terça-feira, 17 de outubro de 2017

Olívia e seus tempos na música literária de Patricia Maês

Patricia Maês


Conhecer autores ao vivo, dialogar, sentir de perto a presença, por vezes afeta a percepção para as considerações críticas, ao menos para mim. Daí advindo elucubrações sobre a pessoa, do corpo presente, aferições várias e congeminações várias sobre a obra do entrevistado, daí ascende o imaginário que pescamos da sua presença. Muitas vezes não resulta em nada, o que não foi o caso. Sublinhe-se ainda que a autora é musicista e atriz. Esta matéria foi adiada por meses, talvez um ano, por questões editoriais de uma dada revista, que colaborava e que hoje já não circula.

Patrícia Maês passou-me um ar de plenitude e de uma escritora que parecia ficar escondida no sorriso, na postura, no som afetivo das palavras e no girar dos olhos, do corpo e de muito de afeto; assim devem aqui minhas considerações ser uma maionese frutal da presença da autora, e meu imaginário face à leitura da obra.

Como todo real é simbólico, viva a doce mentira da Literatura, portanto Tempos de Olivia - 2016, Curbzac, Recife PE - sua última obra, deixou-me um cheiro de mistério, que se desenrola a partir de uma espécie de crise criadora de uma dada escritora, claro, a personagem da obra, e ali se desenrola uma espécie de relato genético da criação, em que ascende a ansiedade, os questionamentos do estar, ser e para quê dizer?



Há uma espécie de diário existencial, o que faz a obra interessante pois ficamos com a dúvida - se é que fica de fato - se é uma biografia camuflada ou uma ficção. Bom, eu opto que toda obra tem um pé no imaginário de vida do sujeito mesmo com as palavras envergadas e tempos despistados; não criamos do nada, mas fiamos a malha literária liquidificando tudo. Eis uma obra a se ler com tato e com faro apurado.

A literatura  e  funções  


Sim, qualquer forma de arte tem função. Algumas manifestações constroem universos paralelos na subjetividade de quem aprecia, enriquece de referências para que se pense em si mesmo e no mundo. Outras são capazes até de destruir o que já há de subjetividade em uma pessoa, dependendo da violência com que uma linguagem muito pobre é imposta a essa pessoa e com que insistência. Esse é o caso da cultura de massa do momento, que é tão destituída de qualquer poesia e beleza que só colabora para dessensibilizar e empobrecer a capacidade cognitiva daqueles que estão expostos a ela. É tudo uma grande desconstrução, lamentavelmente.


A Escrita Início


Desde sempre escrevi minhas impressões sobre as coisas, fiz diários. Quando criança vivia cercada de livros e achava tudo aquilo muito interessante, sabia que podia significar diversão. Lia crônicas de Fernando Sabino, meu primeiro ídolo, e rolava no chão de tanto rir. Ele falava muito de seus amigos escritores nessas crônicas, e contava de seus encontros à tarde para um café, onde conversavam sobre o que faziam. Era o Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Hélio Pelegrino, e eu ficava tão fascinada com as histórias que imaginava que cresceria, iria morar no Rio como eles, e faria parte desses encontros. Eu nem atinava que com o tempo passando eles envelheceriam e morreriam. Depois acho que uma coisa definitiva foi ler, ainda na infância, o Érico Veríssimo. Peguei o livro “Música ao longe”, do meu irmão, e além de ter me identificado com a personagem jovem, percebi naquele final em que uma conclusão fica suspensa no ar - porque o autor não precisava dizer mais nada - o quanto era bonito lidar com essa sutileza, usar a linguagem escrita para sugerir tanta coisa às outras pessoas, pela simples criação de uma atmosfera através das palavras. Vi que era uma coisa poderosa.

 Música  participe. 


Sim, tudo o que vi nesses anos de formação foi muito decisivo, tanto na literatura como na música. Eu tinha acesso à discos de música erudita ao mesmo tempo que à música popular de todos os gêneros. Com isso fui criando naturalmente um discernimento entre o que tocava mais profundamente e o que não causava grandes alterações em mim. Na adolescência eu já escolhia com muito bom gosto meus caminhos, o que queria ir atrás e descobrir. As referências das minhas escolhas musicais são totalmente responsáveis pela construção do meu universo estético, e isso interfere na hora de escrever.


