quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"Crônica de uma morte anunciada: o Teatro do Parque" Recife.Pe.

Capturas Do Facebook
Por Anco Márcio Tenório Vieira 

Anco Márcio T.Vieira Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco *


Foto: Penélope Araújo/G1








Durante as manifestações que os artistas e intelectuais pernambucanos promoveram pela restauração e, por decorrência, pela reabertura do Teatro do Parque, lembrei-me que em conversa com um parlamentar holandês, em fins da década de 90, ouvi dele que nenhuma obra pública é aprovada pelas instâncias legislativas da Holanda (mesmo existindo orçamento para tal) se o proponente do projeto
não apresentar a fonte que irá promover a sua manutenção pelos próximos dez anos. 

Alguns poucos anos depois dessa conversa, o Teatro do Parque foi fechado pela Prefeitura da Cidade do Recife. Não era uma interdição técnica, de poucos dias, visando reparar uma tubulação de ar-condicionado, promover a troca de lâmpadas e refletores, ou mesmo fazer uma dedetização do espaço. Pelo contrário: era uma interdição radical — uma restauração —, promovida quando o imóvel está fechado e abandonado ou, no caso, completamente degradado pelo tempo. Estávamos em 2010, no segundo ano da gestão do então prefeito João da Costa. Em março de 2011, enquanto o Teatro do Parque permanecia fechado, sem projeto e, por extensão, sem nenhuma data prevista para o início dos trabalhos de restauração (o que significava dizer que os seus problemas estruturais continuavam se agravando de maneira célere), o prefeito inaugurava, em Boa Viagem, com pompas e circunstâncias, o Parque Dona Lindu. Projeto assinado por Oscar Niemeyer, o Dona Lindu foi inicialmente orçado em 18 milhões de reais, mas concluído ao custo de 37 milhões. O dobro do que fora inicialmente licitado três anos antes. Nada de extraordinário, considerando que no Brasil os técnicos (supostamente competentes) dos órgãos municipais, estaduais e federais sempre erram no orçamento das obras; e erram sempre para cima: dobrando, triplicando ou quadruplicando os seus valores iniciais.

Foto:  Reprodução / TV Globo
Bem, juntando alhos com bugalhos e olhando os fatos em perspectiva, faço aqui algumas indagações sobre os episódios acima. Primeiro: lembro que quando as portas do Teatro do Parque foram fechadas em 2010, contabilizava-se 22 anos que o então prefeito Jarbas Vasconcelos entregara o Parque restaurado. A pergunta é: como os prefeitos que o sucederam — a saber: 

Joaquim Francisco (1989-1990), Gilberto Marques Paulo (1990-1992), Jarbas Vasconcelos (1993-1996), Roberto Magalhães (1997-2000) e João Paulo (2001-2004; 2005-2008) — deixaram o Teatro ir se degradando a tal ponto que, em apenas duas décadas, foi necessário novamente interditá-lo e jogá-lo nessa UTI da construção civil que chamamos restauração? Por que as três gestões municipais que antecederam o fechamento do Parque (as duas de João Paulo e a de João da Costa) não sanaram os problemas que o Teatro já apresentava em 2001 (primeiro ano da gestão de João Paulo), mas, pelo contrário, permitiram que a sua deterioração se agravasse até o ponto em que selar as suas portas e privar a cidade de mais um espaço cultural, foi a única solução encontrada? (ironicamente, uma gestão que se dizia “popular” fechava o aparelho de cultura mais popular da cidade!) Só a guisa de comparação: quantas vezes, no último século (e não nas últimas duas décadas, como é o caso em questão), casas de espetáculo como o Carnegie Hall e a Ópera de Paris, ou museus como o Prado, o Louvre e o do Vaticano precisaram ser fechados para restauração? 

Segundo: se, em 2009, a Prefeitura do Recife tinha R$ 37 milhões de reais para construir o Parque Dona Lindu, não teria sido mais racional (lembro que essa palavra não tem, nem nunca teve, muita simpatia junto aos nossos gestores públicos) lançar mão desse dinheiro para estruturar os aparelhos culturais da cidade que estavam avariados? De maneira bem prática e pensando do ponto de vista do homem comum: se o que eu ganho não dá para manter a casa que habito (pagar luz, água, IPTU, comprar material de limpeza, contratar jardineiro, pinta-la pelo menos a cada dois anos etc.), como eu lanço mão das minhas pacas reservas financeiras e compro uma casa na praia, duplicando as minhas despesas correntes? 

