quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Santa Cruz de la Sierra vive tensão à espera de marcha camponesaRodrigo Bertolotto



Testigo. Mario Cossío entregó anoche al cardenal Terrazas una copia del acuerdo con el Gobierno.


Avance. El prefecto de Tarija, Mario Cossío, firmó anoche, en representación del Conalde, el documento en el que acordaron con el Gobierno las bases de la pacificación y del diálogo, que comienza mañana














Santa Cruz de la Sierra vive tensão à espera de marcha camponesaRodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL Notícias
Em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
"Não aceitem provocações" é o mantra dos políticos de Santa Cruz de La Sierra. A recomendação foi dada pelo governador do Departamento (Estado), Rubén Costas. E repetida por Branko Marinkovic, o presidente do Comitê Cívico local, entidade que concentra empresários em favor da autonomia da região.

Tudo porque os camponeses partidários de Evo Morales prometiam abandonar nesta quarta-feira os bloqueios de estrada que estrangulam o abastecimento para marchar em direção à praça central da cidade que é a principal opositora ao regime esquerdista do ex-líder cocaleiro que chegou ao máximo cargo da Bolívia. Com o diálogo reiniciando, as marchas pararam na manhã de hoje a quilômetros da entrada da cidade.


Carro do governo boliviano foi destruído durante protestos


Pichação em prédio depredado chama Lula de 'intrometido'


Policial faz guarda diante de prédio do Fisco em Santa Cruz de la Sierra

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"Nosso movimento é pacífico. Tomara que não mexam com a gente, porque vamos reagir", afirmou Joel Guarach, líder rural que espera 5.000 agricultores no ato. Ao lado dele, um camponês fala, entre uma mascada e outra do bolo de coca que tem na boca, que quer ver a cara dos "malditos depois que ficaram sem batata e verdura".

"Eles podem vir que não temos medo deles", afirmou a autonomista Maria Luisa Limpias, que estava nesta terça em manifestação anti-Evo e em prol do governador preso de Pando, Leopoldo Fernández, acusado pela matança de 17 campesinos na fronteira com o Acre.

O ato mostrava o clima de tensão que vive a cidade, mesmo com o começo do diálogo entre as partes, que pareciam na semana passada à beira da guerra civil. "Eles querem impor sua cultura na nossa. Querem que nossas mulheres usem sete saias como as deles, que falemos quéchua. Não precisamos da cultura desses `collas´ sujos", se exaltou um jovem ao megafone falando da população do Altiplano, que é a maioria dos pobres do território. Depois se defendeu: "O governo diz que em Santa Cruz só há mafiosos, que quatro famílias mandam em tudo. Isso é mentira", gritou de trás de seus óculos espelhados.

Outros disparavam contra o principal aliado internacional de Morales, o presidente venezuelano, Hugo Chávez. "Evo é pobre índio que só obedece ao que o macaco do Chávez manda", disparou outra senhora aos microfones da imprensa local que cobriam o protesto na praça 24 de Septiembre. E sobrou até para Michelle Bachelet, a presidente chilena, que foi cicerone da cúpula sul-americana que discutiu a crise boliviana na última segunda: "Ela está enganando o Evo porque o Chile precisa de nosso gás."

Já Lula foi poupado nos comentários, mas não nas pichações - várias no centro da cidade o chamam de "metiche" (intrometido). "Pelo menos, ele teve a sensibilidade de ver a importância da oposição nessa crise e exigiu o diálogo nas conversas em Santiago", analisou Carol Durán, que gritava ordens de "fora comunistas" ao lado de mais 40 senhoras na frente da Catedral.

No subúrbio, as pichações são a favor de Morales. Mas, no centro de Santa Cruz, são todas ferozmente contrárias - principalmente as próximas dos edifícios públicos saqueados e depredados. Assassino, vendido, gay, filho de lhama, punheteiro, traficante. Toda tentativa de ofensa é válida para os ânimos acirrados.

Os destroços do vandalismo contra as repartições ligadas ao poder de La Paz não foram removidos. No prédio do Fisco, as calçadas estão cheias de cacos de vidro e uma faixa de "proibido passar" separa os transeuntes dos policiais municipais que vigiam o local. "De qual veículo você é? Você é brasileiro mesmo? Mostre sua credencial", foi a reação do chefe dos guardas com minha aproximação.

Mais amistosa foi a recepção na sede do INRA, instituto que tenta promover a reforma agrária no país, mas que teve sua documentação toda incendiada na última semana. "Minha amiga está solteira. O marido dela emigrou para a Espanha. Quer conhecê-la?", brincou a policial de plantão, atrás do portão retorcido que deu passagem para os opositores invadirem o prédio. Na rua, um carro oficial está estacionado tão destruído pela turba autonomista que parece o veículo veio rolando pelas ribanceiras dos Andes.

Já a sede da Entel, empresa telefônica estatizada por Morales, as cortinas e as persianas ventam para o lado de fora do prédio depois que a fachada envidraçada foi toda cravejada a pedradas. Os trabalhos de reparação já começaram, mas os equipamentos roubados não voltam mais para a firma que simboliza tanto a administração atual.

A vinda dos camponeses é vista como uma versão sul-americana das invasões bárbaras. "Temos que sair à cavalo com chicotes, dando neles", se inflama a advogada Mabel López. O último confronto com os camponeses foi no sábado e acabou com 20 jovens autonomistas feridos a golpes de bastão, rojão e pedras - um deles está em estado de coma. O grupo foi tentar desbloquear a rodovia que liga a cidade a Cochabamba.

Outro resultado da ação foi a queda do comando da ação: o presidente da União Juvenil Cruzenha, grupo radical de jovens de classe média que promoveu os atos mais violentos para defender o ponto de vista de Santa Cruz, foi destituído pelo erro estratégico.

Agora, o lema dos autonomistas é "serenidade". "Não podemos deixar que triunfem os demônios da guerra, que querem acender o pavio do confronto", discursou o governador Costas na televisão.

Na praça central, o protesto com placas chamando Morales de "filho da puta racista" e berros de megafone classificando Chávez de "venezuelano cagão" acabou uma hora depois que começou. Carol Duran, uma das mais animadas gritando "Evo genocida", enrolou sua bandeira e foi tomar sorvete para molhar a garganta. Depois do "helado de dulce de leche", ela aproveitou o final de tarde ensolarado para relaxar fazendo compras no centro. Será tão aprazível o cenário nesta quarta e nos próximos dias?
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