quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O Ano da literatura paraibana -Linaldo Guedes - A União

Enviado pelo colaborador Ranulfo Cardoso - clique no título e leia toda matéria .


Linaldo Guedes J.Pessoa.PB  - A União jornal -


Um ano pródigo para a literatura paraibana. Assim foi 2015. Com muitos lançamentos, algumas estreias e vários; autores da terra premiados nacionalmente. Além de eventos e o surgimento de grupos de poesia. O ano foi encerrado com dois prêmios nacionais para escritoras do estado. Débora Ferraz ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura com o romance “Enquanto Deus não está olhando”, que havia sido vencedor do prêmio Sesc. E a A escritora Maria Valéria Rezende foi a grande vencedora do prêmio Jabuti de Literatura este ano, com o romance “Quarenta Dias”, lançado pela Editora Objetiva. Antes, no início do ano, o escritor Wander Shirukaya lançou em João Pessoa a obra “Ascensão e Queda”, vencedora do Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Melhores(?) dos últimos dez anos.




Melhores obras dos últimos 10 anos

Não sou afeito a falar dos melhores, nem dos piores, acho inseguro, e às vezes inútil; é querer sempre compartimentar o nao compartimentável, é querer criar estereótipos, mas uma revista pediu-me e não publicou, assim aproveito para enviar a minha relação, correndo os riscos que assumo, todos, esclareço que considerei poemas, ensaios e romances.

MELHORES - ÚLTIMOS 10 ANOS-


1-O vento que arrasta –(2015 )Selva Almada-Cosac.
Chaco Argentino,estrada.Súbito problema no carro, pai e filha fazem uma parada na oficina mecânica - Gringo, local onde se desenrolará  a trama. Conhecem o jovem ajudante Tapioca. O divino e o cotidiano e  o imaginário, medeiam a vida dos personagens. A obra, com poucos personagens, finca um uma narrativa de beleza humana, ao mesmo tempo realista,contundente, como não se via na literatura Argentina, surpreendendo-nos com tamanha atualidade universal.

2-Eles eram muitos cavalos (2001),  Luiz Ruffato-,Boitempo.

Luiz Ruffato busca numa narrativa explosiva sintetizar algo não sintetisável, por sua absurda complexidade: a cidade de São Paulo. São 69 episódios em que  Ruffato usa de recursos formais para construir uma  narrativa de  caos e seus personagens comuns e absurdos,” gente habituada a ser coadjuvante em sua própria biografia”.

3-Becos da memória (2006), de Conceição Evaristo-,Mazza Edições

O desmonte  de favela em Belo Horizonte, a partir de entao a autora faz aparecer um conjunto de personagens, com destaque para as mulheres, que se deslocando e nas suas falas carregam consigo seus corpos e suas histórias. Uma sistese de um brasil anonimo e gritante.
4-Vermelho Amargo( 2009)- Bartolomeu Campos de Queirós-Cosac.

5--Desgraça J.M. Coetzee(2000) Cia das Letras.

6- Os Cus de Judas (1980) – Antonio Lobo Antunes (1942). Ed. Marco Zero

7-Geografia do Romance (2007)- Carlos Fuentes.Ed Rocco.

8-Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.(2003) Mia Couto.Cia das Letras.

9- Casa de Papel (2006) Carlos Mariá DominguézEd –Francis.

10-Poesia Completa Manoel de Barros(2010) Ed Leya


A obra contém toda sua produção até 2010, são vinte e um livros,,em que o poeta fala dos deslimites da palavra, a medida que aciona uma poética do falar nacional seu imaginário e o canto da terra e seus convivas, é um elogio ao verso simples com um estardalhaço lírico pouco antes visto em nossa literatura.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Manoel de Barros: uma didática da invenção