Terceiro: se, como dissemos acima, não existia (e pelo andar da carruagem, ainda não há) dotação orçamentária que mantivesse (ou mantenha) os aparelhos culturais da Prefeitura em perfeito estado de uso (o que levou, em apenas duas décadas, o restaurado Teatro do Parque a ser novamente fechado), como construir um novo aparelho cultural? Antes de pensar em construí-lo (e eu penso aqui no que dissera o deputado holandês), os poderes executivo e legislativo do município não deveriam declinar de qual fonte viriam os recursos para cobrir as suas despesas, evitando que, em um futuro próximo, esse novo aparelho viesse a ter o mesmo destino dos seus “irmãos siameses”? Destino esse que, no caso, chegou mais rápido do que se imaginava: o ano passado os jornais do Recife noticiaram que o Dona Lindu também já sofria (e continua a sofrer) do mesmo descaso observado nas demais obras públicas do município: banheiros e pisos quebrados, iluminação precária, ar-condicionado sem manutenções, áreas de lazer degradada. 

Na raiz dessas “restaurações” que não cessam de acontecer, encontramos o princípio que desde sempre orienta o modo como se administra e se planeja a coisa pública no Brasil: uma coisa é construir (na verdade, que gestor resiste ao canto da sereia de uma obra de alvenaria, particularmente, no caso do Dona Lindu, se ela encerra a grife Oscar Niemeyer?); outra bem distinta é, depois de construída, mantê-la em condições de uso. Se o gestor constata que não há dotação orçamentária para a sua manutenção, o problema é jogado nas mãos do próximo alcaide. Como a primeira ação (construir) depende da segunda para a sua continuidade e uso (manutenção), o gestor público tem consciência que, ao fim e ao cabo, não existindo verbas para a sua preservação, o que ele entrega à sociedade é uma obra que, em pouquíssimos anos, será apenas mais uma ruína na paisagem urbana da sua cidade.

Sim, “manutenção”, palavrinha mágica que nunca integrou o dicionário da administração pública brasileira, e que, por sua vez, é prima-irmã de outra palavra esquecida: “planejamento”. Afinal, o que é governar? Dentro da lógica brasileira é, se possível, construir obras, muitas obras de alvenaria (de preferência que ela custe o dobro ou o triplo do orçamento inicial). Não podendo construí-las, vale deixar o descaso tomar conta das que já existem; em futuro próximo, algum prefeito irá restaurá-las. Uma vez restauradas, serão jogadas novamente na vala comum do descaso. Como resultado desse descaso, as obras entram em decomposição e voltam novamente à UTI da restauração. Nesse eterno retorno, temos a imagem substantiva da administração pública brasileira: o “Uróboro”, a cobra que morde o próprio rabo. 
(Divago: penso que quando um governante entrega obras degradas para o seu sucessor, ele, na verdade, está a lhe entregar um presente. Esse presente encerra implicitamente a seguinte mensagem: caso você não tenha nenhuma ideia do que fazer em sua gestão, restaure as ruínas que eu e as gestões anteriores deixamos. Afinal, ruínas não faltam na cidade, no Estado e no País).

Apesar de louváveis as manifestações de apoio à reabertura do Teatro do Parque (o que significa dizer que a população ainda não está completamente inerte aos desmandos dos nossos governantes), desconfio que depois que ele for restaurado (olha o meu otimismo!), teremos que nos preparar para em uma ou duas décadas estarmos novamente na Rua do Hospício protestando por uma nova restauração daquela casa de espetáculo. Mas antes que isso aconteça, vamos começar a esquentar os tambores, o fôlego e a disposição para as manifestações de defesa do Dona Lindu: pelo andar da carruagem, será a próxima obra a ser fechada para restauração. 

Vivemos, assim, o ciclo do eterno retorno e, como tal, somos testemunhantes de restaurações que são apenas uma farsa; farsa que, infelizmente, se promove com o dinheiro dos nossos impostos; farsa que se desdobra em cinismo, particularmente quando assistimos os que, no passado, gerenciaram essas casas de cultura, agora indignados com o atual estado das coisas.



