quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Uma amostra da nova poesia brasileira

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Trópico

Uma amostra da nova poesia brasileira

Rodrigo Petronio
É mestrando em literatura espanhola na USP e autor de "História Natural" (poemas, selo Gargântua) e "Transversal do Tempo" (ensaios, Imprensa Oficial de Pernambuco, no prelo).


É grande a dificuldade de se fazer uma antologia como “Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil” em um país tão carente de debate sobre poesia como o nosso. É um tipo de trabalho que acaba sempre gerando polêmicas e muitas vezes chama a atenção menos por seus méritos e mais para seus lapsos ou para inadequações garimpadas por especialistas.

“Na Virada do Século”, organizada por Claudio Daniel e Frederico Barbosa, faz parte de um projeto mais amplo, na verdade. Integra um conjunto de livros que abrange a poesia que vai de Anchieta a Augusto dos Anjos, em um primeiro volume, já publicado, e a que vem do modernismo e chega aos anos 70, em Paulo Leminski e Sebastião Uchoa Leite, em um segundo volume, ainda inédito.

Os poetas selecionados nesse terceiro volume estão unidos pelo fato de terem iniciado sua atividade literária por volta dos anos 80 e 90, à exceção de alguns poucos, que, já publicados antes dessas décadas, só nelas tiveram tiragens maiores e maior atenção da crítica.

Há algum tempo a editora Landy vem se destacando por investir em títulos muitas vezes de circulação restrita, com projetos gráficos diferenciados. Assim, lançou as “Cartas Filosóficas”, de Voltaire, e “Forças Estranhas”, conjunto de contos do excelente Leopoldo Lugones, infelizmente um tanto esquecido pelo cânone literário.

“Na Virada do Século” é composto de 46 poetas de vertentes e procedências diversas, não havendo um predomínio exclusivo de Rio de Janeiro e São Paulo. Quanto aos critérios de escolha, os organizadores optaram por autores que, segundo eles, tivessem uma obra poética inventiva e de qualidade, ambos critérios que contribuem também para fornecer certa unidade à gama de tendências de seus integrantes.

Há, no entanto, uma série de linhas de força a partir das quais podemos agrupá-los. Ricardo Aleixo e Antonio Risério partem do substrato negro e da mitologia africana presente nos orikis para a composição de seus cantos, ao passo que Carlito Azevedo e Claudia Roquette-Pinto, recentemente premiada com o Jabuti por seu livro “Corola” e uma das presenças mais interessantes do livro, seguem o caminho da pesquisa formal e da poesia construtiva.

A vertente construtiva se espraia também em Eduardo Sterzi, Ronald Polito, Tarso de Melo, Kleber Mantovani e Fabiano Calixto, embora com certas variantes de dicção que exploram mudanças de sentido de caráter minimalista. Já em um caminho oposto se encontram os poemas fortes e vociferados de Ademir Assunção, Joca Reiners Terron, Ricardo Corona e Rodrigo Garcia Lopes, que retomam o repertório da beat generation e da contracultura para compor uma poesia de apelo visual acentuado e de desarticulação sintática.

Os dois organizadores também estão presentes na antologia. No prefácio, justificam tal inclusão como uma escolha recíproca um do outro e, a despeito do que essa iniciativa possa gerar de temeroso, dizem que isso é o resultado de uma confiança mútua nos critérios críticos e no valor poético de cada um deles.

A poesia de Claudio Daniel, 40, autor de “A Sombra do Leopardo” (Azougue), transita entre referências a filosofias orientais e à estética neobarroca cubana, explorando a capacidade plástica da linguagem e das imagens, enquanto a de Frederico Barbosa, 41, autor de “Nada Feito Nada” (Perspectiva), traduz a experiência árida da vida metropolitana em uma linguagem poética que se torna cada vez mais sugestiva. E talvez seja a sugestão, a metáfora em alto grau de condensação, o fio condutor de todas essas poéticas da atualidade, já que esse é o traço marcante da maior parte da poesia que tem sido produzida.