Escritor conta como foi preparar livro sobre o grande poeta mato-grossense

Eu sou dois seres. O primeiro é fruto do amor de João e Alice. O segundo é letral: É fruto de uma natureza que pensa por imagens (Poemas Rupestres) - Foto: Jonne Roriz/AE
Eu sou dois seres. O primeiro é fruto do amor de João e Alice. O segundo é letral: É fruto de uma natureza que pensa por imagens (Poemas Rupestres) – Foto: Jonne Roriz/AE
Para falar de Manoel de Barros não sei bem o que se faz necessário, sei que é preciso ter um olhar desformador, como ele já havia dito em poema, suplantar a saudade e agarrar-se aos rastros de passarinhos − ainda mais quando se quer falar de didática da invenção. Mas que didática é essa que faz o poeta para dizer o verso? Talvez cheirar e caçar palavras, e jogar com elas o jogo da desmontagem do olho.
Mas para tal intento, convidei outro escritor escondido, que deixa o estilo de poeta transparecer em suas obras de filosofia e outras áreas: meu colega e amigo Elton Luiz Leite de Souza, que escreveu um estudo raro sobre nosso saudoso inventor: Manuel de Barros: a Poética do Deslimite (7letras/FAPERJ, 2010). Assim principia Elton:
“Em anos recentes, já com mais de 80 anos, uma ideia foi apresentada a Manoel de Barros: poeticamente, escrever uma memória. Afinal, muito o poeta já havia vivido e escrito. Sua fértil longevidade pedia mais do que uma memória, seriam três memórias: da infância, da vida adulta e da velhice. O projeto consistia em três memórias. Elas seriam escritas uma a uma, com intervalos regulares de tempo, e seguiriam uma ordem cronológica com começo, meio e fim, tal como supomos ser a lógica da vida. A primeira memória, a da infância, veio ao mundo. Ela surgiu expressa em um ‘inauguramento de falas’ (Gramática Expositiva do Chão, Civilização Brasileira). Essa memória nasceu singular e múltipla, pois o poeta fala não apenas de uma, mas de três infâncias. Sim, o poeta em seus deslimites poético-existenciais teve não uma, mas três infâncias. E cada uma mereceu um livro: a primeira infância, a segunda infância e a terceira infância. Porém, engana-se quem se fia em cronologias. A primeira infância não é mais infância do que a segunda e a terceira. Há apenas uma infância, e esta é múltipla, heterogênea, inumerável. O poeta, diz Manoel de Barros, é aquele que ‘vai até a infância e volta’. E aquele que vai não é o mesmo que retorna (Encontros: Manuel de Barros, Azougue).
Enfim, vieram ao mundo as três infâncias. Como as memórias da vida adulta e da velhice não nasciam, o poeta foi indagado a respeito, no que respondeu: ‘só tive infância’. Ele diz que em seu lápis, na ponta do seu lápis, ‘há apenas nascimento’, ‘só narro meus nascimentos’. A ‘velhez não tem embrião’. A velhez não é propriamente uma idade, mas a impossibilidade de se perceber como ‘forma em rascunho’, como minadouro de sentidos. A palavra que apenas informa tem essa velhez, uma vez que para o jornal de amanhã, para a
vida de amanhã, ela já será cadáver: ‘A palavra até hoje me encontra na infância’.
No poema ‘Invenção’ (Memórias Inventadas, Planeta), o poeta dialoga com um menino que nasceu do seu lápis: ‘Inventei um menino levado da breca para me ser’, diz o poeta, ‘passarinhos botavam primaveras em suas palavras’, ‘(…) ao fim me falou que ele não fora inventado por esse cara poeta/ porque fui eu que inventei ele’. O ‘eu’ deste último verso não é um eu lírico, ele é um sujeito coletivo como lugar da invenção. Ele é o ‘eu’ do menino que o poeta inventou para (re)inventá-lo, empoemá-lo (O Guardador de Águas, Art Editora), enfim, para terapeutá-lo (Livro sobre Nada, Record).
O menino disse ao poeta enquanto o poeta o inventava: sou eu que te invento poeta, enquanto você me inventa. Esse menino, diz o poeta, é ‘a criança que me escreve’. O menino inventa o poeta para que este (re)invente não apenas nossas palavras, mas igualmente nossas maneiras de ver e sentir o mundo: ‘A liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças’, como exercício de ser criança.
Segundo Manoel de Barros, o poeta é aquele que possui visão fontana (Concerto a Céu Aberto para Solos de Aves, Record), uma visão que é fonte do que vê. É uma ‘visão comungante’. A visão assim compreendida é ‘um ato poético do olhar’(Menino do Mato, LeYa), pois ‘o que dá dimensão às coisas é primeiro a alma, o olho da alma’. Não
