sábado, 25 de março de 2017

QUEM TEM MEDO DE BAUDRILLARD?

POR LIVRARIA CULTURA JOCÊ RODRIGUES


Jean Baudrillard foi o enfant terrible da teoria pós-moderna na filosofia. Não gostava do termo. Achava-o vago e sem sentido. Comprava brigas epistemológicas com gente do porte de Gilles Deleuze e Jacques Derrida. Criticava abertamente o culto à imagem como substituta da realidade e os meios de comunicação em massa. Os argumentos de Baudrillard eram capazes de tornar qualquer defesa de alguns aspectos da contemporaneidade irrisória. Para ele, comprar uma bolsa ou um carro é também comprar símbolos que concedem prazer e status ao detentor. Além disso, tais símbolos seduzem e despertam ambição. Essa é, segundo sua ótica, a lógica da sociedade moderna. Enfim, fazia um verdadeiro escarcéu.

Junto a Zygmunt Bauman (1925-2017) e Paul Virilio (1932), Jean Baudrillard forma talvez o trio de críticos mais contundente da comunicação e da era digital. Tão perigoso quanto o trio de ataque do Barcelona, por exemplo.

O francês, nascido em Reims no longínquo ano de 1929, sempre foi duro na queda. Desde o lançamento de O sistema dos objetos, em 1968, já provocava polêmica. Tido por muitos como sua obra máxima, ela sistematiza o discurso da mercadoria e faz reflexões sobre o caráter simbólico dos objetos, partindo do pressuposto de que eles medeiam as relações humanas. “…Hoje os objetos tornaram-se mais complexos que o comportamento do homem a eles relativo”, diz um trecho do livro.

Entre suas contribuições filosóficas está a criação de conceitos como cultura imagética, espetáculo, valor-sinal, mercadoria-signo, lei do código, maioria silenciosa e simulacro. Todos se ligam pela tentativa de criar conceitos explicativos para o capitalismo e para a modernidade. Infiel ao marxismo, Baudrillard inverte papéis até então intocados e transfere o protagonismo da esfera da produção para a do consumo. Foi responsável por revelar de modo mais direto que estamos imersos na era da simulação e do simulacro, além de mostrar que nossas pretensões de autenticidade e realidade são rasas e vãs.

Neste mês de março, completam-se dez anos da morte de Baudrillard, mas é incrível pensar em quanta coisa mudou em tão pouco tempo. As relações virtuais se intensificam velozmente e sequer sabemos aonde elas podem nos levar. Apenas apostamos – às vezes, alto demais. Não há tempo para pensar, não há tempo para a informação se transformar em conhecimento e ficamos à deriva, em um lugar onde supostamente deveríamos navegar. Os temas discutidos por ele quase sempre tinham acontecimentos contemporâneos como ponto de partida. A cultura pop, o terrorismo (bem mais acentuadamente depois do ataque às Torres Gêmeas): todos se tornaram gatilhos para algumas de suas reflexões mais pertinentes.



Para Jorge Barcellos, historiador, pesquisador e doutor em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “mais do que inovar com conceitos, Baudrillard codificou uma metodologia de construção de um sistema de pensamento”. Em seu entendimento, o pensador francês deu uma nova perspectiva aos estudos sociológicos. “Antes dele, a prática sociológica era formalista, isto é, muito restrita aos limites da disciplina e aos conceitos herdados da sociologia clássica a partir de Weber, Marx, Durkheim, Parsons e cia. Havia pouco espaço para a interdisciplinaridade, para o ensaísmo crítico e, principalmente, para a ironia na escrita”, explica. “Baudrillard colocou de cabeça para baixo tudo isso. Sua inspiração na linguística e na antropologia lhe possibilitou escrever um texto como um hieróglifo, que necessita tradução.”

BEM DE PERTO
Mesmo tão virulento na escrita e nas posições acadêmicas, a fama de bicho-papão parecia passar longe da vida cotidiana de Baudrillard. Juremir Machado, jornalista e doutor em sociologia pela Universidade de Paris V, foi seu orientando em 1998 e diz que o pensador era um homem “afável, irônico, inteligente demais, que sabia deixar a gente à vontade, um gentleman”. O tema de sua tese era comunicação e pós-modernidade e contava com o suporte de dois outros grandes pensadores franceses: Edgar Morin e Michel Maffesoli.

“Conheci Jean em 1991, por intermédio de Maffesoli. Fiz uma entrevista com ele sobre a iminência da Guerra do Golfo. Ficamos amigos. Eu o fiz vir a Porto Alegre algumas vezes, uma delas junto com Maffesoli e Morin, em 1993. Quando defendi minha tese de doutorado, na Sorbonne, em 1995, tendo Maffesoli como orientador e Morin na banca, Jean foi assistir. Foi um momento inesquecível para mim”, disse Machado, que conviveu de perto com aquele que, depois de certo tempo, passou a chamar carinhosamente de Jean.