Os poemas de Donizete Galvão, outro ponto alto da antologia, partindo de uma temática ligada à terra, aos objetos cotidianos, à memória e aos resíduos do tempo, arranja esse mundo mudo, que Francis Ponge classificou como a única pátria do homem, a partir de um tratamento muito acurado da linguagem e um olhar certeiro. Já Glauco Mattoso exibe seu riso ácido e indefectível em uma seleção de poemas que contém muitos traços de sua produção literária até hoje.

Um dos nomes a ser destacado é o de Antônio Moura, que domina bem o ritmo, recortando o verso de maneira muito peculiar. Há também o de Contador Borges, discípulo de René Char e dono de uma imagética muito pessoal, e Maurício Arruda Mendonça, poeta que consegue guiar o olhar do leitor na sua vertigem de imagens.

O livro conta com um espaço especial para os poetas inéditos, ou seja, aqueles que não têm livros impressos mas que já publicaram poemas em revistas literárias, coletâneas ou na Internet. Dentre eles se destacam sobretudo André Dick e Micheliny Verunschk.

Em tempo, algumas justiças sejam feitas. A inclusão dos poetas Cacá Moreira de Souza e José de Paula Ramos Jr. e a omissão de nomes como Augusto Massi, Heitor Ferraz e Fábio Weintraub, entre outros, nos induz a pensar que a balança guiada pelo binômio invenção-qualidade pesou sem muita justificativa em favor do primeiro critério. Porque a qualidade não precisa necessariamente estar associada a esse conceito de pesquisa formal que os organizadores relevaram na escolha dos nomes, e não raras vezes é possível encontrar uma aparente radicalidade formal cujo único objetivo é camuflar propostas vazias de interesse e ornamentar concepções poéticas que são, em sua essência, fracas e rebarbativas. Aqui parece que as divergências estéticas prevaleceram sobre o bom senso, o que é de se lamentar.

A antologia poética de Claudio Daniel e Frederico Barbosa pode ser vista apesar disso como um bom recorte. Isso não nos impede, como é de praxe ocorrer, de enfileirarmos uma série de novos nomes e fazermos nossa reivindicação, pois se o mérito da iniciativa se esgotasse em si mesmo, não haveria ressonâncias e debate, ou seja, boa parte de seu valor se perderia.

Por que não Paulo Ferraz, Fabrício Corsaletti e Chantal Castelli, que estão despontando agora, já têm livros publicados e um trabalho bastante sólido? Por que não Dirceu Villa e Cídio Martins, as vozes mais fortes da poesia nascente? Fica a crítica em forma de sugestão, para uma edição futura dessa obra ou para outras possíveis antologias que apareçam por aí.


Na Virada do Século – Poesia de Invenção no Brasil é o terceiro volume de um projeto editorial maior. Falem um pouco desse projeto.

Claudio Daniel: Existe um livro sedutor, chamado Cinco Séculos de Poesia, que apresenta uma mostra da poesia clássica brasileira, desde Anchieta até Augusto dos Anjos. Este livro foi organizado pelo poeta Frederico Barbosa, que, além de sua obra pessoal como criador, tem se dedicado também à crítica literária e ao trabalho de editor de textos como os Sermões de Vieira e a poesia de Camões, publicados pela editora Landy. Pois bem, no prefácio a Cinco Séculos, o autor fez uma promessa: continuar a antologia, publicando mais dois volumes, um dedicado à poesia brasileira do período entre o modernismo e os anos 70, e um outro enfocando a produção contemporânea, do final do século 20.

Pois bem, como eu estava organizando, também, uma seleção de poetas recentes, foi até natural o nosso encontro, que permitiu juntarmos esforços para realizar o segundo livro da trilogia, que é Na Virada do Século. Trabalhar com Fred, que hoje além de parceiro intelectual é meu amigo, foi algo muito prazeroso, e certamente aprendemos muito um com o outro. Enfim, esse foi um trabalho empolgante, que agora oferecemos aos leitores e aos críticos, e sobretudo ao tempo, que, como diz Fred na sua introdução, é o maior de todos os críticos literários.