é uma visão que constata o referente ou objeto; diferente- mente, ela é uma visão que vê, antes, o sentido – que é a alma das coisas: ‘beleza e glória das coisas o olho é que põe’, uma vez que ‘é pelo olho que o homem floresce’(Livro de Pré-Coisas, Record). As águas que brotam da fonte do poeta têm só um nome: amor. ‘Se a gente não der o amor ele apo- drece em nós’. E o poeta é aquele que diz ‘eu-te-amo para todas as coisas.’ É esse elemento que está em tudo, e que é a Vida de tudo em processo, é este elemento o que o poeta vê e sente, primeiro nele, como metamorfose e encantamento.
No poema ‘Escova’, Manoel de Barros diz ter visto, quando criança, dois homens ‘escovando osso’. Isso o afetou singularmente. Tempos depois, ele soube o nome do que aqueles homens estavam fazendo: eles faziam ‘arqueologia’, eles eram ‘arqueólogos’: ‘No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor’. Desse aprendizado ele inventou outro, pois o poeta diz que aprendeu a fazer algo semelhante, só que com as palavras. Ele aprendeu a ‘escovar’ as palavras. Escovar as palavras é também escovar nossas mentes e maneiras de perceber, para assim limpar delas os clichês. Escovar palavras e mentes é ‘empoemar-se’. Por isso, ler Manoel de Barros é empoemar-se. E isso não se faz sem alegria.
A primeira vez que ouvi falar de Manoel de Barros foi em uma aula de filosofia ministrada por um professor pelo qual eu tinha uma imensa admiração, o filósofo Claudio Ulpiano. Este citou um verso do poeta para ilustrar uma ideia da filosofia. Eu tinha pouco mais de 20 anos. Uma outra pessoa ‘desabriu em mim’. Nunca mais parei de comungar com seus versos, seus pensamentos, suas visões comungantes. Ele me terapeutou. Parte dessa ‘terapia’ foi me curar de uma propensão acadêmica de pouco olhar para o Brasil. Ficamos com os olhos teóricos na França, na Alemanha… e não vemos o nosso quintal. O poeta me ensinou a ‘desaprender os saberes que vêm em tomos’. Dessa terapia verbal, ousei escrever um livro sobre o poeta. O próprio poeta foi meu primeiro leitor, pois enviei os rascunhos, as ‘formas em rascunhos’, para ele. Eu pedia sua autorização para publicação. Obtive o endereço do poeta com sua filha, a Martha Barros, em 2008. Ela me orientou a não telefonar para ele e muito menos escrever-lhe e-mails. Eu deveria escrever para o poeta à mão, pois assim ele veria, além da letra, o espírito. Fiz o recomendado.
livros-manoel-de-barros-revista-brasieliros-89
Enquanto não vinha a resposta do poeta, fiquei com o coração na mão. Um dia, recebi uma carta com letrinha miudinha, parecendo caminho de formiga. Com generosidade e atenção, ele autorizou a publicação do livro. ‘Voei fora da asa’ de tanta alegria. No livro, foram com essas simples palavras que terminei a apresentação que fiz do querido e inestimável poeta: ‘Mais do que um poeta, Manoel de Barros é um pensador, um pensador brasileiro. Empregamos aqui ‘brasileiro’ no sentido mais genuíno e rico que esta palavra pode ter, pois ser brasileiro é ser, em essência, ‘mestiço’.
Não nos referimos, claro, a uma mestiçagem baseada em cores de pele, mas na mistura singular de almas heterogêneas que fazem nascer em uma única alma a capa- cidade de falar e sentir por muitas. Só a mestiçagem de almas pode dar nasci- mento a um estilo ao mesmo tempo singular e plural, poético e filosófico, autóctone e estrangeiro’(Manoel de Barros: a Poética do Deslimite).”
Taí, o Elton que fala e “poema” ao escandir conceitualmente a poesia do Manoel. Outra colega também escreveu sobre o poeta − Marinei Almeida, professora pesquisadora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat): “É assim que ele, Manoel de Barros, nos autoriza pensar: o dia envelheceu e o grande poeta das coisas inventadas, das infâncias, do voo fora da asa, das crianças e dos bichos curvou-se para dentro de seu recolhi- mento, para dentro de sua casca de caramujo, pois, um grande poeta nunca morre. Manoel de Barros continua vivo por meio de seus mais de 27 livros publicados e festejados em uma carreira cuja duração de mais de sete anos assinala a construção de mundos por meio da linguagem poética”.