*Professor Associado 1, coeditor da revista Investigações, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), tem trabalhos em periódicos do Brasil e do exterior (a exemplo da Revista USP, Ciência & Trópico, Luso-Brazilian Review, Estudos Portugueses, Cultura Vozes, Remate de Males e Nabuco) e dezenas de ensaios publicados em livros. É autor de Luiz Marinho: o sábado que não entardece (FCCR, 2004), Adultérios, biombos e demônios (PPGL, 2009) e Orley Mesquita: prosa e verso (CEPE, 2012). Colaborou com os volumes 3, 4 e 5 da BIBLOS: Enciclopédia VERBO das literaturas de língua portuguesa (Coimbra, 1999-2004) e é coautor dos livros O caminho se faz caminhando: 30 anos do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE (Ed. UFPE, 2006) e Hermilo Borba Filho e a dramaturgia (FCCR, 2010). É membro do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos, da Universidade de Coimbra (Portugal).

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

RONIDALVA DE A. MELO ....o poema é o agir...



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Para Roni:

No escuro da minha língua, suo mais , só não deixaste um grampo, 
mas cantaste as violas dos rios e do mar sobre meu ouvidos moucos, 
agora o mar e o rio são mais claros e ouço-te. Paulo Vasconcelos



Roni-Ronidalva de Andrade Melo- 



Nem todo os poetas estão postos em livros de poesia, nem todos publicam seus poemas. Eles são uma poesia muda, às vezes ácida, às vezes doce, às vezes sem um sabor definido, mas são poetas do olhar, do escutar, de procurar a si, o outro e, sobretudo, do agir sobre um perfil de humanidade. O poeta poetando no equilibrismo de ser apenas, sem palavras de edição, ou seja, o poema é o agir.

Roni, Ronidalva de Andrade Melo, pernambucana, foi uma poeta que se publicou no seu trajeto de vida, encontrando-se, desencontrando-se e encontrando outros, em que afinava sua poética de ser.

Desde quando professora em cursinhos e colégios, poetava para os alunos na busca de uma humanidade, usando até mesmo a harmonia do seu canto. Foi assim uma intérprete de tantos outros homens e mulheres, desafiando a empatia de muitos, mas segura de que era assim que tinha que ser para enaltecer o humano e desdenhar com o açoite aos que repudiam os outros não bem-aventurados do poder.

Nas longas conversas noite a dentro, anos ‘70, mirando sobre as pontes o Recife-PE, da Boa Vista, perto da Faculdade de Direito, zombávamos do academicismo, do nada, cantarolando o bloco da saudade, ou na ponte da Torre quando caminhávamos para casa, por vezes sentávamos, ainda podia-se fazer isso a este tempo, e riamos, dizíamos versos como bêbados enliricados e soltávamos canções na goela, ás vezes atraindo violeiros que se juntavam a essa louca trupe e formávamos um bloco improvisado de vida. O mesmo ocorreu em Salvador, na Avenida Sete ou lado do poeta Castro Alves olhando o mar. Ou em São Paulo, reclamando do frio e dizendo que nos engessaríamos para suportá-lo, sim quando ela morou aqui alguns anos fizemos isso algumas vezes no espinhaço da Paulista ou no Butantã, no Jardim Bonfiglioli.

Em sucessão e na eterna avidez pela vida, tornou-se uma porta voz do estudo da Justiça e da Segurança, da violência em Pernambuco, Recife, Fundação Joaquin Nabuco. Apontou os pontos da violência humana, observando as ruas, os cárceres, enfim, o homem nas suas características de violento, no escopo do estado e a justiça.

Buscou entender o estado no âmbito da Segurança, focando a Justiça e seu poder de controle e contradições, e fez com determinação olhar o homem subjugado a corpus de leis e desmandos. Aqui sua poesia era ácida e de uma força de um Hermes, cravando seus versos sobre uma hermenêutica jurídica. Porém não se distanciou da poesia humana, mesmo neste estado violento, ao contrário, acusou-o e buscou defender o outro anônimo das garras da injustiça e aí reside seu lirismo teórico, até mesmo no nome de sua obra principal: O poder de punir e seus equilibristas - Massangana, Fundaj Recife, 2011.