Ficção, o conto e o pulo 


Gosto da agilidade do conto, e fui experimentando esse tipo de texto ao mesmo tempo em que escrevia um romance, como uma espécie de trabalho paralelo para ter à mão coisas que me dessem um retorno mais imediato que o romance. Assim foi feito o livro “O céu é meu”.
Acho difícil responder o que não se projeta da autora na minha ficção, já que tudo o que escrevo de alguma forma me pertence, se não como experiência, pelo menos como modo de olhar as coisas da vida. O que posso dizer é que talvez não goste de fazer nada muito escancaradamente autobiográfico. Isso me incomodaria, pelo menos por enquanto.
Meus autores mais importantes são Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Goethe, Clarice Lispector, Proust, Virgínia Woolf, Lygia Fagundes Telles, Doris Lessing, e como já disse, o Érico Veríssimo. Fiz uma espécie de homenagem à Doris Lessing em Tempos de Olívia. O nome da mãe de Olívia é o nome da filha da personagem principal de “O verão antes da queda”, então Olívia é neta daquela mulher. E como autor vivo, para mim o maior é o Milton Hatoum.


A tessitura - e  pontos poéticos 
"quero escrever sob os céu se abrindo e dando aos quebradores as máximas   de pedras as máximas da santidade..Olívia pag 131 " 


Eu reconheço que há muita poesia na minha prosa, e acho que eu tento equilibrar isso um pouco para não transformar minha escrita em uma coisa hermética, algo assim. Por isso pode parecer que às vezes estou mergulhando em um pensamento totalmente poético e de repente fujo disso. Mas tem também muito a ver com minha formação musical. Eu escrevo como se estivesse fazendo música, sinto a melodia no tamanho das frases, nas pausas, e então é natural que eu mescle tudo com poesia, afinal também tem minhas referências das canções.
Escrevi Tempos de Olívia ao mesmo tempo em que escrevia contos, e apesar do conto oferecer um retorno mais imediato, porque ele pode ser mostrado, o romance me dá mais prazer. Gosto de lidar com o desenvolvimento da história no tempo, e o envolvimento com aquele universo durando, as personagens se transformando, fazendo parte dos meus dias.




*Patricia Maês é paulistana, do bairro da Aclimação, SP. Com formação musical, foi violinista em diversas Orquestras Sinfônicas em São Paulo nos anos 80 e 90, e lecionou violino. Atriz, participou do elenco no Centro de Pesquisas Teatrais de Antunes Filho. Dramaturga, realizou a montagem do espetáculo “Os ratos soltos na casa”, no qual além de autora foi também atriz. É letrista, parceira de vários compositores mineiros. Autora do livro de contos “O céu é meu”, em 2013, e do romance “Tempos de Olívia”, em 2016, ambos publicados pela Editora Cubzac. Patricia está  em processo de escrituração de um um novo romance.


Patricia Maês







Dramartugia

Os ratos soltos na casa – Peça teatral – 2007
O diário possível de Francesca Woodman – Peça teatral – 2015 (inédita)


Cinema

Leila e Lui – Roteiro longa metragem – 2001


Bibliografia


O céu é meu – Contos – 2013
Tempos de Olívia – Romance - 2016
Olímpia – (romance inédito)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Ascenso Ferreira :Um intelectual da poesia - a lírica do povo para elite poética.


Acervo Fundaj -Rec_Pe


Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!
Hora de trabalhar?— 
Pernas pro ar que ninguém é de ferro!
Publicado no livro Cana caiana (1939). 


Entra pra dentro, Chiquinha!
Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vaivocê acaba prostituta!
E ela:Deus te ouça, minha mãe...Deus te ouça !

Predestinação

Ascenso era uma figura poética ambulante, um boêmio que vivia nos versos e os dizia pelas ruas; caçava a poética do povo e sua sonoridade. Apesar de ser um marco da poesia Modernista, contestou o movimento, advindo de São Paulo, junto com Gilberto Freyre, de quem era muito próximo.
Também amigo de Assis Chateaubriand, foi com ele um dos colaboradores para criação do acervo MASP, apesar de um anonimato que historicamente impuseram a este fato. Conta o disse-me-disse que frequentava festas com Chatô, na capital paulista, onde, na ocasião, afanava obras de artes da elite e dizia, ao sair: “obrigado pela doação". Mas, acima de tudo, era um trem que puxava a sonoridade lexical do povo da canavieira nordestina, dando-lhe universalidade, apontando a poética da reinvenção da língua. Vale a pena ler a obra que é lançada pela CEPE. Aqui reproduzo reportagem do Jornal do Comercio Pernambuco lPaulo Vasconcelos 
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Por JC RECIFE PE (http://bit.ly/2y5oiiK)

Poesia de Ascenso Ferreira finalmente está de volta às livrarias

Com seleção de versos editada pela Cepe, o poeta busca ser reconhecido para além do folclore da sua figura
Nome: Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira Cordeiro Muniz Falcão Veloso de Carvalho. Nasceu em 1895 em Palmares (Pernambuco). – Altura oficial, 1,96. – Pesa 116 quilos em jejum. (...) – Seu prato predileto: pitu de coco. – Se pudesse emendar todos os charutos que tem fumado daria a volta ao mundo. (...) – É louco por música de toda espécie, desde a pancada do ganzá, batuques, sino, até o piano. (...) – Acredita piamente e já viu muitas assombrações. – Adora o Recife pelo sentido sensual de sua vida.”