No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro. (“A Arte de Infantilizar Formigas”, em Livro sobre Nada)

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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Uma pastora de poesia e prosa





A nordestinidade de Micheliny Verunschk
Publicado pela Revista Brasileiros




Paulo-Vasconcelos-header
“De perto, é um novo dia”




 * Nota-Hoje-30.11.2015  a Autora recebeu o prêmio São Paulo de Literatura 2015 ,com “Nossa Teresa - Vida e Morte de uma Santa Suicida” (Patuá) na categoria Melhor Livro de Romance do Ano


Por vezes, sinto cheiros de nordestinidade quando leio alguns prosadores e poetas, mesmo aqueles que se mudaram para o Sudeste. É como se carregassem consigo as terras e águas do Nordeste, onde também lavaram suas letras. É que há um quê na textura de seus textos, não me perguntem o quê.
Micheliny Verunschk é um desses casos. Sua escrita tem um cheiro de mandacarus altos de arcos frondosos e verdes. Nascida em Recife, Arcoverde tomou-a. Diz ela: “Sou pernambucana nascida em Recife e criada em Arcoverde. Isso quer dizer que sou mais de Arcoverde, do que de Recife. Recife é acidente”.
Ela é autora de Nossa Teresa – Vida e Morte de uma Santa Suicida (Patuá e Petrobras Cultural, 2014), seu primeiro romance. Também é autora dos livros de poesia Geografia Íntima do Deserto (Landy, 2003), finalista do Prêmio Portugal Telecom, O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003) e A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010). É doutoranda em Comunicação e Semiótica, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP.
A autora em Nossa Teresa tem um viço de boa escrivã na sua tessitura lexical e fraseado. É uma mulher que fere as palavras para resgatá-las de tal modo que nos fisga com seu texto. Ela conversa com o leitor, via um velho narrador, agarrando-nos pela goela, em suas histórias e causos dos santos – no caso, a mulher Teresa. Ele mostra, ou nos dá a entender que ser santo é ser gente, é ser humano. Receber a coroa de santidade é outra coisa. O velho contador de histórias é o causador da transmutação de alegorias. Sua guia, a autora, com sua prosa temperada pelo “bom vinagre, fogo e gelo”, como o personagem diz, nos entrega o real e o imaginário da existência, e, nisso, constrói uma literatura forte, que ultrapassa o viés regional.
Em Nossa Teresa, os flagrantes poéticos são intermitentes. Em sua poesia, Verunschk tem epifanias de arroubos – é uma poetisa que desliza exuberantemente no verso. Leiam:
Enfeite
Enquanto não vinhas
eu pastorava as brisas
e à noite juntava todas
nas cercas do meu sono.
Depois construía praças e jardins
com as palavras empilhadas sobre as cartas
com as cartas empilhadas sobre os dias
com os dias empilhados sobre o nunca.
Arquitetava outra engenharia do tempo
enquanto não vinhas
e nada, nada, era belo assim…
E mais:

Trabalho
Esta cidade
só é possível porque homens vindos
de todas as noites
urinam às cinco
seu fluxo amarelo
(e a germinam)
urinam ao meio-dia
seu fluxo esverdeado
(e a condenam)
urinam às dezoito e quinze
seu fluxo marrom
(esperma de pus e lodo)
seu fluxo escuro
(gozo de lixo e lama)
seu fluxo prateado
(rios e abortos de todas as partes)
e a adormecem.
E, por fim…

Lenda
A mãe era um bicho em sua toca. Comia estrelas
e lambia os filhos
com um mar tão intenso
que todos adquiriram presas de cristal.

*É paraibano, mestre e doutor pela ECA-USP. Professor de Teoria Literária em universidades privadas e consultor editorial da área de Literatura, além de contista e poeta com livros publicados (paulovasconcelos@brasileiros.com.br).