Regozijava-se com a poesia nas entrelinhas das línguas dos teóricos poetas como Spinoza, Foucault (que, aliás, foi uma das pioneiras em trazê-lo à tona em Pernambuco, conciliando-o ao seu estudo empírico), Deleuze, Nietzsche e tantos outros poetas declarados, como Pessoa, Alberto Cunha Melo, José Mario Rodrigues, Manuel Bandeira, Maria do Carmo Barreto Campelo, Zé Régio, Carlos Pena Filho, Cecilia, Clarice, e muito mais. Mas Drummond, para mim pelo menos, era uma marca sua, em que ela descontruía sua palavra encontrando um quê escondido em seus poemas. Assim foi com Desaparecimento de Luísa Porto de Carlos Drummond de Andrade*, em que aqui destaco alguns trechos:

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
À Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.


...

Luísa é de bom gênio, correta, meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.


...

Faz tanta falta.


Se, todavia, não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar

...

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:

....

Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro

e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte

gravada no centro da estrela invisível
Amor.
Não sei quem seria Roni: a Luísa ou mãe, quiçá as duas, mas de uma coisa estou certo, ela procurava... essa procura era a própria vida, tecida no mais estranho e simples algodão, bordado com as cores mais simples e talvez pouco chamativas, mas procurava, tomava um gole de água e procurava, procurava, era essa busca para uma substância sua e dos que a rodeavam. Como pesquisadora, e nisso o poema é claro, rodeou-se de olhares inconstantes, de avisos desavisados, mas perquiria no ausente a presença, levantou bandeiras, comprou arcos e desfechou-os, às vezes atoa, como atoa é a vida. Amou e desamou, odiou como flagra de um avesso dos afetos humanos, era contradita, mas buscava seus porões, mesmo com pouca luz, mas se avisava, tinha mãe, rainhas-filha, tias, tios, irmãos, flores amigas, mas avisava-os de sua contradição ou desajeitava-se, mas perseguia sua busca, como a do poeta, como ora na boca insipida da morte ela talvez poete sendo invisível ao centro do silêncio da estrela oculta nos céus de um Recife.



*Texto extraído do livro "Nova Reunião — Novos Poemas", José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1985, pág. 230
Ronidalva de Andrade Melo
Formada em direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e mestra em serviço social, “Roni”, como era conhecida entre os amigos, se notabilizou principalmente por estudos em torno das incongruências do sistema prisional brasileiro. Especialista em Direitos Humanos, defendia a necessidade de uma ressocialização penal que, de fato, funcionasse como forma de recuperação dos presidiários. Muitas das suas pesquisas foram desenvolvidos ao longo das mais de três décadas trabalhadas na Fundaj. “Uma instituição é feita das pessoas que a constituem.” - Apud Fundaj



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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

JOAO AZZANELO CARRASCOZA ...somos as limitações de nossa linguagem ...

JOAO AZZANELO CARRASCOZA 
Por Revista Brasileiros
João Azzanelo Carrascoza  por uol

PAULO VASCONCELOS 
FRANCISCO BICUDO* 

Não é tarefa simples transitar pelos distintos e instigantes meandros da literatura de ficção – do conto ao romance -, passando pelas narrativas para crianças e jovens e investindo ainda com propriedade em reflexões singulares sobre a linguagem publicitária. João A. Carrascoza passeia com muita habilidade e competência por todas essas estradas. O autor possui 35 livros (romances, contos, infantojuvenil, didático). 

Bisneto de um carroceiro que andava pela cidade de Cravinhos, interior de São Paulo, declamando trovas, filho de um exímio contador de histórias e leitor voraz durante a juventude, João é dono de uma estética tão original e contundente quanto delicada, com a argamassa de uma humanização tão necessária nesses tempos de preconceitos e intolerâncias. 

Seus escritos, gritos tranquilos de palavras bem elaboradas, prosa reta, estável e limpa, sem arroubos de firulas, não esquece as origens interioramas consegue simultaneamente afirmar nossa condição de sujeitos universais. 