A relação com seu orientador se baseava na informalidade, em assuntos sobre livros, jornais, ideias e política. “Jean sempre me pareceu uma pessoa especial. Ouvia o que as pessoas diziam, fazia comentários pontuais irônicos ou com muito humor, convidava para beber uma taça de vinho, contava alguma história das suas viagens, gostava de embarcar em projetos”, relembra.

É conhecida a ligação que Baudrillard tinha com o Brasil e parece haver um dedo de Juremir Machado nisso. Um dos projetos em que ele embarcou foi o de publicar alguns dos seus textos em terras tupiniquins. “Eu propus a ele que publicássemos no Brasil seus artigos do jornal Libération. Aceitou. Saiu no Brasil, em primeira mão, pela Sulina, Tela total, que depois teve edição na França. Fizemos também um livro pela Sulina unindo a poesia e as fotos dele, O anjo de estuque. Ele se entusiasmava e colaborava com os projetos. Era muito bacana.”

Ainda sobre a personalidade do fotógrafo, poeta, filósofo, sociólogo e semiólogo, Machado diz não se lembrar de tê-lo visto de mau humor. “Sempre o vi provocativo, amável e objetivo. Dizia o que pensava, não fazia concessões, não menosprezava o interlocutor.”

CORPO QUASE PRESENTE
Na tentativa de perseguir os caminhos e de dar contornos à turbulenta personalidade acadêmica e pessoal de Baudrillard, Paulo Alexandre Vasconcelos foi essencial a este repórter. Professor, doutor em ciências da comunicação e poeta, indicou os caminhos menos pantanosos e os nomes certos a serem ouvidos. Autor de Baudrillard – Do texto ao pretexto, Vasconcelos foi meu Virgílio em meio à densa floresta do pensamento baudrillardiano.

É visível a paixão que ele tem pela obra e pelo legado daquele que afirma ser um dos maiores pensadores que já tivemos. “A presença de Jean Baudrillard, mesmo em sua ausência corporis, permanece nos tempos contemporâneos, tendo em vista sua obra vasta – polêmica para muitos –, desde suas pontuações teóricas até sua poética ensaística em suas Cool Memories IIIIIIIV e V [série de livros considerada uma autobiografia do autor]. Jamais devemos esquecer sua leitura do mundo nesse formato, em que ele solta de modo mais claro a incongruência do sujeito dentro do caos. Ele faz antevisões que hoje recortam a história e nosso cotidiano mundial, nada se desdiz, continua atual e faz-se cumprir a miséria estúpida do nosso mundo, em um êxtase de descompasso”, garante.

A morte, aliás, era outro assunto tratado sensível e profundamente por Baudrillard, que, de sua maneira encrenqueira, flertava com a psicanálise. “Em A troca simbólica e a morte, ele se apropria de alguns paradigmas da psicanálise – o narcisismo, os princípios do prazer e da realidade, e os conceitos de pulsão de vida e de morte –, reinterpretando-os com base em uma economia política e sua signagem, realocando-os para uma nova contextualização, segundo ele, da contemporaneidade caótica do mundo do capital e seus envolvimentos densos na política. Enseja críticas a Marx e à psicanálise como um todo, acusando esta última ‘de ter, até certo ponto, contribuído para o fim do desejo e do inconsciente, por meio de uma metalinguagem do desejo’”, explica Vasconcelos.

“A questão do desaparecimento é tão central em Baudrillard como é em Paul Virilio. Só superamos um fato natural porque criamos o simbólico, isto é, representamos nossa relação com a morte e damos significado ao morto. Esse simbolismo transparece na religião. A higienização, a ciência, o medo nos afastam do reconhecimento da morte como etapa natural da vida. Não pensamos nela. Excluímos ela de nosso horizonte”, esclarece Barcellos.

O filósofo problemático não chegou a ver a ascensão das redes sociais e seria no mínimo curioso saber o que diria sobre elas e sobre a febre dos seriados que agora assola nossas pobres almas. Para Juremir Machado, “o real morreu” e a simulação “atingiu o grau máximo de sua realização”. Ele também acha provável que Baudrillard visse o boom das séries como uma universalização das novelas brasileiras. Jorge Barcellos acredita que, se ainda estivesse vivo, o francês ficaria muito interessado “em nossos novos artefatos tecnológicos, sejam eles os drones ou os novos efeitos do cinema” e nas revoltas pelo mundo, dada a crítica política aguçada que possuía.

Seja como for, o espírito inquieto do pensador invocado continua a encantar e a influenciar leigos e estudiosos interessados em compreender o real por vias ainda pouco exploradas. Enquanto o mundo continua a se transformar caoticamente, Jean Baudrillard permanece símbolo de ousadia e liberdade intelectu

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