sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

CINEMA


CINEMA
A lista das listas
Um livro – com a lista dos “100 melhores filmes” – avança no duvidoso terreno das listas, com a escolha de 100 obras, a cargo do crítico inglês Ronald Bergan.
Por Fernando Monteiro

Listas? Para que servem as listas dos “melhores filmes de todos os tempos”? Talvez para ocupar o tempo – e a cabeça – de críticos que, recém-divorciados, acabam de estrear apartamento novo, num daqueles sábados longos da vida de solteiro entretida mais com velhos filmes do que com novas companhias. Seja como for, foram os redatores da respeitada revista inglesa Sight & Sound que, em 1952, começaram com a mania, elegendo “os melhores 10 filmes produzidos até o início dos anos 50”, e para isso convocando uma espécie de “colegiado” de cineastas, teóricos e (é claro) colegas – fanáticos e menos fanáticos – que terminaram elegendo os títulos.

Os filmes empatados fizeram surgir 12 eleitos (predominando produções européias, note-se), com Chaplin emplacando duas obras nas primeiras posições, e mais a presença de algumas admira-ções recentes – naquela época – determinando votos de puro entusiasmo da década pós-guerra (o melhor exemplo disso é Louisiana Story, filme quase esquecido hoje em dia). Estavam inauguradas as “listas” dos melhores, no cinema, e a da revista britânica fixou o prazo de uma década para pro-mover nova votação. Em 1962, portanto, veio a segunda votação, já em outro ambiente cultural, com sensíveis diferenças da primeira.

Dez anos se passaram, e, em 1972, a terceira lista manteve seis obras da última votação (Cida-dão Kane, A Regra do Jogo, O Encouraçado Potemkin, A Aventura, O Martírio de Joana D´Arc e Contos da Lua Vaga, também conhecido como Contos da Lua Vaga após a Chuva). Como obras novatas na consagração dos críticos, surgiram Fellini Oito e Meio (Otto e Mezzo, de Federico Fellini – Itália, 1963), Quando Duas Mulheres Pecam (Persona, de Ingmar Bergman – Suécia, 1966), A Ge-neral (The General, de Buster Keaton – EUA, 1926), Soberba (The Magnificent Ambersons, de Orson Welles – EUA, 1942), e mais uma obra-prima do sueco Bergman: Morangos Silvestres (Smultronstället, de 1957).

Nossa intenção é falar de uma lista – ainda maior – dos melhores filmes da história do cinema, sujeita “a chuvas e tempestades” como é a longa relação das 100 excelências que o crítico Ro-nald Bergan resolveu apresentar em livro, com omissões inacreditáveis e – surpresa – a presença do brasileiro Cidade de Deus na penúltima posição. Bergan é muito respeitado, e um livro de 510 páginas (que acaba de ser traduzido e lançado pela Zahar) traz as 100 obras que ele escolheu, com os seus comentários sobre os filmes listados por muitos motivos. Não dá para resumi-los num artigo, porém aqui vai a relação que o crítico elaborou debaixo do fog (às vezes “míope”) de Londres, com os seus “100 melhores” ordenados em ordem rigorosamente cronológica, conforme Bergan preferiu.

O Nascimento de uma Nação – O Gabinete do Dr. Caligari – Nosferatu, o Vampiro –Nanook, o Esquimó – O Encouraçado Potemkim – Metrópolis – Napoleão – Um Cão Andaluz – O Martírio de Joana d’Arc – Nada de Novo no Front – O Anjo Azul – Luzes da Cidade – Rua 42 – O Diabo a Qua-tro – King Kong – O Atalante – Branca de Neve e os Sete Anões – Olímpia – A Regra do Jogo – ... E o Vento Levou – Jejum do Amor – As Vinhas da Ira – Cidadão Kane – Relíquia Macabra – Pérfida – Ser ou Não Ser – Nosso Barco, Nossa Vida – Casablanca – Obsessão – O Bulevar do Crime – Nesse Mundo e no Outro – A Felicidade Não se Compra – Ladrões de Bicicleta – Carta de uma Desconhecida – Um País de Anedota – O Terceiro Homem – Orfeu – Rashomom – Cantando na Chuva – Era uma Vez em Tóquio – Sindicato de Ladrões – Tudo o que o Céu Permite – Juventude Transviada – A Canção da Estrada – A Mensagem do Diabo – O Sétimo Selo – Um Corpo que Cai – Cinzas e Diamantes – Os Incompreendidos – Quanto Mais Quente Melhor – Acossado – A Doce Vida – Tudo Começou no Sábado – A Aventura – O Ano Passado em Marienbad – Lawrence da Arábia – Dr. Fantástico – A Batalha de Argel – A Noviça Rebelde – Andrei Rublev – The Chelsea Girls – Bonnie e Clyde – Meu Ódio Será sua Herança – Sem Destino – O Conformista – O Poderoso Chefão – Aguir-re, a Cólera dos Deuses – Nashville – O Império dos Sentidos – Taxi Driver – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa – Guerra nas Estrelas – O Casamento de Maria Braun – O Franco-Atirador – ET, o Extra-terrestre – Blade Runner, o Caçador de Andróides – Paris, Texas – Heimat – Vá e Veja – Veludo Azul – Shoah – Uma Janela para o Amor – Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos – Cinema Paradiso – Faça a Coisa Certa – Lanternas Vermelhas – Os Imperdoáveis – Cães de Aluguel – Trois Couleurs – Através das Oliveiras – Quatro Casamentos e um Funeral – Troy Story – Fargo, uma Comédia de Erros – O Tigre e o Dragão – Amor à Flor da Pele – Traffic – O Senhor dos Anéis – Cidade de Deus – Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.

Aí está. Serve para alguma coisa? Talvez sirva para um cinéfilo iniciante se orientar, na escolha de filmes do acervo de alguma boa locadora, etc. – sem a garantia, entretanto, da plena confiança numa lista dos 100 “mais-mais” da história do cinema que não incluiu obras-primas como Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa, O Criado (The Servant, de Joseph Losey), Os Desajustados (The Mis-fits, de John Huston), Deus e o Diabo na Terra do Sol (de Glauber Rocha), O Leopardo (Il Gattopar-do, de Luchino Visconti), Vidas Amargas (Lest of Eden, de Elia Kazan) e muitos outros filmes exclu-ídos –, enquanto Ronald Bergan consegue encontrar lugar para coisas como O Tigre e o Dragão, O Senhor dos Anéis e Toy Story, etc. Porém, talvez as listas desse tipo só existam unicamente pelo bom motivo de termos algo para contestar, com nossas próprias escolhas, no jogo da paixão pelo cinema – que continua viva.



(Leia o material na íntegra, na edição nº 85 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas)






Fernando Monteiro é escritor e crítico cultural.



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