Sua prosa poética, pontuada pelo cotidiano, pelos silêncios e não-ditos – características desde sempre destacadas por críticos como José Paulo Paes e Alfredo Bosi , trata muitas vezes de perdas e de medos. Sem abandonar esperanças. Miguel Conde, jornalista, editor e ex-curador da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), escreveu em artigo publicado pela revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea (edição 34, julho-dezembro de 2009) que “nos seis livros de contos até aqui lançados por João Anzanello Carrascoza, reencontramos com notável regularidade uma mesma voz: ele fala quando os personagens emudecem, atribui sentido ao que parecia casual, recorda coisas esquecidas, demora-se sobre aquilo que é passageiro, trivial e insignificante. Ao mesmo tempo íntima e distinta daquilo que conta, ela expõe ao leitor, sem constrangimento, sem reservas, um sentimento de mundo fundado na compaixão – e por isso marcado por uma combinação pungente de encantamento e dor diante do movimento incessante das coisas. Essa exposição é uma forma deliberada de candor, e uma interpelação. Talvez seja um chamado...”. 

Graduado em Publicidade pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), com mestrado e doutorado pela mesma instituição, João reflete em suas obras publicitárias a respeito das características dos textos apolíneo (razão) e dionisíaco (emoção). 

Em “Aos 7 e aos 40”, romance lançado no ano passado, há duas narrativas que se entrelaçam – a da criança e a do maduro quarentão -, reunindo inocências, descobertas, nostalgias e dúvidas, combinando dois momentos distintos da vida do mesmo personagem. Já em “Caderno de um ausente”, o mais recente romance (2014), um pai já com mais de 50 anos, temendo a morte e receoso de que não verá a filha Beatriz (recém-nascida) crescer, vai registrando num diário reflexões, impressões e inquietações, na expectativa de que essas memórias possam um dia ser lidas por Bia. 

Para Carrascoza, “somos as limitações de nossa linguagem e, simultaneamente, o nosso progresso ao operá-la. O silêncio seria o ponto máximo, a perfeição, que a linguagem poderia alcançar. Mas, como é impossível realizarmos tal milagre, nosso fim é mesmo o verbo, embora não mais o do princípio”.  



1- A terra, a cidade, o interior, a cosmopole São Paulo e a literatura. 
Nasci em Cravinhos, pequena cidade do estado de São Paulo – e, ainda jovem, fui cursar comunicação na capital, de onde nunca mais saí. Minha alma padece dessa dicotomia natureza e urbanidade, sendas verdes e paisagens de concreto. O mundo de minhas nascentes segue comigo aqui, na metrópole, como uma pele anterior a minha pele – eu me sinto povoado de rios, montanhas, árvores, bichos. Eu me sinto vento, nuvens, noites estreladas. E, como toda rama fora de sua terra, levo minha seiva ao produto que eu fabrico. Somos o que somos, e o que somos vaza para nossa literatura. Se eu sou aquela lavoura antiga, as minhas histórias não podem senão ser cultivadas nela, sob pena de resultarem em frutos não autenticamente meus. Se eu sou aquelas ruas de terra, aqueles amanheceres além dos canaviais, eles vão dar, de alguma forma, no universo ficcional que mana de minhas mãos.  

2- As marcas na sua literatura e dados de tua subjetividade construída e em permanente mutação, como emergem? 
Minha literatura está marcada pelo signo da perda e por uma invariável suspeição, talvez por ser essa minha percepção da existência. Quanto mais envelhecemos, mais perdemos, porque vamos sobrevivendo às pessoas queridas, ainda que ganhemos mais tempo de usufruto do mundo. Estamos num canto luminoso e, de repente, a escuridão. A alma distraída, no calor, e, num instante, o inverno. Há uma substância imutável nas profundezas de minha subjetividade, mas, noutras partes dela, onde se abrigam os conflitos emersos do presente, lá, é natural, os fatos novos me levam a reagir, a repensar, a me reescrever, o que, de certa forma, gera em mim outros modos de ver, ser e sentir a vida.  