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A poesia de Oswald de Andrade



O pensar antropológico e as etnias variadas do poeta modernista
publicado pela Revista Brasileiros
José Oswald de Sousa Andrade (SP, 1890-1954)
Em plena homenagem que o Museu da Língua Portuguesa, de São Paulo, faz a Oswald de Andrade, assim como a última Flip (Festa Literária Internacional de Parati/RJ) o fez, nada mais justo que aludirmos a esse gênio da Literatura. Incompreendido em seu tempo – e por muitos -, desconhecido em sua grande obra, se existe um homem das Letras e da busca de uma identidade nacional este é e será um deles. Um literato que fez e refez as palavras dos brasileiros. Patrícia de Freitas Camargo em A Ficção da Língua na Literatura Brasileira (http://bit.ly/oxUCIZ) fala de Oswald de Andrade em suas paródias e apropriações linguísticas para um projeto modernista nacional, ao mesmo tempo apontando sua ironia e preocupação em um pensar antropológico, dentro do quadro da nossa língua, com etnias variadas. Veja os poemas a seguir:
Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
– Sois cristão?
– Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
– Sim, pela graça de Deus
– Canhém Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
O Gramático
Os negros discutiam
que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou
Azorrague
– Chega! Paredoa!
Amarrados na escada
A chibata preparava os cortes
Para a salmoura
(Poemas da Colonização. Andrade, O. 1972:31)
Do mesmo modo, Beth Brait em seu último livro Literatura e Outras Linguagens (São Paulo: Ed. Contexto, 2010), bem como no artigo Estudos linguísticos e estudos literários: fronteiras na teoria e na vida (http://bit.ly/onBgK9), aponta que coube ao poeta modernista tematizar poeticamente a rica variedade da língua portuguesa. Sendo possível citar o seguinte poema:
erro de português
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
(Poemas menores. Andrade, O. 1972:115)
“J.M.P.S.” (da cidade do porto)

*É paraibano, mestre e doutor pela ECA-USP. Professor de Teoria Literária na Anhembi-Morumbi, professor colaborador da ECA-USP, Fundação Escola de Sociologia e Política-FESP, além de contista e poeta com livros publicados (paulo@brasileiros.com.br).

sábado, 7 de novembro de 2015

A melodia às avessas de Samarone Lima

publicado por  REVISTA BRASILEIROS




De Crato a Recife, conheça o poeta da memória e da música silenciosa
“Todo poema tem a missão de provocar no leitor algo que o incomode, que o faça se perder (...). Como diz Juarroz:  ‘A poesia é o maior realismo possível’. Ela salta o nome das coisas, para nomeá-las de outra maneira. Desnorteia. Puxa o tapete”
“Todo poema tem a missão de provocar no leitor algo que o incomode, que o faça se perder (…). Como diz Juarroz:
‘A poesia é o maior realismo possível’. Ela salta o nome das coisas, para nomeá-las de outra maneira. Desnorteia. Puxa o tapete”
Samarone Lima é um cavalheiro, jovem-antigo, pesca fatos como jornalista e embrulha palavras com sua poesia. Seu lirismo se debruça sobre os mais diversos acontecimentos e os transforma em versos, embebidos de uma política do subjetivo sobre a qual alisa sílabas, dá contorno à palavra e consistência ao poético.
O professor e crítico literário Lourival Holanda escreve no posfácio do primeiro livro de poesias de Samarone, o duplo A Praça Azul & Tempo de Vidro (Editora Paés, 2012): “Na agreste figura dele, a poesia surpreende como a floração de um mandacaru… O poema de Samarone vai na contramão do consensual e, porque um hino à memória, guarda o mel dos momentos mágicos num processo de retenção sem pressa… E assim o poeta reconstrói sua delicada geometria de esplendores…”.
Sama nasceu, em 1969, no Crato (CE), mas desde 1987 vive em Recife. Tem trabalhado em diferentes projetos literários, como os livros-reportagem  (1998) e Clamor (2003), que estão sendo adaptados para cinema, e os livros de crônicas Estuário (1995) e Trilogia das Cores (2013). Só recentemente passou a publicar sua obra poética. Seu livro mais recente é O Aquário Desenterrado(Editora Confraria do Vento, 2014). Samarone recebeu a Brasileiros em uma livraria em Recife, onde batemos o papo a seguir.

