quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

CARTA DE UMA PROFESSORA PORTUGUESA PARA MAITÉ PROENÇA



-Contribuição Anselmo Dantas PB-
CARTA DE UMA PROFESSORA PORTUGUESA PARA MAITÉ PROENÇA


Maitê Proença disse no programa "Saia Justa" umas gracinhas sobre a
inteligência dos portugueses.

O programa passa em Portugal e causou um grande mal-estar lá na terrinha.

Uma Doutora Portuguesa deu-lhe a resposta.

Obs : É isso que dá, alguem despreparado emitir conceitos sobre
assuntos que não domina,

com apoio dos alienados das redes de TV Brasileira ,que se consideram
o maximo em cultura.

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Exma. Senhora:

Foi com indignação que vi a ‘peça cómica’ que fez em Portugal e
passou no programa Saia Justa em que participa. Não que me espante que
o tenha feito – está à altura da imagem que há muito tenho de si, pelo
que me tem sido dado ver pelos seus desempenhos – mas sim pelo facto
da TV Globo ter permitido que tal ignorância fosse para o ar.
Só para que possa, se conseguir, ficar um pouco mais
esclarecida: A ‘vilazinha’ de Sintra é património da Humanidade,
classificada pela UNESCO e unanimemente reconhecida como uma das mais
belas e bem preservadas cidades históricas do mundo;
Em Portugal, onde existem pessoas que olham para o mouse do seu
computador como se de uma capivara se tratasse, foi onde foi
inventado o serviço pré-pago de telefones móveis (os celulares) – não
existia nenhum no mundo que sequer se aproximasse e foi também o que
inventou o sistema de passagem nas portagens (pedagios, se preferir),
sem ter que parar – quando passar por alguma, sem ter que ficar na
fila, lembre-se que deve isso aos portugueses.
É um dos países do Mundo com maior taxa de penetração de
computadores e serviços de internet em ambiente doméstico. É o único
país do mundo onde TODAS as crianças que frequentam a escola têm
acesso directo a um computador (no próprio estabelecimento de ensino)
– e em Portugal TODAS as crianças vão à escola.. Muitas delas até têm
um computador próprio, para seu uso exclusivo, oferecido ou
parcialmente financiado pelo Ministério da Educação – já ouviu falar
do Magalhães? É natural que não... mas saiba que é uma criação nossa,
que está a ser adquirida por outros países. Recomendo-o vivamente – é
muito simples e adequado para quem tem poucos conhecimentos de
informática.
Somos tão inovadores em matéria de utilização de tecnologia
informática e web nas escolas, que o nosso caso foi recomendado por
especialista americanos, como exemplo a seguir, a Barack Obama, que é
só o Presidente dos Estados Unidos – ao Sr. Lula da Silva tal não
seria oportuno, porque ele considera que a Escola não é determinante
no sucesso das pessoas (e, no Brasil, a julgar pelo próprio, tem toda
a razão).
A internet à velocidade de 1 Mega, em Portugal há muito que é
considerada obsoleta – eu percebo que não entenda porquê, porque no
Brasil é hoje anunciada como o grande factor diferenciador a
transmissão por cabo que já não nos interessa. Já estamos noutra –
estamos entre os países do mundo com a rede de fibra óptica mais
desenvolvida.E nesse contexto 1 Mega é mesmo uma brincadeira.
O ditador a que se refere – o Salazar – governou, infelizmente,
‘mais de 20 anos’, mas para a próxima, para ser mais precisa, diga que
foram 48 (INFELIZMENTE, é mais do dobro de 20). Ainda assim, e apesar
do muito dano que nos causou a sua governação, nós, portugueses,
conseguimos em 35 anos reduzir praticamente a ZERO a taxa de
analfabetos e baixar para cifras irrisórias o nível de mortalidade
infantil e de mulheres no parto onde estamos entre os melhores do
mundo.
Criar uma rede viária que é das mais avançadas do mundo – em
Portugal, sem exceder os limites de velocidade e sem correr risco de
vida, fazemos 300 km em duas horas e meia (daria tanto jeito que no
Brasil também fosse assim!).
Melhorar muito o nível de vida das pessoas, promovendo salários
e condições de trabalho condignos. Temos ainda muito para fazer nesta
matéria, mas já não temos pessoas fechadas em elevadores, cuja função
é apenas carregar no botão do andar pretendido – cada um de nós sabe
como fazê-lo e aproveitamos as pessoas para trabalhos mais
estimulantes e úteis; também já não temos trabalhadores agrícolas em
regime de escravatura – cada pessoa aqui tem um salário, não trabalha
a troco de um prato de comida.
Colocar-nos na vanguarda mundial das energias renováveis, menos
poluentes, mais preservadoras do planeta; enquanto uns continuam a
escavar petróleo, nós estamos a instalar o maior parque de energia
eólica do mundo (é a energia produzida a partir do vento).
Poderia também explicar-lhe quem foi Camões, Fernando Pessoa,
etc., cujos túmulos viu no Mosteiro dos Jerónimos, mas eles merecem
muito mais.
Ah!, já agora, deixe-me dizer-lhe também que num ponto estou
muito de acordo consigo: temos muito pouco sentido de humor. É
verdade. Não acharíamos graça nenhuma se tivéssemos deputados a
receber mesada para votarem num certo sentido, não nos divertiria
muito se encontrassem dirigentes políticos com dinheiro na cueca, não
nos faria rir ter senadores a construir palácios megalómanos à conta
de sobre-facturação do Estado, não encontramos piada quando os
políticos favorecem familiares e usam o seu poder em benefício
próprio. Ficaríamos, pelo contrário, tão furiosos, que os colocaríamos
na cadeia. Veja só – quanta falta de humor! Mas, pelo contrário,
fazem-me rir as sessões plenárias do senado brasileiro. Aqui em
Portugal , e estou certa que em toda a Europa, tal daria um excelente
programa de humor.
Que estranho não é?!
Para terminar só uma sugestão: deixe o humor para quem no
Brasil o sabe fazer com competência (e há humoristas muito bons no
Brasil). Como alternativa, não sei o que lhe sugerir, porque ainda não
a vi fazer nada que verdadeiramente me indicasse talento...
Peço desculpa por não poder contribuir.

Mafalda Carvalho
Dra Profa Universidade de Coimbra

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