3-Sua vida e a literatura ,..........uma biografia curtíssima...  
-A construção de sua obra, como se fez, fatos marcantes e esse seu zelo pela palavra, como um antropólogo/engenheiro dela...ou um semioticista esmerado 
Sou bisneto de italianos que chegaram ao Brasil depois da Primeira Guerra Mundial e neto de espanhóis republicanos que migraram para cá nos anos 1950. Meus ascendentes, de ambos os lados, foram parar nas lavouras de café do interior paulista. Um de meus bisavôs era carroceiro, andava pela cidade declamando trovas; meu pai era um hábil contador de histórias, de forma que talvez venha daí, do atavismo, o meu gosto pela mistura da prosa com poesia. Em Cravinhos, onde vivi até os dezessete anos, fui um leitor voraz. Ao gosto por ouvir histórias se somou o prazer de descobrir outras tantas no território da escrita. Como no poema Dactilografia, de Fernando Pessoa, me dei conta de que a literatura era uma segunda vida. Daí em diante, até hoje, peguei essa vereda que cruza o tempo inteiro, em sua extensão, a vida de dentro com a vida de fora dos livros. Menino, perdi meu pai num acidente de automóvel e, se a perda se deu nprimeira vida, o seu eco se espraiou pela segunda – minha obra é essencialmente a narrativa de um dano, o espanto diante dele e, no fundo, ainda que dolorosa, a sua aceitação. Logo que aprendi a ler, encantei-me com o corpo das palavras, sua música, seu cheiro, sua sombra.  

4-Uma crítica sobre sua obra e demarcação de blocos ou não  
A crítica pode iluminar o nosso trabalho à medida que compreende a nossa diferença e nos desafia a transformar nossas deficiências, tanto narrativas e estilísticas, em virtudes. Quando estreei, com o livro de contos Hotel Solidão, tive a sorte de receber críticas convergentes em relação ao meu registro lírico. Cid Seixas foi o crítico que se dedicou a demarcar esse traço de hibridização em minha obra: a prosa contaminada pela poesia (poesia não somente como trato refinado da linguagem, mas também como sua substância – a transformação da experiência em algo sensível). Um valor expressivo que aprendi, como escritor, foi a liberdade de experimentar formas narrativas na época em que participei de uma oficina de criação literária coordenada pelo João Silverio Trevisan. Uma crítica marcante que me conscientizou de meus recursos, e me empenhar em melhor explorá-los, foi a resenha de José Paulo Paes de meu livro de contos O vaso azul. Ele foi o primeiro a afirmar que as minhas histórias se assentavam no cotidiano, mas o desfecho resultava em “vislumbres epifânicos”. A prosa poética, a forma casada com o conteúdo (a história, para mim, tem um jeito mais forte de ser contada e o desafio é encontrá-lo) e a epifania foram sublinhadas depois por pares que escreveram sobre minha obra, como Luiz Ruffato, Nelson de Oliveira, Cristovão Tezza. E a esses aspectos se somaram a presença do silêncio e do não-dito, pontuados por críticos como Alfredo Bosi. Também tive o privilégio de ser lido pelo Raduan Nassar, com quem aprendi a assumir os temas constitutivos de meu ser, como o núcleo familiar, o mundo rural, a descoberta do outro.  

5-A sua produção tem uma estilística e ... os seus prêmios 
Penso que sim, claro, mas sinto que não sou quem melhor pode apontar os aspectos dessa estilística. Como produtor de meus textos, e leitor de mim mesmo, noto certos traços que me configuram como ficcionista – o narrador com lente elegíaca, o gosto pela metáfora, a exploração rítmica da narrativa, os diálogos em itálico, os não-dizeres tão essenciais quanto os dizeres, o registro que mescla o literário com o coloquial, a contaminação do épico pelo lírico. Quanto aos prêmios, queiramos ou não, eles são balizadores do campo artístico. Por um lado, à priori, revelam que há leitores críticos, os jurados, valorando positivamente a nossa obra e reconhecendo a sua singularidade. Por outro lado, à posteriori, podem chamar atenção de outros leitores, críticos, ou apenas comuns, além de curadores, editores, tradutores etc.; ou seja, em geral alargam a visibilidade de um autor e de sua produção. Mas deve-se relativizar sempre a relevância dos prêmios – eles são concedidos por uma comissão, que, embora possa fortalecer o cânone, não é a única que influi na sua consolidação.  