Frederico Barbosa: O projeto tem inspiração no trabalho de antologistas do passado, como Manuel Bandeira, Sérgio Buarque de Holanda e Andrade Muricy. Inicialmente pretendi, com o livro Cinco Séculos de Poesia, apresentar uma seleção dos grandes poetas brasileiros anteriores ao modernismo. A idéia foi incluir os poemas mais canônicos, assim como aqueles mais inventivos, que muitas vezes não são os mais conhecidos, de poetas como Gonçalves Dias, Olavo Bilac ou Álvares de Azevedo.

Pretendia continuar o projeto com a poesia do modernismo, mas é uma empreitada por demais trabalhosa, mesmo porque há de se negociar direitos autorais com famílias por vezes bem pouco receptivas etc. Ao conhecer o Claudio Daniel, descobri que ele fazia uma antologia dos anos 90. Resolvemos, então, juntar nossos esforços para fazer Na Virada do Século. Sem o Claudio, esse volume não seria possível. Aprendi tanto com ele, que já o convidei para organizar o volume do modernismo comigo. Além disso, a Landy, por sugestão minha, vai publicar livros de poetas e prosadores contemporâneos brasileiros e portugueses. Creio que será uma coleção muito significativa.

Quais foram os critérios adotados para selecionar os poetas e os poemas? E a pesquisa do material, como foi feita?

Daniel: Paixão e rigor, gozo sensual e reflexão sobre a escritura estão presentes em qualquer trabalho com a criação poética. Não é possível haver “neutralidade”, nem uma suposta objetividade científica, sobretudo em antologias, que são recortes parciais da produção de um período. Há método e normas, há critérios e um trabalho meticuloso, mas que andam de mãos dadas com a intensidade, a cumplicidade, o envolvimento com os autores e textos selecionados.

Quando Fred e eu resolvemos nos lançar à aventura de organizar Na Virada do Século, partimos de algumas pistas iniciais: queríamos mostrar o que havia de mais criativo e inovador na poesia brasileira mais recente, produzida nos anos 80 e 90, e não apenas no habitual eixo Sul-Sudeste, mas também em outras regiões do país, para dar uma abrangência nacional à mostra. De fato, comparecem autores como Antônio Moura, do Pará, Micheliny Verunshk, de Pernambuco, Antônio Risério, da Bahia, André Dick, do Rio Grande do Sul, e muitos outros nomes e estados.

Porém, não concordamos, de maneira nenhuma, com pressupostos da teoria dos gêneros. Não incluímos nenhum autor apenas por ser negro, judeu, mulher ou homossexual; julgamos textos e processos criativos, e não características biológicas ou pessoais. Houve um critério rigoroso, com certeza, na avaliação dos trabalhos, que privilegiou poetas comprometidos com a experimentação estética, com a invenção, ainda que não filiados a uma única concepção ou escola.

Há abrangência e multiplicidade em nossas escolhas, que incluem autores que partiram do neobarroco, da “Language poetry”, da poesia marginal e de outras vertentes estéticas, mas excluímos, de maneira programática, as linhas mais conservadoras, como o neoparnasianismo, que estão fora de nosso campo de interesse. Por outro lado, embora o livro privilegie autores que estrearam nos anos 80 e 90, achamos oportuno, também, incluir alguns poetas que, embora tenham estreado nos anos 70, com livros de pequena tiragem e custeados pelos próprios autores, só obtiveram fortuna crítica mais recente: é o caso de Antônio Risério, Glauco Mattoso e Júlio Castañon Guimarães.