Brasileiros – Fazer poesia é um ato político?
Samarone Lima – A literatura é sempre um ato político. E, se for sutil, abre mais espaços em pensamentos fechados. A palavra sempre me abriu caminhos. Como sempre publiquei muito as crônicas no meu blog (estuario.com.br), a quantidade de leitores era enorme. Fui publicando os poemas de forma quase clandestina em outro blog (quemerospoemas.blogspot.com). Era um problema existencial. De um lado, eu não queria muito mostrar os poemas. De outro, me lamentava ser conhecido apenas como cronista, jornalista. O fato de um leitor ter me encontrado e instigado a mostrar a poesia foi determinante. Devo isso ao amigo Arsênio Meira Jr., grande amante e conhecedor de poesia.
Brasileiros – Um de seus temas é a solidão na infância, a adolescência, as…
S.L. – … As muitas coisas. A solidão da infância, as dezenas de casas onde vivi, do Crato, no Ceará, passando pelo Maranhão, depois Fortaleza, Recife, São Paulo. Tentei apenas decifrar meu mundo de forma poética. A poesia pode também ser memorialista, mas não tem uma linha reta como na prosa.

Brasileiros – Você tem um memorial poético bem exposto na sua poesia… mãe, primos, etc.
S.L. – No meu primeiro livro duplo, temos as duas vertentes. A Praça Azul traz poemas soltos, com aparições da memória. Em Tempo de Vidro, fiz uma espécie de ritual da memória, indo aos antepassados, passando por mim, chegando novamente aos velhos. Em O Aquário Desenterrado, deixei que tudo viesse da forma mais pura, aberta. Cito nomes de tios, falo dos primos, do meu pai, dos irmãos. Me senti muito bem acompanhado. Nós e nossas dores, alegrias, fracassos, como uma grande constelação.

Brasileiros – O poeta tem o que se chama inspiração ou essa é uma palavra oca?
S.L. – Acredito que tenho, sim, dias mais inspirados. A escrita sai quase de uma fonte cristalina, basta se agachar, juntar as mãos e beber dela. Mas há dias duros, de luta mesmo, de frio, cansaço, solidão. Neste caso, recorro aos diários. Tenho dezenas de cadernos, que sempre me trazem alguma surpresa, uma frase, um tema. Cadernos velhos são meus fertilizantes.

Brasileiros – Quais autores brasileiros são para você um ponto de partida ou de chegada?
S.L. – Sendo meio óbvio, Murilo Mendes e Jorge de Lima. Mas tenho minha ramificação poética com outras fronteiras. Roberto Juarroz e Juan Gelman (argentinos), T.S. Eliot (norte-americano/inglês) e o abismo que é o Vicente Huidobro (chileno).

Brasileiros – Você tem uma relação mística, sagrada, com o exercício da poesia?
S.L. – Sim, creio, porque a palavra, em sua raiz original, tem o sagrado e o dom. Eu realmente trato a poesia como algo sagrado. O dom é outro aspecto, que tem o mistério rondando. Nunca sei de onde um poema vem, nem para onde vai. Tento esse exercício da poesia com as coisas cotidianas, os sobressaltos, impasses, desenganos, frustrações. Não é por acaso que meus parentes são personagens de vários poemas, eu mesmo apareço e me deixo desnudar. Vou construindo uma poesia que sirva para dar conta da minha vida, mas tentando ir sempre ao encontro do leitor.

Brasileiros – E qual seria uma definição de poesia para você?
S.L. – Poesia, para mim, é o descolamento silencioso, rastejante da palavra em relação ao objeto contemplado. Um descolamento da palavra de seu significado habitual. Eu busco essa renúncia. Não apenas para sentir-me completo, mas também para conservar a tradição milenar de entender a poesia como uma espécie de música quase silenciosa. Uma melodia às avessas. Como diz um poeta que me é caro, o argentino Roberto Juarroz, a poesia é um “visionária e arriscada tentativa” de levar o homem ao espaço do impossível, que às vezes se parece também com o espaço do indizível. É meu testemunho, minha obsessão. De novo Juarroz: “Uma peregrinação de meu destino através da linguagem”.

