurt de 2004 ao entoar seus poemas imitando animais, fazendo ruídos sugestivos com a boca e expondo teluricamente seus sentimentos e raízes milenares.

“Para lê-lo temos que mudar nossa perspectiva de recepção. Ele vem de outra tradição. Nada de Mallarmé, Baudelaire e outros ícones que marcaram tantos poetas ocidentais. É até um descanso encontrar um poeta com outra dicção, vindo de outra tradição, da poesia pré-colombiana, que confere seus sentimentos com os elementos da natureza e não da cultura”, afirma Sant’anna.

Rios, pássaros, flores compõem a referência anímica do poeta. Segundo Sant’anna, se alguém dissesse que a simplicidade desses versos lembra os haikais não estaria de todo longe da verdade, pois o Oriente e o Ocidente se encontram em sua simplificada complexidade. “O fato é que Humberto Ak’abal nos reensina a ver as coisas com palavras cotidianas. Às vezes surge um tom irônico e mordaz, mas em geral ressalta a delicadeza que lembra certas pinturas e desenhos primitivos.”

“Cruzei a ponte. Senti sede. Comecei a abrir um buraco com minhas mãos; a medida que tirava terra fui encontrando umidade; logo minhas mãos removeram a lama, até que finalmente me dei com uma nascente de água. O filete pareceu um vermezinho que movia-se entre a terra removida. Deixei descansar. A água turva começou a clarear, a lama foi se assentando no fundo do pequeno poço. Juntei minhas mãos, peguei a água e bebi.” Ak’abal conta que esse sonho marcou sua vida com a poesia, “ou melhor, acordou a poesia em mim. Andar, escavar, esperar. É exatamente o processo que me leva a escrever um poema. Buscar as palavras necessárias. E aquelas palavras desejadas são as mais cotidianas, as de uso comum. “

O silêncio das pedras
Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Humberto Ak’Abal fala de sua origem xamânica e da tradição de seu povo, de sua língua, de sua poesia e da penúria em seu país, onde mais de 60% da população é analfabeta.

Carta Maior - O senhor é filho e neto de xamã de uma comunidade maia de idioma k’iché. Como se dá, hoje na Guatemala, a preservação da cultura de seus ancestrais?
Humberto Ak’abal - Depois da chegada dos espanhóis às nossas terras, há mais de 500 anos, começou a imposição de outras culturas através da religião e, obviamente, do idioma. Contudo, uma das forças de resistência tem sido a conservação das nossas línguas e, nelas, de toda uma cosmovisão. Apesar do tempo transcorrido, não conseguiram apagar os calendários da lua e do sol, o Calendário Cerimonial da lua consta de 260 dias e continua vigente ainda hoje em nossas comunidades, como era antes da chegada dos castelhanos; e o calendário solar, de 365 dias, também continua vigente e seu início e fim não coincide com a mesma data do calendário ocidental. Cada um destes calendários está ligado à espiritualidade, ao sacro-mitológico, que é a base das nossas culturas. Mas também é preciso acrescentar às formas de resistência a nossa forma tradicional de alimentação, cuja base central é o milho, e as vestimentas tradicionais, com caráter e brilho próprios. 

CM - Haroldo de Campos, um importante poeta e teórico da poesia no Brasil, diz que o senhor "pratica uma arte poética da contraconquista". O que acha desta afirmação?
HA - Meu saudoso amigo Haroldo de Campos lançou um olhar fundo dentro da minha poesia, porque, todo aquele que ler meu trabalho, ou que o escute da minha própria voz, descobrirá que o que faço é contemplar "os valores" da nossa vida cotidiana, aquilo que não morreu, aquilo que ainda respira sob a avalanche da invasão constante de alienações provenientes das culturas estrangeiras. Ou seja, em um sentido metafórico, Haroldo de Campos tem razão.

CM - Outro poeta brasileiro, Afonso Romano de Sant'anna, diz que a sua obra vem despida da tradição poética européia, e que, por isso, pode conferir seus sentimentos com os elementos da natureza e não da cultura. Tal distanciamento é algo intencional, é um rompimento ou realmente uma ausência de vínculos?
HA - Preciso dividir a minha resposta em três partes: 1 - A partir do momento em que a nossa comunicação é cibernética, isto descarta uma ausência de vínculos com o mundo ocidental, portanto tenho perfeita consciência daquilo que está ao meu redor e da evolução da humanidade. 2 - Não é intencional, porque isso apresentaria meu trabalho como algo forçado e isso seria equivalente a um comportamento hipócrita. 3 - Tenho dito e tenho afirmado que a minha formação, mesmo sendo autodidata, aconteceu de duas maneiras: pelo que mamei diretamente dos meus pais, dos meus avôs, do comportamento natural da minha gente no povoado onde nasci e onde continuo vivendo, do que obtenho com a minha língua originária k'iche' e o que tenho aprendido dos livros, porque a minha formação e meu conhecimento da literatura universal tem sido por meio dos livros. 

Por tudo isso, o caráter da minha poesia é natural, é honesto, apresento minha poesia como vivo e tenho vivido, ela é sustentada pelo que conheço e pelo que minha experiência tem me ensinado. Se esta poesia tem mesmo algum valor é o da sinceridade. Não tenho a pretensão de apresentar uma obra desvinculada do século XXI, e também não pretendo apresentar um trabalho como se eu vivesse em uma ilha.

CM - Como é possível a transcrição da poesia em sua língua paterna, o k'iché, para o espanhol?
HA - De sobra, é sabido que a poesia é uma das artes mais difíceis de traduzir de uma língua para outra e os problemas que são enfrentados com as línguas orientais, ao traduzi-las para as línguas ocidentais e vice-versa, são os mesmos problemas do k'iche' para o espanhol. No meu caso pessoal, devo dizer que o conhecimento que tenho do castelhano me permite jogar com o idioma na hora de autotraduzir-me, acho que sou dois poetas em uma só pessoa, porque faço a modelagem dos meus poemas nas duas línguas, mas essencialmente me preocupo de que o sentido do que digo em maya-k'iche seja mantido na hora de traduzir para o castelhano; não é nada fácil, mas acredito que consigo uma alta percentagem de fidelidade graças ao domínio dos dois idiomas.

CM - Gostaríamos de saber mais sobre seu país em termos de identidade cultural. Há impregnação da indústria cultural americana, ou a Guatemala resiste à dominação cultural?
HA - Não tem sido fácil manter nossas identidades porque, tristemente, na área rural chega primeiro aos nossos povos a televisão do que as escolas, o militarismo chega primeiro que os professores. A exploração e a injustiça, a perseguição dos povos indígenas têm feito com que ocorram êxodos de povos e de aldeias na tentativa de resguardar sua integridade física. Tudo isto, de um jeito ou de outro, tem provocado muito desgaste nos nossos valores. Contudo, apesar da repressão e da imposição de valores externos, ainda nos mantemos de pé, graças às nossas línguas e à força do sangue que nos remete constantemente aos nossos antepassados e a compreender que a única arma que temos contra a discriminação e contra o racismo é o sentimento de que pertencemos à terra e à irmandade que mantemos com a natureza.


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