A pesquisa foi realizada em anos de leitura, não só dos livros de dezenas ou centenas de poetas, mas também de revistas e sites de literatura que surgiram no período. Reunimos, ao todo, 46 poetas numa antologia que vem mostrar a falácia de certas premonições de sibilas do apocalipse, que não se cansam de repetir o refrão de que não há nada de novo na poesia atual. Certamente, muitos não vão gostar da escolha dos nomes, dizendo que faltaram este ou aquele, mas não é possível agradar a gregos e baianos, felizmente.

Barbosa: Gostaria de acrescentar que toda escolha é passível de revisão. Mesmo sendo, como a nossa, pautada por critérios poéticos e não pessoais, como ocorre em muitas que rolam por aí, especialmente aquelas “para inglês ver”. Já vi até um certo antologista de incrível caráter que, depois de brigar com alguns poetas por ele incluídos numa antologia dessas, resolveu eliminá-los de futuras edições. Pode? Como nunca se poderá conhecer toda a produção poética de um país tão cheio de poetas como o Brasil, é óbvio que muita coisa boa acaba ficando de fora.

Já descobri, desde que fizemos o livro, alguns poetas bem interessantes que poderiam muito bem constar da antologia, como o paraibano André Ricardo Aguiar. Além disso, falta, na seleção, exemplos da poesia visual, de autores como Avelino Araújo, de Natal, ou mesmo de autores presentes na seleção, como Arnaldo Antunes, Antonio Risério e João Bandeira. Foi uma opção editorial. Mas espero publicar, logo, uma antologia integralmente voltada para a poesia visual.

Na introdução do livro, vocês dizem que dois critérios fundamentais para a seleção dos autores foram a inventividade e a qualidade. Esses critérios não se chocaram, já que há uma série de autores que têm qualidade mas não se filiam tão explicitamente a esse conceito de invenção que vem das vanguardas e, mais especificamente, da poesia concreta?

Daniel: Confesso que não tenho o menor interesse pela poesia bem comportada, convencional e canônica, pela lírica de “estrelas alfa” e “virgens cem por cento”, de que falava o Manuel Bandeira. Prefiro o “poema sórdido”, assim como o mestre pernambucano. Gosto de poemas de alto impacto, que me levem a nocaute. E a poesia que me surpreende, fascina e encanta é aquela que trabalha com a linguagem da maneira mais radical, rompendo com as normas lineares do discurso e da sintaxe, renovando o léxico e os códigos de referências simbólicas.

Essa vertente poética, sem dúvida, dialoga com aspectos da poesia concreta, do tropicalismo, mas sem ficar restrita aos postulados do “Plano Piloto”. Os poetas da nova geração, que reunimos nesta antologia, têm múltiplas filiações e pesquisas culturais e lingüísticas. Temos desde poetas como Josely Vianna Baptista, que faz uma interessante releitura do neobarroco, até Tarso de Melo, que busca a síntese e a estranheza a partir da visão incomum sobre o cotidiano; para não falar de Rodrigo Garcia Lopes e Ademir Assunção, que incorporaram influências da música pop, do cinema, das histórias em quadrinhos e outras mídias, ou de Ricardo Aleixo, que fez pesquisas sobre o oriki, o poema-ritual de origem africana.

Dizer que todos esses autores são “concretistas” seria um ledo e ivo engano. São jovens que pesquisam, insatisfeitos com a banalidade da mídia, novas modalidades de criação. Isto, para mim, é poesia. É a poesia que faz sentido hoje.

Barbosa: Qualidade sem inventividade não é arte, é burocracia, é papo furado, papo de otário. O conceito de “invenção” não foi criado pelas vanguardas, muito menos pela poesia concreta. Invenção é tudo na poesia, desde Homero. O resto é conversa para boi dormir, picaretagem.

O papel das revistas é fundamental, sobretudo para os iniciantes. Vocês acham que há no Brasil uma boa cultura de meios de divulgação, como revistas especializadas, jornais, sites e editoras?