Brasileiros – Você vê seus versos pelo buraco da fechadura, como diria Nelson Rodrigues?
S.L. – Meus versos não são próprios (exceto um ou outro) para serem lidos em voz alta (não cabem na “declamação” porque isso guarda um elemento teatral). Há algo de contido, até porque tinha uma timidez assombrosa em mostrá-los. Quem me salvou do anonimato poético foi o amigo Arsênio Meira Jr., que fez uma seleção do primeiro lote que publiquei silenciosamente na internet (quemerospoemas.blogspot.co). É um despojamento, um desnudamento. Já tive oportunidade de fazer algumas raras leituras, mas prefiro em voz baixa, quase um sussurro, até porque me emociono quando vou ler. Essa emoção que me leva ao engasgo, é o que tento levar ao leitor. A poesia que me comove e que tento escrever se move pela completude amorosa, compreendendo, sobretudo, a memória e o exílio das minhas desarmonias, que são muitas.
Poema inédito

Manual de espera e solidão
Como no silêncio sem rastros
De um animal desvairado
Com seu cheiro difícil de esquecer
de tão próximo.

Ou como o espaço que lhe damos
Entre os ossos
Dessa ausência doentia
De tudo o que se quer.

Como se aquilo que se perde
Não virasse outro abismo –
O de ter sido.

E mesmo assim, se promulga a voz
Do absoluto desejo.

Tão imaculado, tão limpo, tão puro
Que sequer precisa de um nome
Para saber-se vivo.
Brasileiros – A relação entre prosa e poesia?
S.L. – Bem, enquanto a prosa tem um sentido lógico, definível, a poesia é alógica, evoca sentidos vários, não tem medida, exceto aquela que enxergamos. Talvez por isso os meus versos tenham demorado tanto a serem publicados. Eu desejava que eles tivessem a força de um filho há muito esperado, e que depois segue seu caminho. Eles ainda são muito duros, mas até a dureza tem algo de contido. A Praça Azul & Tempo de Vidro foi o livro possível, mas que resultou em uma espécie de alívio. Fiz minha inauguração. No final de 2013, veio O Aquário Desenterrado. Vi que estava com a alma mais livre, que podia dizer de forma mais intensa o que me era caro. As minhas contradições, memórias, minha vida feitas de tantas casas, tantas cidades, vivências. Um desaprumo que a poesia me possibilita refazer. Desejo apenas seguir nesta jornada pela poesia, sem nenhuma pressa.

Brasileiros – A busca pela completude amorosa é a qualquer preço?
S.L. – Não. Há condições. Logo no primeiro poema de O Tempo de Vidro, isso soa claro, como neste trecho: “Quando voltei/Aos seios de minha mãe/Morri de sede./Minha parte no mundo/Era destinada ao desconhecido/Que sempre fui”. Isso não é nem uma introdução de poema, isso é uma recomendação a mim mesmo. Lá, já nas origens, tudo se configurava. No meio do espanto, me vi escrevendo cada vez mais poesias, fazendo um diário de minha própria trajetória, tentando me reconhecer e me perdoar. Não sei se consegui, porque o perdão é uma tarefa para a vida inteira.
Todo poema tem a missão de provocar no leitor algo que o incomode, que o faça compreender, ou mesmo se perder, pois afinal de contas, perder-se também requer um roteiro, um caminho, um mapa necessário para subirmos novamente a montanha. Como diz Juarroz: “A poesia é o maior realismo possível”. Ela salta o nome das coisas, para nomeá-las de outra maneira. Desnorteia. Puxa o tapete, escancara o coração. Deve nos fazer pensar. Não lembro agora o autor de uma frase belíssima (não sei se foi o Jean Cocteau), que perguntou o seguinte: “– Se sua casa estivesse pegando fogo, o que você salvaria primeiro?”. Eis a resposta: “– O fogo”. Assim entendo e vivo a poesia. Uma urgência enlaçada pela afeição desesperada.
*Arsênio Meira de Vasconcellos Junior é bacharel em Direito, ocupa um cargo público e é um viciado em poesia e incentivador da poesia brasileira.