Um dos principais poetas do nosso modernismo, o pernambucano Ascenso Ferreira se descrevia assim em uma antológica entrevista dada ao jornalista caruaruense João Condé. Tão famoso como alguns dos seus versos – especialmente Trem de Alagoas – era sua figura de homem alto, corpulento e da voz grossa, protagonista e colecionador de histórias quase folclóricas. Um dos homenageados pela Bienal do Livro de Pernambuco deste ano, o escritor é celebrado neste domingo em um show-recital com Isaar França e Maciel Salu, a partir das 16h, no Centro de Convenções.

Durante o evento, a Cepe Editora também aproveita para reparar uma injustiça do mercado editorial brasileiro: a ausência quase total da obra de Ascenso nas prateleiras de livrarias. Na Bienal, acontece o lançamento de Como Polpa de Ingá Maduro: Poesia Reunida de Ascenso Ferreira, com organização da pesquisadora Valéria Torres da Costa e Silva.

Além de uma seleta da poesia do autor, a obra busca enxergar Ascenso fora do local em que o senso-comum o colocou, como um mero poeta do “anedotário”, tentando desconstruir “a folclorização do poeta e a regionalização da sua obra”. Na apresentação do volume, Valéria lamenta não só a pouca circulação do poeta atualmente, mas também a pequena fortuna crítica produzida sobre ele. São, segundo ela, “raros os textos que procuram estudar, ler, interpretar e revelar seu universo poético”. “Diria mais. O melhor da fortuna crítica da poesia de Ascenso foi escrito há pelo menos 50 anos, com raras exceções”, defende.

Não é por acaso: o conterrâneo Manuel Bandeira admirava muito mais que a temática da sua poesia, mas a capacidade de fundir discursos poéticos sem fazer “nenhuma emenda”. 
O modernista paulista Mário de Andrade foi mais longe. “Depois que as personalidades dos iniciadores se fixaram, só mesmo Ascenso Ferreira com este (livro) Catimbó trouxe pro modernismo uma originalidade real, um ritmo verdadeiramente novo”, escreveu.

Como Polpa de Ingá Maduro mostra a obra de Ascenso a partir de três recortes: o da tradição e da modernidade; o do cotidiano; o do amor. Trata-se de um belo e importante resgate de obra do autor, não a partir somente de seus temas e de diálogo com a oralidade, mas especialmente ressaltando como tudo isso compunha uma forma de expressão poética original. Como Valéria enfatiza, em Ascenso, “estamos diante de uma poética da sensualidade” – e as “caboclas viçosas de bocas pitangas”, “mulatas dengosas caju e cajá” e “mulheres brancas como açúcar de primeira estão lá para mostrar sua paixão.

On line 
http://bit.ly/2y5oiiK

*Poeta pernambucanoAscenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu na cidade de Palmares no ano de 1895. Dizem que começou a atividade literária enganado, compondo sonetos, baladas e madrigais. Depois da "Semana de Arte Moderna" e sob a influência de Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira e de Mário de Andrade, tomou rumos novos e achou um caminho que o conduziria a uma situação de relevo nas letras pernambucanas e nacionais. Voltou-se para os temas regionais de sua terra que foram reunidos em seus livros  "Catimbó" (1927), "Cana caiana" (1939), "Poemas 1922-1951" (1951), "Poemas 1922-1953" (1953), "Catimbó e outros poemas" (1963), "Poemas" (1981) e "Eu voltarei ao sol da primavera" (1985). Foram publicados postumamente, em 1986, "O Maracatu", "Presépios e Pastoris" e "O Bumba-Meu-Boi: Ensaios Folclóricos", em livro organizado por Roberto Benjamin. Distingue-se não pela quantidade, mas pela qualidade, atingindo não raro efeitos novos, originais, imprevistos, em matéria de humorismo e sátira. O poeta faleceu na cidade do Recife (PE), em 1965.
http://bit.ly/2z7JaWN