Daniel: Poesia no Brasil sempre foi mercadoria de contrabando. Somos todos passageiros clandestinos, que insistem em escrever poemas e mais poemas, quase sempre à margem da imprensa diária, da televisão, da universidade e, muitas vezes, até do mercado editorial. Por quê? É difícil saber. Talvez seja uma doença, ou um vício. O fato é que os poetas da nova geração organizam recitais, criam fanzines, sites e revistas de literatura, como Medusa, Monturo e Babel para fazer circular a sua produção, ainda que na contracorrente.

A internet contribuiu, talvez, para levar a poesia a um público mais amplo, e hoje existem sites de ótima qualidade, como Popbox, Caos e o site do próprio Frederico Barbosa. Acredito que todas essas publicações e páginas virtuais, assim como as antologias, com as suas possíveis lacunas e desníveis de realização, constituem registros ou documentos consistentes daquilo que fomos capazes de criar.

Barbosa: A divulgação da literatura produzida no Brasil hoje é péssima. A grande imprensa dedica seu pouco espaço a best sellers como Harry Potter, a livros idiotas escritos por adolescentes que vão ao shopping ou mesmo ao trabalho de certos críticos universitários caquéticos que não fazem mais do que reproduzir velhos conceitos ultrapassados e incapazes de dar conta da produção contemporânea. Ao contrário do Claudio, eu tenho enorme desconfiança mesmo da revistas de poesia. Em geral representam “clubinhos” e seus editores se pautam por critérios totalmente pessoais. Escrevi até um poema sobre o assunto, que vai aí em primeira mão:

ação entre amigos

dois ou três poetas
– medíocres –
montam revista

são donos do mundo:
– abrimos as portas!

seus amigos
batem palmas

lá fora
ninguém ouve
seus vivas
ninguém os lê

lá fora
é só tiro
só desgraça
raiva e vaia

mas
dois ou três poetas
– medíocres –
batem palmas

seus amigos
são donos do mundo
montam revista

batem-se palmas...
batem-se palmas...
batem-se palmas...

Qual é a importância da cultura e da erudição para um poeta?

Daniel: Creio que a importância da cultura para o poeta é a mesma que para o cidadão em geral, ou seja, contribuir para formar a sua visão de mundo, e portanto sua cidadania e liberdade de escolha, a partir do conhecimento histórico e das realizações artísticas e intelectuais que marcaram o nosso planeta. Para o trabalho poético, as referências culturais podem ser interessantes como sugestões de temas, ou para a escolha de palavras, formas ou citações, mas isso não é essencial para se fazer um bom poema, que pode ser tão simples e profundo como “velha lagoa / salta uma rã / rumor de água”, do poeta-samurai Matsuo Bashô...

Por outro lado, nos últimos anos, podemos notar, na poesia de nossa geração, um excesso de referências cultas, e muitas vezes o resultado é algo artificial e afetado, uma espécie de maquiagem de drag queen. É preciso ter cuidado com as citações, com os diálogos intertextuais, para que eles não se sobreponham ao olhar do próprio poeta sobre as coisas; sobretudo, em minha opinião, deve haver sinceridade no texto poético, mesmo quando o autor está mentindo, já que o ofício do camaleão faz parte da escritura e das obsessões de qualquer escritor ou artista. É preciso sinceridade na verdade, e ainda mais na mentira.

Barbosa: É isso aí. Cultura e erudição são fundamentais para qualquer ser humano. O que é lamentável é a ostentação de cultura, em geral feita por pessoas que a têm apenas como verniz. Na poesia é a mesma coisa. Estou farto de poetas “novo cultos”, para os quais a poesia é um veículo de esnobismo cultural.

Heidegger escreveu O Que É Metafísica? e Sartre, O Que É Literatura?. Se fosse pedido a vocês um livro desse gênero, o que diriam em linhas gerais? Ou seja, o que é poesia?

