quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A DESCONSTRUÇÃO DA CIVILIDADE

Ranulfo Cardoso Jr. (*)


Se há civilidade, se construímos um arcabouço de regras para o convívio social, isto se deve às pessoas que pararam e pensaram sobre os acontecimentos em seus ambientes.

É a esta reflexão a que me reporto quando, tomado pelo eterno sofrimento da perda de um ente querido, comungo com muitos conterrâneos, amigos e familiares o sentimento de indignação quanto à decisão pusilânime, assumida pelo Tribunal do Júri de Campina Grande, nesta tarde de 21 de setembro de 2011, em não criminalizar o assassinato de que foi vítima, há 17 anos (!), a menina ROBERTINHA, ícone de toda uma geração de vítimas do trânsito em nossa cidade.

Robertinha teve sua vida ceifada aos 11 anos por um irresponsável que, fazendo um 'pega' às 5 da tarde na avenida Severino Cruz atropelou a garota quando ela saía da Escola Regina Coeli e pensava em voltar para casa para comemorar com os seus pais o resultado da sua aprovação naquele ano letivo. Era 30 de novembro de 1994, quando o assassino tomado pelo ódio – comum a todos aqueles que fazem do seu carro uma arma – arremessou a garota a mais de 15 metros sobre o muro da Sociedade Médica de Campina Grande, acabando com sua vida e destruindo os sonhos de sua mãe, pai, irmã, familiares, professores, coleguinhas.

Campina Grande, àquela época, foi às ruas exigir JUSTIÇA. Hoje, os 17 anos que esperamos pela justiça dos homens, foram transformados em impunidade e, institucionalmente, banalizou-se a VIDA!

Diante dos últimos acontecimentos no segmento trânsito se vê claramente que algo está errado e é preciso mudanças nas leis brasileiras. Cada vez mais se vê pessoas morrendo no trânsito pelos mais diversos e cruéis motivos. Na maioria das condenações os culpados pagam cesta básica ou realizam prestações de serviço comunitário com, por exemplo, pintar muros.

Enquanto em outros países o cidadão que comete crime de trânsito fica preso, aqui no Brasil se paga fiança para não ser preso. A vida humana está banalizada e nada se vê de concreto na contenção de ânimos exaltados. Cada vez mais se mata e nada é feito realisticamente para conter a criminalidade. As leis brasileiras favorecem aos sádicos e loucos agirem consciente e descaradamente nas ruas brasileiras.

São 50 mil (cinquenta mil) mortes anuais no Brasil por negligência e imprudência de condutores motorizados, pedestres, motociclistas, ciclistas. A cultura brasileira tem em seu âmago a banalização da vida. O trânsito é uma parte do segmento social e serve muito bem como denunciador da mentalidade dos brasileiros.

É preciso educação constante, combate à corrupção ativa e passiva, melhorias nos testes psicológicos dos futuros e atuais motoristas, condenação exemplar aos que teimam matar no trânsito e fechamento de autoescolas que incentivam desobediência às leis de trânsito.

Quando algo anormal passa a ser “normal” é necessário revisar os conceitos dentro de uma nação. A civilidade é fruto de doutrinação dos instintos e discernimento dos atos bárbaros. Quando se vive cotidianamente sem discernimento aos atos o cidadão segue sua vida condicionado, não lúcido, ao que faz.

O Tribunal do Júri de Campina Grande perdeu hoje a enorme oportunidade de promover o direito à vida como um bem maior e, com tal atitude, se apequenou em termos de representação da vontade da maioria dos paraibanos de construir uma sociedade mais justa e solidária!





Ranulfo Cardoso Jr. É médico, professor de Saúde Pública, coordenador adjunto do curso de medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Campina Grande (PB).

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