6-Como falar de uma literatura brasileira sem preconceitos regionais e uma latino-americana. Como é tua leitura dos Latino americanos? Sua obra está traduzida...que idiomas. 
Há muitos escritores de valor fora do eixo Rio-São Paulo, que deveriam ser lidos e estudados nacionalmenteAs editoras, os institutos que realizam eventos literários e a imprensa podem trazer à luz obras de autores reconhecidos apenas em sua região e mesmo daqueles em ascensão. Procuro ler livros já publicados e, às vezes, originais, de escritores de todos os cantos do Brasil. É uma literatura de qualidade que, no entanto, vive nos subterrâneos, o que é uma pena, pois poderia enriquecer mais a cena cultural. Em relação à literatura latino-americana, o seu espaço de difusão entre nós está aberto e vicejante há décadas, com a tradução de obras de autores de quase todos os países. Aqui, desde muito, podemos ler tanto aqueles que tradicionalmente apareceram com o boom da literatura latino-americana, quanto os mais novos, que não param de chegar. A via contrária é que não tem sido igualmente irrigada: a obra de autores brasileiros tem pouca capilaridade nas terras “hermanas”. Meu livro Espinhos e alfinetes saiu meses atrás no Uruguai. O volume do silêncio foi publicado na Espanha, Aquela água toda na Suíça, Aos 7 e aos 40 será lançado em breve na França. De forma esparsa, meus contos saíram em antologias em Portugal, França, Espanha, Inglaterra, Estados Unidos, Índia, Suécia, México, Croácia e Itália.  


8-Você se esparrama bem dentro dos ditos gêneros literários, em todos, mesmo sem assumir o poeta que você é, e o que me diz? tem desejo pelo livro de poesias...quem você costuma ler na contemporaneidade ? 
Eu acredito que uma arte é sempre contaminada por outra arte, e, assim também, não há um gênero literário puro. A fronteira entre eles se estreita cada vez mais. Grande sertão:veredas é um romance por onde corre o rio principal de uma história. Mas também é uma obra atravessada por pequenos rios-histórias, episódios que se constituem contos dentro do romance. Vida secas pode ser lido como romance, e, simultaneamente, volume de contos, uma vez que os capítulos são episódios secos e fazem sentido sem seus afluentes. Há dezenas de outros exemplos na tradição literária. A pentalogia Inferno Provisório, de Luiz Ruffato, pode ser lida como um conjunto de histórias que compõem um grande romance-móbile. Eu procuro vazar meus textos sem muita preocupação em definir o gênero, seja romance, novela, conto. Embora estejam abertos para o universo da poesia, são predominantemente prosa. Ou, talvez, sejam prosa de um poeta que não escreve poemas. Sou leitor constante de obras poéticas – aprecio em especial aquelas nas quais a poesia, misturada a outros gênerosse faz presente. Por isso admiro a obra de Borges, de Cortázar, de Clarice Lispector. O que eu costumo ler? Eu leio os clássicos, mesclando-os com obras de autores contemporâneos que me inquietam por vezes, justamente, pela impureza de seu gênero: as histórias de Alice Munro, por exemplo, parecem romances-bonsai; são contos, mas com a densidade e, em alguns casos, quase a extensão de romances. Outro exemplo: Fora do tempo, de David Grossman, é uma notável mistura de prosa, poesia e teatro.  

9-A experiência com o público infanto-juvenil como é e com tantas obras.. de onde veio a ideia de fazer literatura para esse público. 
Cito, mais precisamente agora, os versos de Pessoa, que antes mencionei: “Temos todos duas vidas:/ A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,/ E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa; A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,/ Que é a prática, a útil...” Pois então: às vezes, eu tenho desejo que essa segunda vida seja mais inventiva e lúdica, e, então, eu me transporto, engendrando histórias, para um outro território, que continua sendo meu, apesar de possuir outras linhas, nem sempre distintas daquelas expressas em meus textos “adultos” por assim dizer. A cada um de nós cabe embarcar num tipo de sonho para preencher essa segunda vida. Pela leitura e pela escritura, podemos escolher um sonho hoje, outro amanhã. No meu caso, optando por esse outro mundo, o sofrimento e a angústia de existir não desaparecem, mas dão espaço a certo júbilo e à fantasia.  