Daniel: Poesia, para mim, é encantamento. É surpresa. Transformar as palavras em música orgânica, em pinturas vivas. O bom poema, como dizia Huidobro, é um pequeno universo, com sua própria fauna e flora, e não um eco ou reflexo de algo exterior à sua própria lógica semântica e estrutural. A poesia é a arte da resistência à banalidade, pois o poeta não se conforma à monotonia do cotidiano, à repetição mofada de ícones da indústria cultural, enfim, a uma suposta realidade, previsível e vulgar. Ele prefere dizer não a uma ordem carcomida e construir novas possibilidades de uma realidade alternativa, através de seus poemas.

O poeta é um criador de realidades; pelas relações inusitadas entre as palavras, ele articula novas formas de pensamento, e logo novos modelos de mundo. Esse é o potencial subversivo da linguagem, é a sua ação política. Quando você apenas reproduz formas de escritura petrificadas, ainda que abordando temas “sociais”, não estará fazendo nada além de reproduzir os modelos de idéias vigentes na sociedade.

Ao romper com esses padrões e propor outros modos de comunicar idéias e sensações, o poeta não está conduzindo uma insubordinação aparente, mas uma transformação profunda, que produz novos conteúdos, numa rebelião contra o banal imediato e o lugar-comum. Os poetas que me interessam atuam nessa linha, como Maiakóvski, Blake, Rimbaud, Augusto de Campos, entre muitos outros de diferentes épocas, climas e latitudes.

Muito do que nasceu sob o signo da ruptura e do experimentalismo já foi assimilado pela indústria cultural. A subversão da linguagem, em arte, ainda tem um significado político?

Daniel: Acredito que exista uma tensão permanente entre a arte e a sociedade. Cabe ao artista questionar, sempre, as formas viciadas de viver, sentir e pensar, refletir criticamente sobre o estabelecido, e não se pode cumprir esta missão por meio de formas estéticas convencionais, como o realismo. É preciso criar sempre novos instrumentos de guerrilha cultural, pois não é possível questionar estruturas sociais sem colocar em xeque também o mecanismo do pensamento e a linguagem que são produzidos por essas mesmas estruturas.

Como dizia o poeta russo Vladimir Maiakóvski, “sem forma revolucionária, não existe arte revolucionária”. É claro que a indústria cultural se alimenta da subversão que produzimos: tudo aquilo que foi sinal de inconformismo nos anos 60, como por exemplo o rock and roll e a revolução sexual, já foi incorporado à telinha da Globo.

É a maneira que o sistema encontra para renovar a sua própria linguagem e conteúdos, para fortalecer e ampliar seu domínio e, ao mesmo tempo, esvaziar o potencial demolidor das vanguardas, diluir ou amortecer o seu impacto. Estamos jogando xadrez com um adversário muito inteligente, e nossa tarefa é criar cada vez mais dificuldades para que ele tenha dificuldade em assimilar e processar esses dados e, um dia, quem sabe, entre em curto-circuito.

Valorizar o novo: não seria isso um velho modismo?

Daniel: E valorizar o velho, seria um novo modismo? Vou te contar uma história: quando li o poema Tudo Está Dito, do Augusto de Campos, aos 18 anos, confesso que senti uma profunda angústia. Pensei: depois disso, o que é possível fazer? Depois, quando li o Finnegans Wake, do Joyce, senti a mesma coisa em relação à prosa: caramba, esse sujeito explodiu a linguagem, e não dá para escrever mais nada. Creio que muitas pessoas de minha geração sofreram impacto semelhante.

Claro, nessa situação, só há duas saídas possíveis: ou você recusa o caminho da invenção e faz o retorno a formas fáceis, canonizadas pela tradição, para fugir ao problema, fazer de conta que ele não existe, como o marido traído que tira o sofá da sala, para tentar evitar o adultério; ou por teimosia e resignação prossegue na vereda experimental, buscando sempre outras possibilidades de escritura, sem esperança e sem temor.

Para quem prefere o retorno ao passado, há muitas facilidades disponíveis: é possível escrever sonetos, com métrica e chave de ouro; imitar os românticos, usando retórica, palavras arcaicas e imagens helenizantes; ou fazer versinhos bem simplesinhos (que bonitinhos!), à maneira de certo modernismo. Sinceramente, prefiro continuar a investigar repertórios e autores que têm alguma coisa nova a dizer do que trilhar estradas gastas. Há poetas hoje que, a partir do construtivismo, da contracultura e de outras referências contemporâneas estão obtendo excelentes resultados, como o Joca Reiners Terron, que publicou Animal Anônimo, ou a Jussara Salazar, que faz livros artesanais como Jardim de Retratos.

Às vezes tenho a impressão de que há muito sectarismo nas letras: troca de favores e defesa de grupos mais do que debate de idéias.

Daniel: Acredito que o debate de idéias faz falta, sim, em nossa vida literária. Hoje, temos poetas que assumem concepções estéticas e filosóficas bem distintas uns dos outros, o que poderia levar a discussões interessantes no âmbito universitário ou na imprensa. Porém, o que predomina, como você mesmo diz, é esse sectarismo, que recorda a adesão a esse ou aquele time de futebol ou escola de samba.

Por um lado, isso é positivo, já que não se faz poesia sem paixão, mas, por outro, pode levar a uma visão distorcida e preconceituosa das coisas. Esse tipo de disputa ou contenda, porém, não é nenhuma novidade na história da literatura. No prefácio ao Serafim Ponte Grande, que é um grande documento de nossas letras, Oswald de Andrade já se referia aos poetas que “trocavam tiros entre rimas”. Também na Comédia de Dante podemos notar que o poeta incluiu no inferno alguns de seus desafetos.

Creio que o artista, até por sua psicologia, já analisada por Jung, assume muitas vezes atitudes narcísicas, que podem levar a toda sorte de equívocos, grosserias e atitudes intolerantes, daí a necessidade do constante exercício do bom senso e da autocrítica. Porém, se o sectarismo e a intolerância são males que precisam ser evitados, creio ser ainda mais nociva a postura de uma suposta “neutralidade”, como bem diz o Fred, pois, na maioria das vezes, essa atitude apenas mascara a adesão aos cânones vigentes, ou seja, uma acomodação a pretensas verdades estabelecidas.

Prefiro definir às claras aquilo que penso, sem meias palavras, do que fingir imparcialidade. Em poesia, em arte, não é possível ser imparcial: você defende uma estética, uma visão de mundo, que inevitavelmente entram em choque com outras opiniões. Porém, uma coisa é o debate, a divergência, outra coisa são insultos ou ataques pessoais: vamos discordar, polemizar, mas sem perder a civilidade e (por que não?) a amizade com aqueles de quem discordamos.

Barbosa: Debate de idéias? Onde? Há mais debates de idéias nos espetáculos de luta livre. Não só não se discutem idéias, nesse país, como alguns pseudocríticos chegam até a defender a ação dos “grupinhos” de amigos que se espalham por aí como saúvas.

Na número 53 da revista “Cult”, por exemplo, saiu uma resenha de uma coleção de livretos publicados pela editora 7Letras. Assina-a uma espécie de conselheiro Acácio (leia-se “O Primo Basílio”, do Eça) com pendor poético de Wando -sim, o colecionador de calcinhas-, o senhor Fábio Weintraub, ele mesmo membro de um grupo especializado em se autodefender com veemência, atacando qualquer um cuja inventividade pareça-lhe ameaça à sua mediocridade avassaladora, capaz de escrever frases brilhantes e precisas como: "Bastando orvalhar alguns de seus fios para indicar a sinergia que há por trás de semelhante empreitada, fato, por si só, digno de nota em tempos de fragmentação e entropia".

Para júbilo do crítico, essa nova coleção de opúsculos “se trata de uma ação entre amigos”, que, sempre acaciano, o resenhista denomina de “trabalho que floresce a partir do pequeno círculo de sociabilidade constelado em torno da editora 7Letras...”. Pode? É a defesa explícita dos grupos e da troca de favores. Pois são exatamente esses membros de grupelhos que se dão bem nesse país. Lima Barreto já via e sentia isso muito bem. Não creio que o pior sejam os insultos.