10-  Seu último romance e a poética Cabralina tem relações ? 
Sim, sou um amante da obra de João Cabral de Melo Neto; Morte e vida Severina foi uma de minhas matrizes para a elaboração do Caderno de um ausente. Busquei uma ordem inversa ao do poema, que começa com Severino encontrando a morte em seu caminho e, por fim, assistindo à chegada de uma vida. Também procurei inserir um segundo vetor ficcional na história. O narrador inicia seu caderno escrevendo sobre o nascimento de sua filha, logo após o seu parto, dando-lhe as boas vindas, mas também a lembrando que não se pode ocultar a morte ante a estreia de uma vida. No final do livro, o signo da morte se apresenta, mas traz consigo uma nova vida, ainda que dolorida.  
  
11-Obra ainda inédita, tem (? ), fale um pouco e tendo  mande pequeno trecho. 
Anos atrás, quando passei um período numa residência literária na Suíça, o Château Lavigny, terminei de escrever os contos de Espinhos e alfinetes e aproveitei para elaborar o projeto de um volume de minicontos. A ideia era produzir “histórias concentradas”, restritas a uma linha de texto, igual a um verso – e menor que um tweet. Eu queria me enveredar por uma tradição (dispersa) desse tipo de narrativa, como o fez Monterroso (Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá), Hemingway (Vende-se sapatos de bebê nunca usados) e Drummond (Stop. A vida parou ou foi o automóvel?), entre outros escritores. Perseguia um correspondente, na prosa, ao que representa o haicai para a poesia. Mas, por conta de outros trabalhos, mais urgentes, deixei o projeto em latência. Há alguns meses, retomei a ideia e a submeti ao programa Rumos Itaú Cultural. Esse projeto, chamado Linha única – como já disse, o desafio é escrever contos numa única linha –, foi selecionado e, então, comecei a desenvolvê-lo. Ao produzir as primeiras micro-histórias, percebi que se comportam como textos “acabados” (se bastam por si), mas também como “resumos” de narrativas que, no futuro, eu posso desdobrar para a extensão habitual de conto. Eis algumas “linhas únicas 


Duplo desfecho 
Tentou abortar com arame. Fim. 

Policial aposentado 
O que fazer com aquela vontade de matar? 

Chuva de verão 
Abri a janela – e me ensopei de paisagem.  

Dor 
A vida, sem anestesia. 

Piedade 
Vivia dizendo: cada um tem o nome que merece 

Fogo 
Acendeu meu desejo com o rastilho de sua língua.  

Fuga 
Saiu correndo. E tropeçou na voz dele. 



Veneno 
Uma gota. E tudo se diluiria. 

12- Como você analisa ou vê a criação literária e a poética como resultado de uma tensão na própria língua, na sua produção, digamos assim, segundo Deleuze e …onde você flagra este debulhar na sua obra, aonde vejo abrir um mundo de imagens que transmuta o próprio roteiro da narrativa…duas tardes..o vaso azul 
Para emoldurar uma emoção, ou seja, para criar literariamente um episódio que possa “afetar” o leitor de alguma forma, é preciso demarcarmos, como num desenho, os traços desse quadro onde a ação se desengloba. O ofício contínuo e consciente com a linguagem nos faz compreender quais são as cores, os detalhes, a perspectiva desse “instante” ficcional, se falamos de tempo, ou desse “mundo possível”, se preferimos realçar o espaço onde a história acontece, e, seja por nossa virtude, seja por nossa limitação, são essas cores, esses detalhes e essa perspectiva, até mesmo a leveza ou o peso de nossas pinceladas, os agentes determinantes da narrativa. Somos as limitações de nossa linguagem e, simultaneamente, o nosso progresso ao operá-la. O silêncio seria o ponto máximo, a perfeição, que a linguagem poderia alcançar. Mas, como é impossível realizarmos tal milagre, nosso fim é mesmo o verbo, embora não mais o do princípio.  

* Francisco Bicudopaulistano, 42 anos, é formado em Jornalismo ECA/USP-mestre em Ciências da Comunicação ECA USP.Professor Universitário Teoria Literária, Autor de vária obras, Colaborador da Revista FAPESPescreve também em seu blog pessoalwww.oblogdochico.blogspot.com