Acho fundamental que as pessoas briguem e até se agridam na defesa das suas idéias. Considero o “pacifismo intelectual” uma atitude bovina e mediocrizante. O insuportável é que os pseudocríticos só elogiam ou xingam para defender seus interesses pessoais. O pensamento em geral é : “Não vou ofender fulano porque posso precisar dele depois” ou “vou atacar sicrano para me dar bem com aqueles outros que são seus inimigos”. E por aí a coisa vai. Se tudo é assim nesse país, por que na poesia seria diferente?

O que falta à literatura brasileira?

Daniel: Eu acredito que a literatura brasileira, hoje, é uma das mais interessantes do mundo. Temos autores do nível de Augusto e Haroldo de Campos, Sebastião Uchoa Leite, Wilson Bueno, Josely Vianna Baptista, Júlio Castañon Guimarães, Nelson de Oliveira, para citar poucos nomes, e só de escritores vivos (se fossemos recorrer ao passado, um Machado de Assis, que para mim não é inferior a Balzac ou Flaubert). Não faltam os bons autores, nem os bons livros.

O que precisamos é de melhor distribuição nas livrarias e de maior divulgação na imprensa e na mídia eletrônica, em especial. Por que não há programas de literatura, na televisão, para o público jovem? Além disso, creio que o ensino de literatura nas escolas deveria incluir, também, aquilo que se faz hoje, para que os alunos vejam que a poesia não é apenas algo (em geral chato) que aconteceu no passado, mas que é algo vivo, que está ocorrendo no presente, à nossa volta. Aproximar o jovem do livro é algo fundamental, e, nesse sentido, creio que seria interessante, também, haver algum tipo de programa que leve os escritores até as escolas. Porém, o Brasil carece de uma política cultural mais eficiente, o que sem dúvida nos levaria a um outro tipo de discussão, para além dos limites desta entrevista.

Barbosa: Nada falta a uma literatura que teve Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Drummond e João Cabral, entre outros. Ou que tem hoje Sebastião Uchoa Leite, Augusto e Haroldo de Campos. O que falta a muitos escritores e principalmente críticos brasileiros é coragem e caráter.


Os poetas da antologia

Ademir Assunção
Anelito Oliveira
Amada Ribeiro Neto
André Dick
Angela de Campos
Antonio Moura
Antonio Risério
Arnaldo Antunes
Cacá Moreira de Souza
Carlito Azevedo
Carlos Ávila
Claudia Roquette-Pinto
Cláudio Daniel
Cláudio Nunes de Morais
Contador Borges
Donizete Galvão
Eduardo Sterzi
Elson Fróes
Fabiano Calixto
Fabrício Marques
Frederico Barbosa
Glauco Mattoso
João Bandeira
Joca Reiners Terron
Jorge Lúcio de Campos
Jorge Padilha
José de Paula Ramos Jr.
Josely Vianna Baptista
Júlio Castañon Guimarães
Jussara Salazar
Kleber Mantovani
Lau Siqueira
Luiz Roberto Guedes
Matias Mariani
Maurício de Arruda Mendonça
Micheliny Verunschk
Paulo César de Carvalho
Reynaldo Damazio
Ricardo Aleixo
Ricardo Corona
Rodrigo de Souza Leão
Rodrigo Garcia Lopes
Ronald Polito
Sergio Cohn
Takeshi Ishihara
Tarso de Melo



O livro:

Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil. Editora Landy (tels. 11 3088-4776/ ou 3081-4169 ou 3891-0840, 348 págs., R$ 35,00.




Rodrigo Petronio
É mestrando em literatura espanhola na USP e autor de "História Natural" (poemas, selo Gargântua) e "Transversal do Tempo" (ensaios, Imprensa Oficial de Pernambuco, no prelo).

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